Fala de secretário sobre ataques a mulheres provoca críticas em Nova Friburgo

“Só um caso”: vídeo sobre denúncia de estupro da Prefeitura pode agravar sofrimento da vítima

População criticou postura da Prefeitura de Nova Friburgo e falou em “minimizar”, caso de violência sexual e roubos contra mulheres. Prefeitura ja foi condenada por assédio moral a servidoras

Uma frase usada para tranquilizar a população pode produzir o efeito contrário para quem já carrega as consequências diretas da violência. Ao apresentar o estupro denunciado na Via Expressa como “só um caso”, o vídeo publicado pela Prefeitura de Nova Friburgo pode contribuir para a piora do estado emocional da vítima, ao fazer com que sua experiência soe minimizada por uma comunicação institucional (Veja o vídeo abaixo).

Na gravação, divulgada no sábado (19), o secretário municipal de Segurança e Ordem Pública, coronel Eduardo Vaz Castelano, afirmou que “não há motivo para alarde” e mencionou que teria ocorrido “só um caso registrado de estupro”. A formulação pode ser recebida como uma minimização da violência denunciada. O EcoSerrano não afirma que houve piora efetiva no quadro emocional da jovem nem atribui essa informação à vítima. O questionamento diz respeito ao risco de uma comunicação institucional ampliar seu sofrimento.

O problema não está apenas na contagem de ocorrências nem na existência — ou não — de um único agressor. Os crimes apurados têm naturezas e suspeitos diferentes. O ponto que os aproxima é outro: mulheres foram vítimas de violência sexual, ameaça com faca e roubo, enquanto a resposta pública concentrou-se no patrulhamento e não apresentou, até agora, uma ação pública de acolhimento emocional às vítimas.

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Uma sequência de violências contra mulheres

No dia 7 de setembro, uma estudante de enfermagem internada no Hospital Municipal Raul Sertã denunciou ter sofrido violência sexual dentro do CTI. O caso foi registrado e permanece sob investigação. A jovem, que enfrentava um quadro grave de saúde, morreu no dia seguinte.

Em 13 de setembro, um domingo, por volta das 15h30, uma mulher de 25 anos foi abordada por um homem armado com uma faca quando atravessava uma ponte no início da Via Expressa, perto do acesso ao bairro Olaria. Segundo a denúncia, ela foi ameaçada, levada para uma área isolada atrás de uma árvore e estuprada.

A ocorrência foi registrada na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de Nova Friburgo e confirmada pela DEAM-NF ao EcoSerrano. O suspeito desse crime não havia sido localizado até a última atualização recebida pela reportagem.

Nos dias seguintes, o Portal recebeu informações sobre três roubos com vítimas mulheres no Centro, incluindo ocorrências nos arredores da Praça do Suspiro e na Avenida Galdino do Valle Filho. Segundo os relatos, dois homens ameaçavam mulheres com facas e levavam seus pertences. Dois registros foram confirmados pela 151ª DP. Um suspeito foi preso e o outro continuava procurado até a última informação obtida.

As apurações indicam que o autor do estupro na Via Expressa não é o mesmo homem apontado nos roubos. Não há confirmação, portanto, de uma ação coordenada ou de um único criminoso responsável por todos os fatos. Ainda assim, são cinco ocorrências envolvendo vítimas mulheres em menos de duas semanas: duas denúncias de violência sexual e três roubos mediante ameaça.

Separar corretamente os casos é indispensável para não espalhar informação imprecisa. Mas reconhecer que não existe um único agressor não diminui a gravidade do conjunto nem elimina o medo causado por crimes diferentes que atingiram mulheres em curto intervalo de tempo.

Em pleno Setembro Amarelo, palavras também exigem cuidado

A declaração foi feita durante o Setembro Amarelo, período dedicado à conscientização sobre saúde mental, prevenção do suicídio e busca por ajuda. Nesse contexto, a reação relatada pela vítima da Via Expressa torna a escolha das palavras ainda mais sensível.

Violência e desigualdade estão entre os fatores sociais capazes de aumentar a vulnerabilidade emocional. Por isso, uma resposta pública não deve se limitar a dizer quantos casos foram formalmente registrados. Ela também precisa considerar como a mensagem será recebida por quem sofreu a violência, por familiares e por outras mulheres que passaram a mudar trajetos e rotinas por medo.

