Montagem com a Prefeitura de Nova Friburgo e elementos da Câmara Municipal, representando o pedido de impeachment anunciado contra Johnny Maycon.

“Não tem mais condição”: vereador anuncia impeachment do Prefeito Johnny Maycon

Pedido será formulado e encaminhado para a Câmara Municipal e pode ser aceito. Entenda o porquê

A crise da Previdência dos servidores de Nova Friburgo chegou ao limite da paciência de parte dos vereadores e abriu a frente política mais grave enfrentada até agora pelo prefeito Johnny Maycon. Depois de uma sessão legislativa marcada pela exposição de dívidas, repasses incompletos e obrigações previdenciárias que não teriam sido cumpridas integralmente pela Prefeitura, o vereador Cláudio Damião (PT) anunciou que prepara um pedido de impeachment contra o chefe do Executivo. Os vereadores Maiara Felício (PT), Marcos Marins (PSD) e Maicon Gonçalves (Mobiliza) já se manifestaram favoráveis ao pedido. A sessão ocorreu na quinta-feira, 11 de junho, e colocou novamente no centro do plenário os valores devidos pelo Município ao Regime Próprio de Previdência Social, o RPPS. O pedido ainda não foi protocolado. Portanto, não existe processo de impeachment aberto, nem afastamento do prefeito. Johnny Maycon continua exercendo normalmente o mandato. O anúncio, porém, muda o tamanho da crise. O que vinha sendo tratado por meio de documentos, cobranças políticas e investigações sobre a Previdência agora pode se transformar em uma tentativa formal de cassação.

“Não tem mais condição de permanecer”

Cláudio Damião adotou um discurso de rompimento completo com o governo. — O prefeito Johnny Maycon não tem mais condição de permanecer à frente do Executivo — afirmou. Na avaliação do vereador, a situação das contas municipais e da Previdência demonstra que a gestão perdeu condições políticas e administrativas de seguir no comando da Prefeitura. — A nossa cidade está perto de um colapso financeiro, com as contas quebradas e o risco da falta de dinheiro para pagar os servidores municipais — declarou. A afirmação representa a posição política de Cláudio Damião. Até a publicação desta reportagem, não havia confirmação oficial de que a Prefeitura estivesse imediatamente sem recursos para pagar os salários dos servidores. O parlamentar também atribuiu o crescimento do passivo previdenciário à condução do governo. — O rombo na Previdência do Município é mais um capítulo da incompetência do prefeito — disse. Em seguida, confirmou que pretende levar o pedido à Câmara. — Apresentaremos um pedido de impeachment do prefeito, por entender que, se ele continuar, levará a nossa cidade para o fundo do poço.

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Previdência deixou de ser apenas uma crise contábil

O anúncio ocorre depois de semanas de revelações sobre a situação financeira da Previdência municipal. Documentos analisados pelo Portal EcoSerrano mostraram aportes para amortização do déficit atuarial que deixaram de ser pagos integralmente, contribuições patronais repassadas abaixo dos valores devidos e tentativas de parcelamento que ainda não conseguiram solucionar o passivo. A crise também passou a ser formalmente investigada pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Em documento obtido com exclusividade pelo EcoSerrano, o MPRJ informou ter encontrado, numa análise preliminar, indícios de “inadimplemento reiterado e sistemático” das contribuições previdenciárias. A promotora responsável pelo caso ainda classificou o não repasse das contribuições como um “desvio estrutural”, por postergar uma obrigação legal e comprometer a integridade do sistema previdenciário. A abertura do inquérito civil não representa condenação do prefeito, nem comprovação de improbidade ou crime. Ela demonstra, porém, que o problema deixou de ser apenas uma disputa política e passou a ser apurado formalmente por um órgão de controle. Johnny Maycon, como chefe do Poder Executivo, foi chamado a apresentar explicações detalhadas sobre valores devidos, pagamentos realizados, atrasos, parcelamentos e medidas adotadas para recuperar o equilíbrio do RPPS.

Valores apresentados aumentaram a pressão na Câmara

Na sessão de 11 de junho, vereadores voltaram a discutir os números da crise previdenciária e as consequências que o crescimento da dívida pode trazer para o Município. A Previdência precisa receber regularmente três grupos principais de recursos:
  • a contribuição descontada dos salários dos servidores;
  • a contribuição patronal de responsabilidade da Prefeitura;
  • os aportes destinados a reduzir o déficit atuarial acumulado.
Quando esses valores não são repassados integralmente, a dívida não desaparece. Ela continua crescendo, recebe encargos e aumenta a necessidade de novos aportes do orçamento municipal. Na prática, quanto maior o passivo previdenciário, maior poderá ser a quantidade de dinheiro retirada do caixa geral da Prefeitura para financiar aposentadorias e pensões no futuro. Esse dinheiro pertence ao mesmo orçamento que sustenta saúde, educação, limpeza urbana, assistência social, infraestrutura e pagamento de servidores. Foi essa ligação entre a dívida previdenciária e o risco para o restante da Administração que elevou o tom dentro da Câmara.

