Criança autista com blocos de montar, em momento de reflexão, em Nova Friburgo.

Câmara aprova projeto para proteger crianças vítimas de violência em Nova Friburgo

Proposta estabelece diretrizes para escuta especializada e busca evitar que vítimas sejam obrigadas a repetir relatos

A Câmara Municipal de Nova Friburgo aprovou por unanimidade, em primeira discussão, nesta quinta-feira, 10 de setembro, um projeto de lei que estabelece diretrizes para fortalecer a proteção de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência no município.

De autoria do vereador Maicon Gonçalves (Mobiliza), a proposta busca garantir atendimento adequado desde a revelação da violência e reduzir situações nas quais a vítima precisa repetir o relato desnecessariamente diante de diferentes profissionais e instituições. O objetivo é evitar a revitimização e melhorar a integração dos órgãos que compõem a rede municipal de proteção.

O projeto estabelece diretrizes para a realização da escuta especializada e para a articulação entre os serviços responsáveis pelo acolhimento e acompanhamento das vítimas. A proposta tem como referência a Lei Federal nº 13.431/2017 e o Decreto Federal nº 9.603/2018, que organizam o sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência.

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Projeto começou a ser construído após audiência pública

A elaboração da proposta teve início depois de uma audiência pública realizada na Câmara Municipal. O encontro reuniu representantes da rede de proteção, instituições ligadas à defesa dos direitos de crianças e adolescentes e integrantes do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.

Segundo Maicon Gonçalves, o texto foi desenvolvido e aperfeiçoado a partir das discussões realizadas durante a audiência.

“Tivemos uma audiência pública, lotamos esta Casa, ouvimos a rede de proteção e o Ministério Público. A partir daquele momento, começamos a construir esse projeto com muita responsabilidade, porque estamos tratando de crianças vítimas de violência”, afirmou o vereador durante a sessão.

A proposta também incorporou contribuições da promotora de Justiça Ana Paula Cardoso, além de experiências adotadas em outros municípios.

Escuta especializada pretende evitar novos traumas

Um dos principais pontos do projeto é impedir que crianças e adolescentes sejam obrigados a recontar repetidamente episódios de violência durante o atendimento prestado pelo poder público.

A escuta especializada deve ser realizada por profissionais capacitados e limitada às informações necessárias para garantir proteção e atendimento à vítima. A medida busca impedir que a repetição do relato provoque novos traumas ou faça a criança reviver sucessivamente a violência sofrida.

“Quando uma criança revela uma violência, ela precisa ser acolhida. Não pode ser obrigada a repetir aquele relato várias vezes, para diferentes pessoas e em diferentes órgãos. O poder público precisa estar preparado para ouvir e proteger”, defendeu Maicon.

O projeto prevê a articulação entre áreas como saúde, educação, assistência social, Conselho Tutelar e demais instituições que integram a rede de proteção. Também estabelece diretrizes para a construção de um fluxo integrado de atendimento, com definição de responsabilidades e encaminhamentos.

Município poderá criar espaço integrado de atendimento

A proposta autoriza o município a criar um espaço integrado para o atendimento de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência.

Segundo o projeto, a estrutura poderá reunir profissionais de diferentes áreas e utilizar serviços já existentes na rede municipal. A criação do espaço dependerá da regulamentação e das providências administrativas do Poder Executivo.

A intenção é concentrar o atendimento em um ambiente preparado para acolher as vítimas, reduzir deslocamentos entre diferentes órgãos e facilitar a atuação conjunta dos profissionais responsáveis pela proteção.

Casos de violência preocupam em Nova Friburgo

A discussão acontece diante do crescimento dos registros de violência contra crianças e adolescentes no país. Dados nacionais apontam que milhares de vítimas são submetidas todos os anos a diferentes formas de agressão, especialmente dentro de ambientes onde deveriam estar protegidas.

Em Nova Friburgo, dados de segurança pública também reforçam a necessidade de ampliar as políticas de prevenção, acolhimento e proteção às vítimas.

De acordo com informações oficiais, o município registrou aumento nas ocorrências de estupro nos últimos anos. Foram contabilizados 28 casos em 2020, 36 em 2021, 38 em 2022, 44 em 2023, 48 em 2024 e 52 em 2025.

Os dados reúnem vítimas de diferentes idades e, por isso, não representam exclusivamente casos envolvendo crianças e adolescentes. Ainda assim, os números indicam um cenário que exige atenção permanente da rede de proteção e do poder público.

Projeto ainda precisa concluir tramitação

A aprovação ocorreu em primeira discussão. Para seguir adiante, o projeto ainda precisa cumprir as demais etapas previstas no processo legislativo da Câmara Municipal.

Após a conclusão da votação no Legislativo, o texto poderá ser encaminhado ao Poder Executivo para sanção ou veto.

“Quando uma criança conta que sofreu violência, o poder público precisa estar preparado para ouvi-la e protegê-la. Ela não pode ser obrigada a reviver aquela violência cada vez que precisar dizer o que aconteceu. O objetivo é garantir uma rede preparada, uma escuta especializada e um fluxo que coloque a proteção da criança em primeiro lugar”, concluiu Maicon Gonçalves.

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