Ilustração de microrganismos com formas alongadas e esféricas em tons de azul e verde.

Aumento de 80%: Nova Friburgo tem mortes e suspeita de surto de doença contagiosa

Doença que tem vitimado animais é altamente contagiosa e o município já registra quase 70 casos em humanos. Veja os bairros com maior índice de contágio

Nova Friburgo registrou 169 notificações de esporotricose em animais até 11 de agosto de 2026, número que já supera em 83,7% os 92 registros de todo o ano de 2025. Os dados integram a resposta da Prefeitura a um requerimento do vereador Cláudio Damião (PT), que nesta terça-feira, 29 de setembro, denunciou o crescimento dos registros e informou ter recorrido ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) para pedir apuração sobre a atuação municipal.

A documentação revela problemas que vão além do aumento das notificações. A própria Vigilância em Saúde Ambiental reconhece que o recolhimento e o manejo de animais mortos são realizados por um fluxo emergencial, sem a estrutura necessária para manter essa atividade de forma permanente e com segurança. O relatório aponta risco ocupacional aos servidores e necessidade de uma solução definitiva.

A Secretaria Municipal de Bem-Estar e Proteção Animal (SEBEA), por sua vez, informa que não possui clínica contratada especificamente para tratamento e isolamento de animais com esporotricose. Também declara que não oferece atendimento veterinário ambulatorial gratuito a animais com tutor, mesmo quando a família comprova falta de condições financeiras.

Presidente da comissão parlamentar de defesa dos animais, Damião criticou especialmente as respostas da SEBEA. Segundo o vereador, a Vigilância apresentou ações e medidas de enfrentamento, enquanto a atuação da pasta de proteção animal ficou aquém das necessidades do município.

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São 166 gatos e três cães notificados em 2026

O número de 166 divulgado pela assessoria do parlamentar corresponde aos felinos notificados, e não à totalidade dos animais. Em 2025, foram registrados 90 gatos e dois cães. Considerando somente os felinos, os registros passaram de 90 para 166, uma diferença de 76 notificações, equivalente a 84,4% acima do total do ano anterior.

Indicador 2025 2026, até 11 de agosto
Gatos notificados 90 166
Cães notificados 2 3
Total de animais notificados 92 169

Embora apresentados publicamente nesta terça-feira, os números têm corte em agosto. Eles não representam um levantamento atualizado até 29 de setembro.

A Vigilância também faz uma ressalva importante: o crescimento dos registros não pode ser atribuído exclusivamente ao aumento da transmissão. A notificação compulsória da esporotricose animal no Estado do Rio foi estabelecida em julho de 2025, e a ampliação da capacidade de identificar e registrar ocorrências influencia a série.

Isso não afasta a preocupação sanitária. O próprio documento municipal reconhece elevada ocorrência da doença em animais, principalmente gatos, e risco de transmissão para pessoas. Mas os registros não significam que todos os animais estejam simultaneamente doentes ou transmitindo a infecção.

Relatório reconhece risco aos servidores no manejo de animais mortos

Um dos pontos mais graves da resposta municipal é o reconhecimento das limitações no recolhimento, transporte e armazenamento de cadáveres de animais acometidos pela doença.

A Vigilância informa que recebe carcaças e, em determinadas situações, realiza o recolhimento quando o tutor não consegue transportá-las ou quando se trata de animal sem responsável. Segundo o documento, o material é encaminhado à EBMA pelo fluxo municipal disponível.

Entretanto, o relatório afirma expressamente que esse modelo é emergencial e não constitui uma estrutura tecnicamente adequada e definitiva para o manejo de animais mortos por doenças infectocontagiosas.

Entre as carências apontadas estão veículo exclusivo e apropriado, câmara frigorífica, espaço físico separado, área de higienização e descontaminação, equipamentos de proteção específicos em quantidade suficiente e um fluxo permanente de destinação por empresa especializada.

A conclusão técnica é direta: essas limitações aumentam o risco ocupacional dos servidores envolvidos. A sede da Vigilância, segundo o próprio órgão, não foi concebida para funcionar como uma unidade permanente de recebimento, transporte e armazenamento de carcaças.

O documento recomenda tratamento prioritário do assunto e a avaliação de contrato ou convênio com empresa habilitada para coleta, transporte e destinação por incineração ou cremação sanitariamente adequada.

Há, portanto, uma diferença entre a denúncia de ausência de uma solução adequada e a afirmação de que nada é feito: a resposta registra uma atuação emergencial, mas admite que ela precisa ser substituída por uma estrutura permanente.

