Prefeito Johnny Maycon coloca servidor em seu lugar para se explicar. Portal EcoSerrano checou ponto a ponto as informações da Prefeitura e o que encontramos é grave
A Prefeitura de Nova Friburgo respondeu às reportagens do Portal EcoSerrano afirmando que “não existe rombo” na Previdência municipal. A checagem dos documentos oficiais, porém, mostra que o comunicado explica apenas uma parte da história e deixa sem resposta justamente os dados que envolvem obrigações da própria administração.O governo tem razão ao dizer que déficit atuarial não significa, necessariamente, que R$ 409 milhões desapareceram de uma conta bancária. Trata-se de uma projeção: o cálculo estima quanto o fundo receberá e quanto precisará pagar em aposentadorias e pensões nas próximas décadas.Mas esse esclarecimento não elimina o problema. O anteprojeto assinado pelo prefeito Johnny Maycon reconhece um passivo atuarial de R$ 409.112.834,96 e prevê um plano que poderá gerar aproximadamente R$ 725 milhões em pagamentos até 2045, considerando juros e amortizações.Em 2026, a própria tabela da Prefeitura prevê pagamento de R$ 15,1 milhões, abaixo dos R$ 22,7 milhões em juros calculados para o período. Por isso, o saldo projetado sobe para R$ 416,6 milhões antes de começar a diminuir.A Prefeitura escolheu discutir se a palavra correta é “rombo” ou “déficit”. Para o morador, o ponto principal é mais simples: há um desequilíbrio oficial de centenas de milhões de reais que será pago com recursos públicos durante 20 anos.
O comunicado afirma que as contribuições descontadas dos servidores estão devidamente recolhidas.Aqui é preciso separar duas coisas.Primeiro, a Prefeitura desconta a contribuição do contracheque. Depois, precisa transferir esse dinheiro para a conta do fundo previdenciário. Descontar não é, sozinho, prova de que o dinheiro chegou ao RPPS.Nos DIPRs analisados, porém, a Prefeitura declarou que as contribuições dos servidores foram efetivamente repassadas e recebidas pelo fundo. Em maio de 2025, constam R$ 1.226.712,15; em junho, R$ 1.269.476,00.Portanto, com os documentos disponíveis, não é correto afirmar que esses valores específicos foram apenas descontados e ficaram retidos. A própria declaração oficial sustenta que chegaram à unidade gestora.Isso não encerra a apuração. A Prefeitura ainda pode apresentar comprovantes bancários, datas dos depósitos e a evolução completa da regularização. Mas o maior problema apontado atualmente pelo Ministério está em outra obrigação: a contribuição patronal, que é a parte que cabe ao Município pagar como empregador.Em março e abril de 2025, a Prefeitura declarou repasses patronais de aproximadamente R$ 1,4 milhão e R$ 1,48 milhão. A partir de maio, os valores despencaram.Em maio foram declarados R$ 98.089,14. Em junho, R$ 93.174,07, embora as bases usadas para calcular a contribuição continuassem acima de R$ 8,7 milhões e R$ 9 milhões.Os relatórios do Ministério classificam como ativasas divergências patronais de maio a dezembro de 2025. O mesmo apontamento reaparece entre janeiro e abril de 2026.Ao falar apenas que a contribuição retirada do servidor está recolhida, o comunicado responde a uma parte do problema, mas evita a parte que cabe diretamente à Prefeitura.É como uma empresa dizer que repassou o dinheiro descontado do funcionário, mas não explicar por que deixou de pagar integralmente a contribuição que deveria sair do próprio caixa.
Parcelar é permitido; pagar abaixo do combinado é diferente
O governo também afirma que os parcelamentos são legais e não podem ser confundidos com irregularidade.A explicação é verdadeira, mas incompleta.Parcelar dívidas previdenciárias é permitido. O problema registrado nos relatórios federais de 2026 não é a existência dos acordos. É o fato de que os valores pagos nas parcelas aparecem inferiores ao efetivamente devido, depois das atualizações previstas.Os apontamentos aparecem em janeiro, fevereiro, março e abril de 2026, todos com situação ativa.A Prefeitura, portanto, respondeu que parcelar é legal, mas não explicou por que parcelas já assumidas aparecem abaixo do valor exigido.
Os aportes mensais também ficaram fora do vídeo
Outro ponto ignorado envolve o dinheiro destinado a reduzir o déficit atuarial.Em janeiro e fevereiro de 2025, os DIPRs registraram aportes mensais de R$ 1.097.104,12. A partir de março, essa linha aparece zerada em várias competências.O comunicado não informa se essas parcelas foram pagas depois, incluídas em outro acordo, substituídas pelo novo plano ou incorporadas ao passivo atuarial.Essa explicação é essencial. Se um pagamento criado para diminuir o déficit deixa de ser feito, a conta não desaparece. Ela permanece e pode crescer com atualizações e juros.