Ao afirmar que não havia motivo para alarde e destacar que existia “só um caso” de estupro, o secretário pode ter pretendido evitar pânico ou a circulação de informações incorretas. O efeito relatado, porém, foi outro: uma vítima que já estava abalada sentiu sua experiência reduzida por uma fala institucional.

Não se trata de estimular alarme. Trata-se de informar com precisão sem retirar humanidade da resposta. Um único estupro não é um número pequeno para a mulher violentada.

Secretaria da Mulher não apresentou ação pública de acolhimento

Nova Friburgo possui uma estrutura municipal especializada em políticas para mulheres. Apesar disso, até a publicação desta reportagem, o EcoSerrano não localizou pronunciamento público da Secretaria Municipal da Mulher sobre a sequência de casos, nem anúncio de atendimento psicológico, busca ativa, escuta qualificada ou outra ação específica de apoio emocional às vítimas.

Também não foi informado publicamente se a pasta procurou alguma das mulheres de forma reservada. Por proteção às vítimas, um eventual atendimento individual não precisaria ser exposto. A Prefeitura poderia, entretanto, divulgar os canais disponíveis, explicar o protocolo de acolhimento e informar, sem identificar ninguém, se a rede especializada foi mobilizada.

Essa ausência pública chama atenção porque segurança ostensiva e acolhimento cumprem funções diferentes. Guarda Municipal, Proeis e forças policiais podem atuar na prevenção, identificação e prisão de suspeitos. A Secretaria da Mulher, por sua vez, deveria representar uma porta de entrada para orientação, proteção, encaminhamento e apoio às mulheres atingidas pela violência.

Assédio moral também integra o debate sobre violência

A discussão não se encerra nos crimes ocorridos nas ruas. Segundo levantamento do EcoSerrano a partir de casos acompanhados pelo Portal, a Prefeitura de Nova Friburgo já recebeu ao menos cinco decisões judiciais desfavoráveis em ações relacionadas a assédio moral contra funcionários. Parte dos processos ainda está sujeita a recurso. Nos casos com decisões favoráveis às vítimas citados na apuração, as denunciantes são mulheres.

Sem os documentos completos e o encerramento definitivo de todos os processos, não é correto apresentar cada decisão como condenação transitada em julgado. O histórico, contudo, precisa integrar o debate: humilhação, constrangimento e perseguição no ambiente de trabalho também são formas de violência, ainda que tenham natureza diferente do estupro, da ameaça e do roubo.

Ao colocar esses episódios lado a lado, a reportagem não afirma que tenham os mesmos autores, circunstâncias ou responsabilizações. A conexão está no dever do poder público de prevenir violências contra mulheres, acolher vítimas e adotar uma comunicação que não reproduza desqualificação, culpabilização ou silenciamento.

Prefeitura anunciou reforço no patrulhamento

Na publicação que acompanhou o vídeo, a Secretaria de Segurança e Ordem Pública afirmou acompanhar “denúncias recentes de ataques contra mulheres em vias públicas de Olaria e Centro”. A Prefeitura informou que agentes da Guarda Civil Municipal e policiais do Proeis reforçaram a vigilância ostensiva e que haveria atuação conjunta com o 11º BPM e a 151ª DP para localizar um suspeito.

O reforço é uma medida concreta e necessária. A publicação oficial da Prefeitura, entretanto, não esclareceu por que se referiu a apenas um suspeito, embora os fatos apurados envolvam autores distintos, nem por que mencionou “tentativas de assalto” diante de roubos consumados e de uma denúncia de estupro.

Também não informou qual suporte seria oferecido às vítimas, se a Secretaria da Mulher havia sido acionada e quais canais municipais estariam disponíveis para atendimento psicológico e social.

O centro da discussão, portanto, não é produzir pânico nem ignorar as providências policiais anunciadas. É reconhecer que violência contra a mulher não aparece de uma única forma. Ela pode ser sexual, física, patrimonial, psicológica, moral ou institucional. Quando uma comunicação pública pode ampliar o sofrimento de uma vítima e não vem acompanhada de acolhimento visível da pasta especializada, há uma lacuna que precisa ser explicada e corrigida.

Telefones úteis

Central de Atendimento à Mulher: 180
Serviço gratuito, disponível 24 horas, para orientação, acolhimento e encaminhamento de denúncias de violência contra mulheres.

Polícia Militar: 190
Para violência em andamento, risco imediato ou outra situação de emergência.

Centro de Valorização da Vida: 188
Apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia. O serviço não substitui atendimento médico ou policial em situações de urgência.

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