Contrato da SEBEA não contempla tratamento específico da doença

Na manifestação assinada em 17 de agosto pelo secretário André Luiz Silva de Morais, a SEBEA informa que mantém contrato para atendimento veterinário de urgência e emergência de animais sem tutor.

Contudo, o contrato não contempla tratamento específico, isolamento ou manejo da esporotricose. A secretaria explica que, quando um animal internado por uma ocorrência coberta pelo contrato apresenta suspeita ou confirmação da doença, a clínica adota medidas de isolamento durante a internação. Isso não amplia o objeto contratado.

A pasta também afirma que não disponibiliza atendimento veterinário ambulatorial gratuito para animais domiciliados, mesmo diante de vulnerabilidade financeira do tutor. No âmbito dos serviços administrados pela SEBEA, igualmente não há recolhimento de carcaças de animais com tutor diretamente oferecido às famílias.

Essas respostas expõem uma lacuna entre as necessidades de assistência e os serviços contratados pela secretaria. Para quem não consegue pagar consultas ou manter um animal isolado durante o tratamento, a distribuição de medicamento precisa estar acompanhada de acesso à avaliação veterinária e de condições para seguir a prescrição.

A SEBEA sustenta que realiza orientação presencial e telefônica por médico-veterinário, distribui materiais educativos e encaminha os cidadãos à Vigilância. Defende que sua atuação ocorre em cooperação com a Saúde, respeitando a divisão de atribuições entre os órgãos.

Vigilância acompanha 201 animais e distribuiu 26 mil comprimidos

A resposta da Vigilância Ambiental descreve uma atuação mais ampla do que a entrega de remédios. Na atualização apresentada ao Legislativo, o órgão informa 147 tutores cadastrados, 201 animais acompanhados e tratados e 26.050 comprimidos de itraconazol distribuídos em 2026.

Também registra 52 investigações relacionadas à esporotricose e aproximadamente 45 agentes de combate às endemias em atividades de campo. Esses agentes atuam em diferentes ações de vigilância e prevenção, e não exclusivamente no enfrentamento dessa doença.

O acesso ao medicamento ocorre mediante cadastro e prescrição veterinária, conforme disponibilidade. Para tutores sem condições de obter avaliação prévia, o documento informa que o veterinário de referência da Vigilância pode realizar avaliação no local e, diante de quadro compatível, autorizar a inclusão no acompanhamento.

Os 201 animais acompanhados não devem ser somados às 169 notificações de 2026. São indicadores diferentes: o cadastro operacional pode incluir animais que ingressaram no tratamento em outros momentos.

A Vigilância classifica o fornecimento de medicamentos e parte da assistência como medidas emergenciais. Recomenda que o componente assistencial permanente seja estruturado no âmbito da política de bem-estar animal, especialmente pela SEBEA, com transição planejada.

O relatório adverte que uma interrupção abrupta do atendimento atual pode comprometer o controle sanitário da doença.

Registros de mortes têm divergência dentro da resposta

A documentação também apresenta 26 registros de desfechos envolvendo morte de animais em 2026, mas há uma inconsistência na forma de classificá-los.

Em uma seção, o relatório menciona 26 evoluções para óbito. Em tabelas posteriores e no quadro-resumo, discrimina 25 óbitos e uma eutanásia, mantendo o total de 26.

A diferença precisa ser esclarecida para que as categorias sejam apresentadas corretamente. Além disso, o próprio documento orienta que a evolução registrada como óbito não seja tratada automaticamente como comprovação de que a esporotricose foi a causa exclusiva da morte, sem revisão individual.

Para 2025, não constam óbitos ou eutanásias na base analisada. A Vigilância ressalta que isso significa ausência de registro naquela base, e não prova de que nenhuma morte ocorreu no município.

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Centro e São Geraldo lideram levantamento territorial

No mapeamento de felinos atualizado em 7 de agosto, Centro e São Geraldo aparecem com 13 registros cada. Em seguida estão Riograndina, com nove, e Bela Vista, com oito.

Localidade Registros felinos no levantamento
Centro 13
São Geraldo 13
Riograndina 9
Bela Vista 8
Cascatinha 7
Córrego D’Antas 7
Granja Spinelli 6
Tingly 6
Braunes 5
Chácara do Paraíso 5
Conselheiro Paulino 5

O levantamento reúne 150 registros territorializados e inclui outras localidades. A diferença para os 166 gatos consolidados até 11 de agosto decorre das datas distintas de atualização.

A Vigilância recomenda chamar esses locais de áreas com maior concentração de registros, evitando classificá-los automaticamente como focos ou bairros em surto sem análise específica.

