Áreas que até poucos anos atrás apresentavam trechos degradados em Cachoeiras de Macacu agora servem de passagem, abrigo e alimentação para diferentes espécies da fauna da Mata Atlântica. Novos registros feitos por armadilhas fotográficas mostram antas, onça-parda, jaguatirica e outros animais circulando pelos espaços recuperados pelo programa Florestas do Amanhã (veja o vídeo abaixo).Somente no último ano, os equipamentos identificaram 12 espécies de mamíferos. As câmeras também flagraram um gavião-pombo-pequeno, ave ameaçada de extinção cuja presença amplia a importância ambiental do monitoramento.As imagens foram produzidas em áreas onde o plantio começou em janeiro de 2022. Mais do que oferecer cenas raramente vistas pela população, os registros ajudam a medir o resultado do reflorestamento: mostram que os animais estão utilizando os novos trechos de vegetação e voltando a ocupar espaços que antes não ofereciam as mesmas condições.O ponto monitorado fica em uma posição estratégica de Cachoeiras de Macacu. A área faz limite com o Parque Estadual dos Três Picos e mantém conexão com a Reserva Ecológica de Guapiaçu, duas referências de conservação da Mata Atlântica no Estado do Rio.O plantio preencheu espaços que permaneciam abertos entre os fragmentos de vegetação. Com o crescimento das árvores, esses trechos começaram a formar um corredor florestal mais contínuo, permitindo que os animais se desloquem com maior proteção pela paisagem.Esse tipo de ligação é importante porque uma floresta fragmentada limita o território disponível para alimentação, reprodução e busca por abrigo. Quando os fragmentos são reconectados, a fauna passa a encontrar caminhos mais seguros entre diferentes áreas preservadas.Entre os registros que mais se destacam está uma família de antas. As imagens mostram animais adultos, jovens e filhotes utilizando a área restaurada. A presença de diferentes gerações indica que o ambiente oferece condições para animais em várias fases da vida.As antas observadas fazem parte de um projeto local de reintrodução da espécie. Além de serem um dos maiores mamíferos terrestres do país, elas desempenham papel relevante na regeneração das florestas ao transportar e dispersar sementes pelo território.Também foram registradas uma onça-parda, uma jaguatirica, uma irara e um cachorro-do-mato. O conjunto reúne animais com funções diferentes no ecossistema, desde predadores até dispersores de sementes.A presença simultânea dessas espécies é considerada um sinal positivo porque mostra uma cadeia ambiental mais diversa. Predadores dependem da existência de presas e de áreas suficientemente amplas para circular, enquanto mamíferos que se alimentam de frutos colaboram com a expansão de novas plantas.“O monitoramento comprova, na prática, que a restauração florestal gera resultados concretos para a biodiversidade. Estamos vendo áreas que há poucos anos estavam degradadas voltarem a cumprir seu papel ecológico, servindo de abrigo, alimentação e deslocamento para diversas espécies da fauna nativa”, afirmou o secretário estadual do Ambiente e Sustentabilidade, Rodrigo Mascarenhas.
Mais de 300 mil mudas foram plantadas no município
No local onde as câmeras registraram os animais, mais de 50 mil mudas foram plantadas em aproximadamente 30 hectares. Algumas árvores já ultrapassam cinco metros de altura, mudando gradualmente a paisagem encontrada no início da recuperação.Em outras áreas de Cachoeiras de Macacu, o programa contabiliza cerca de 300 mil mudas distribuídas por 194 hectares em processo de restauração ecológica.O plantio inicial reuniu 25 espécies de árvores e plantas em 2022. Atualmente, as equipes observam mais de 60 espécies nas áreas recuperadas, resultado que indica a chegada espontânea de novas variedades trazidas pelo vento, pela água e pelos próprios animais.O crescimento da diversidade vegetal permite que a floresta deixe de depender apenas das mudas originalmente introduzidas. Com o tempo, sementes transportadas pela fauna germinam, novas plantas ocupam o solo e o ambiente começa a desenvolver uma dinâmica própria.A recuperação também produz efeitos além das áreas diretamente ocupadas pelos animais. Cachoeiras de Macacu integra a bacia Guapi-Macacu, responsável por uma parcela estratégica do abastecimento de água da Região Metropolitana do Rio.A bacia é a principal fonte de fornecimento para a parte leste da Baía de Guanabara, onde vivem aproximadamente 2,5 milhões de pessoas. Por isso, a restauração das margens, encostas e áreas próximas aos cursos d’água tem impacto que alcança municípios distantes do local do plantio.A vegetação ajuda a proteger o solo da força da chuva, reduz a erosão e diminui o volume de sedimentos carregados para rios e reservatórios. Em estradas de terra e áreas expostas, essa proteção pode reduzir o assoreamento e favorecer a qualidade da água captada para tratamento.O programa Florestas do Amanhã possui ações em andamento em 14 municípios do Estado do Rio. Entre eles estão Guapimirim, Silva Jardim, Rio de Janeiro, Niterói, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, São Gonçalo e Magé.Para 2026, a previsão divulgada pelo Governo do Estado é recuperar mais 400 hectares, com o plantio aproximado de 650 mil mudas. O investimento anunciado é de R$ 60 milhões, por meio de uma parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.Os próximos locais de plantio ainda serão definidos. Em Cachoeiras de Macacu, porém, os registros feitos pelas câmeras já permitem acompanhar uma mudança que não aparece apenas na quantidade de mudas: a floresta em formação começa a ser reconhecida e utilizada pelos próprios animais.