PATRIMÔNIO MAIOR NÃO SIGNIFICA PREVIDÊNCIA EQUILIBRADA
A Prefeitura informou que o patrimônio do fundo subiu de aproximadamente R$ 63 milhões, em 2020, para R$ 122 milhões, em maio de 2026.Se confirmado, o crescimento é positivo. Mas não elimina o déficit de R$ 409 milhões.Os dois números medem coisas diferentes.O patrimônio mostra quanto o fundo possui hoje. O déficit atuarial estima quanto poderá faltar ao longo das próximas décadas para pagar todas as aposentadorias e pensões projetadas.Uma família pode dobrar suas economias e continuar endividada se suas obrigações crescerem ainda mais. Da mesma forma, um fundo pode aumentar seus investimentos e permanecer desequilibrado.O comunicado também não apresentou a composição dos R$ 122 milhões, os investimentos realizados, a rentabilidade nem quanto do crescimento veio de contribuições ou outras entradas.
CRP NÃO APAGA RELATÓRIOS DE IRREGULARIDADE
A Prefeitura usou ainda o Certificado de Regularidade Previdenciária como prova de que as informações estariam corretas.O CRP é importante, mas não funciona como uma auditoria completa de cada pagamento. Ele verifica critérios para a regularidade previdenciária em determinado momento e sob condições específicas.Os próprios documentos do Ministério informam que as divergências encontradas geram irregularidades no critério chamado “DIPR — Consistência e Caráter Contributivo”, necessário para a emissão do certificado.A Prefeitura precisa informar qual CRP está citando, quando foi emitido, qual é sua validade e como ele convive com apontamentos que ainda aparecem como ativos.A simples menção ao certificado não responde aos números.
JOHNNY NÃO APARECEU — E OS COMENTÁRIOS NOTARAM
O comunicado foi apresentado por Rodrigo de Lima, subsecretário de Serviços Concedidos, e não pelo prefeito Johnny Maycon.A escolha de um porta-voz é uma decisão administrativa possível. O que provocou reação foi o peso político do assunto.Johnny assinou o anteprojeto que reconhece o déficit atuarial, chefia a administração responsável pelos repasses e costuma aparecer nas redes sociais para fazer anúncios e comentar assuntos municipais.Mesmo assim, não apareceu para explicar o compromisso que poderá atingir R$ 725 milhões e atravessar diversas administrações.Nos comentários da publicação, moradores sugeriram que o prefeito teria colocado outra pessoa na linha de frente para receber as críticas em seu lugar. Houve cobranças para que Johnny aparecesse pessoalmente e assumisse a explicação de um projeto assinado por ele.Esses comentários representam a opinião dos usuários, não uma prova sobre a intenção do prefeito. Não é possível afirmar que Johnny tenha se ausentado por medo, culpa ou estratégia deliberada.É possível registrar, no entanto, que sua ausência foi percebida, criticada e interpretada por parte do público como uma tentativa de transferir o desgaste para um subordinado.
O QUE CONTINUA SEM RESPOSTA
Depois da checagem, o EcoSerrano concluiu que o comunicado contém informações verdadeiras, mas não esclarece o conjunto do problema.A Prefeitura explicou corretamente que déficit atuarial não significa dinheiro desaparecido hoje. Também declarou que as contribuições dos servidores foram repassadas e informou crescimento do patrimônio.Ainda faltam respostas objetivas sobre:as contribuições patronais abaixo do devido entre maio de 2025 e abril de 2026;as parcelas de acordos registradas com valores inferiores ao exigido;os aportes mensais de R$ 1.097.104,12 que deixaram de aparecer;a situação atual dos débitos que deram origem aos projetos de aproximadamente R$ 82,6 milhões apresentados em 2025;a documentação dos R$ 122 milhões informados como patrimônio;o impacto do novo plano sobre saúde, educação, obras e outros serviços;a relação entre o CRP citado e os apontamentos ativos do CadPrev.Os documentos não comprovam desvio, crime ou desaparecimento de recursos. Mas comprovam que existem divergências oficiais, um déficit atuarial elevado e obrigações que precisam ser explicadas com valores, datas e comprovantes.A resposta da Prefeitura não encerra a apuração. Ela apenas confirma que o problema existe — ainda que o governo prefira chamá-lo por outro nome.