Dos 169 animais notificados em 2026, 154 estavam vinculados à área urbana, dez à rural e cinco à periurbana. O predomínio urbano não elimina a necessidade de acompanhamento nos demais territórios.

São 69 notificações humanas desde 2021, sem crescimento contínuo

No componente humano, a resposta registra 69 casos ou notificações entre 1º de janeiro de 2021 e 10 de agosto de 2026. Desse total, oito correspondem a 2026.

A série apresentada informa dez registros em 2021, 13 em 2022, nove em 2023, 19 em 2024 e dez em 2025. Os dados estão sujeitos a revisão.

A Vigilância ressalta que os números oscilam e não demonstram uma sequência contínua de crescimento. Por isso, a elevada ocorrência em animais não permite, isoladamente, caracterizar uma epidemia humana.

A distinção não reduz a importância da prevenção. A esporotricose é uma infecção por fungos que pode afetar animais e pessoas. A transmissão pode ocorrer por arranhaduras, mordeduras ou contato com lesões de animais infectados, além de exposição a materiais contaminados. Ministério da Saúde

Damião pede acolhimento, tratamento e destinação segura ao MPRJ

Na representação encaminhada ao Ministério Público, o vereador acusa o município e a SEBEA de omissão e negligência no enfrentamento da doença. Essas são alegações submetidas à apuração, e não conclusões já estabelecidas pelo órgão.

O documento reúne referências a reportagens, imagens e relatos de moradores e protetores. Damião sustenta que voluntários não dispõem de estrutura física e financeira para manter vários gatos sem tutor isolados e medicados durante meses.

“Não restou outra coisa que não seja recorrer ao Ministério Público, que eu espero que faça alguma coisa”, afirmou o parlamentar na declaração divulgada por sua assessoria.

Entre os pedidos estão a estruturação de acolhimento, triagem, isolamento e tratamento de felinos sem tutor; a definição de protocolos de notificação; um serviço gratuito e adequado para recolhimento e destinação de animais mortos; e ações permanentes de educação em saúde.

O vereador também solicita que o MPRJ avalie medidas extrajudiciais ou judiciais para assegurar uma política integrada, com responsabilidades, metas e acompanhamento. O material apresentado não contém uma decisão do Ministério Público nem comprovação de abertura de investigação.

Saúde reconhece necessidade de solução permanente

Em manifestação assinada em 1º de setembro, o secretário municipal de Saúde, Gabriel Costa Wenderroschy, reconhece a necessidade de estruturar uma solução permanente para o fornecimento de medicamentos e para coleta, transporte e destinação de carcaças.

O secretário informa que a demanda deverá ser formalizada para adoção de providências administrativas e eventual contratação, em conjunto com outras secretarias, observadas as competências e a disponibilidade orçamentária. Sobre equipamentos de proteção, afirma que a administração realiza compras anuais e que as unidades devem apresentar suas necessidades específicas.

A SEBEA, por sua vez, informa que o contrato de castração prevê 1.200 procedimentos por ano, mas o programa não é direcionado exclusivamente às áreas com maior ocorrência de esporotricose. O número representa a previsão contratual, não a quantidade de cirurgias comprovadamente realizadas.

Nos documentos analisados, o reconhecimento dos problemas não vem acompanhado de prazo para implantação da estrutura definitiva. As respostas descrevem ações em andamento, mas também expõem a dependência de medidas emergenciais e de articulação entre as pastas para garantir assistência e segurança.

Animais suspeitos precisam de avaliação e não devem ser abandonados

O Ministério da Saúde orienta que animais com suspeita de esporotricose sejam avaliados por veterinário e mantidos separados de outros animais e de pessoas, com manejo seguro. O tratamento deve seguir a orientação profissional.

Em caso de morte, o corpo não deve ser enterrado nem colocado no lixo comum. A orientação é buscar encaminhamento para incineração, evitando a manutenção do ciclo da doença no ambiente. Animais doentes não devem ser abandonados. Ministério da Saúde

Em Nova Friburgo, a resposta municipal orienta os tutores cadastrados a comunicar o óbito à Vigilância Ambiental. Como o atendimento descrito depende de avaliação e das condições operacionais do órgão, o procedimento deve ser combinado antes do transporte ou da manipulação do corpo.

Pessoas com lesões suspeitas devem procurar atendimento de saúde para investigação e tratamento. Ministério da Saúde

Contato informado pela SEBEA

  • Telefone e WhatsApp: (22) 2525-9111.
  • E-mail: sebeanf@gmail.com.
  • Atendimento presencial: Avenida Alberto Braune, 223, Centro, Nova Friburgo.

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