Base de 17 vereadores já não parece tão sólida

Johnny Maycon vinha contando com uma base estimada em 17 dos 21 vereadores, o que garantia ao governo ampla margem para aprovar projetos e evitar derrotas no plenário. O cenário, entretanto, começou a mudar. A repercussão da crise da Previdência, a abertura do inquérito civil pelo Ministério Público e a exposição pública dos valores devidos aumentaram a pressão sobre parlamentares que mantinham proximidade com o governo. O anúncio de Cláudio Damião é o primeiro passo para testar até onde essa base permanece de pé. Isso não significa que já existam votos suficientes para abrir um processo de impeachment ou cassar o mandato do prefeito. A posição real de cada parlamentar somente ficará evidente depois que a denúncia for formalmente protocolada e levada a votação. O que antes era tratado como certo agora se tornou incerto. Vereadores que integravam a maioria governista poderão ser obrigados a decidir nominalmente se permitem ou não a abertura de uma investigação política contra Johnny Maycon.

Pedido não provoca afastamento automático

Protocolar um pedido de impeachment não significa afastar imediatamente o prefeito. A denúncia precisará apresentar fundamentos, indicar os atos atribuídos a Johnny Maycon e demonstrar por que esses fatos poderiam configurar infração político-administrativa. Depois do protocolo, a Câmara deverá verificar se o pedido cumpre os requisitos formais e jurídicos. Se a denúncia avançar, os vereadores terão que votar a abertura do processo. Considerando uma Câmara com 21 parlamentares, serão necessários 14 votos — dois terços da Casa — para que o procedimento seja instaurado e uma Comissão Processante seja criada. Se o pedido não alcançar o número exigido, será rejeitado e arquivado. Caso seja admitido, inicia-se um processo com análise de documentos, apresentação de defesa, produção de provas e julgamento pelo plenário. Johnny Maycon terá direito ao contraditório e à ampla defesa.

Quem poderá assumir a Prefeitura

Caso Johnny Maycon perca definitivamente o mandato, o primeiro nome da linha sucessória é o vice-prefeito Rodrigo Ascoly, desde que esteja juridicamente apto a exercer o cargo. Ascoly está afastado de funções para se dedicar ao projeto eleitoral de disputar uma vaga de deputado estadual. A sucessão dependerá da natureza jurídica dessa licença e da situação do mandato de vice-prefeito no momento de uma eventual cassação. Se Rodrigo Ascoly continuar titular do mandato e puder assumir, ele deverá ocupar a Prefeitura. Caso esteja licenciado, impedido ou não possa exercer imediatamente o cargo, o presidente da Câmara Municipal, Dirceu Tardem, poderá assumir interinamente o comando do Executivo, conforme as regras aplicáveis à sucessão municipal. Assim, uma eventual saída de Johnny Maycon poderá levar tanto Rodrigo Ascoly quanto Dirceu Tardem ao comando da Prefeitura, dependendo da situação jurídica do vice no momento em que a vacância ocorrer. Apenas a preparação ou abertura do processo não muda o comando do Município. A sucessão só entra em discussão se houver afastamento juridicamente válido ou cassação definitiva.

Votação poderá mostrar um novo mapa político

Caso a denúncia seja protocolada, a votação sobre a abertura do processo mostrará com clareza quais vereadores ainda permanecem ao lado de Johnny Maycon e quais estão dispostos a permitir uma investigação formal dentro da Câmara. O governo entra nessa disputa carregando o peso de uma sequência de acontecimentos: crescimento da dívida previdenciária, cobrança pública por explicações, abertura de inquérito civil pelo MPRJ e, agora, o anúncio de um pedido de impeachment. A oposição, por outro lado, precisará transformar discursos fortes em uma denúncia juridicamente consistente. Não bastará convencer a opinião pública. Para abrir o processo, Cláudio Damião e os demais apoiadores do pedido precisarão reunir 14 votos. Até a publicação desta reportagem, o vereador não havia divulgado a data exata do protocolo nem apresentado a versão final dos fundamentos jurídicos. O Portal EcoSerrano procurará Johnny Maycon e a Prefeitura de Nova Friburgo para manifestação sobre o anúncio do pedido de impeachment. O posicionamento será incluído na reportagem assim que for encaminhado.

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