Prefeito alegou busca por investimentos e tecnologia, mas até agora não há projetos, políticas públicas ou ações inspiradas na missão
Quase oito meses após a viagem do prefeito Johnny Maycon a Israel, não há anúncios de investimentos, projetos ou ações concretas em Nova Friburgo. A reportagem analisa o contexto da missão, baseada em investigação do Intercept Brasil, e questiona os reais objetivos e resultados do deslocamento internacional.
Viagem internacional e ausência de resultados práticos: Na iminência de completar oito meses da viagem oficial a Israel, realizada pelo prefeito de Nova Friburgo, Johnny Maycon (PL), crescem os questionamentos sobre os reais objetivos da missão e, principalmente, sobre os resultados concretos trazidos para o município. À época, o chefe do Executivo afirmou que o deslocamento teria como foco a busca por investimentos, ampliação de horizontes em tecnologia e segurança pública. No entanto, até o momento, não foi apresentado nenhum projeto, política pública ou iniciativa municipal que possa ser diretamente associada aos conteúdos e experiências divulgados durante a viagem. Na prática, não há anúncios de parcerias internacionais, implementação de tecnologias inovadoras, mudanças estruturais na segurança pública ou programas inspirados no modelo israelense apresentado ao prefeito.
O contexto da viagem: o que revelou o Intercept Brasil: Uma reportagem detalhada publicada pelo Intercept Brasil, assinada pelas jornalistas Laís Martins, Tatiana Dias e Thalys Alcântara, lança luz sobre o verdadeiro contexto da viagem de prefeitos brasileiros a Israel. Segundo a apuração, a missão foi apresentada oficialmente como um “curso de segurança pública”, mas, conforme documentos e cronogramas analisados, teria servido para fortalecer o lobby da indústria israelense de vigilância e segurança, ampliando sua influência política e comercial no Brasil. A viagem foi custeada pela Mashav (Agência Israelense de Cooperação Internacional) e pelo Instituto Internacional de Liderança de Histadrut, entidade ligada a trabalhadores de Israel.
O que previa a programação oficial da comitiva: De acordo com o Intercept, o roteiro da missão foi dividido em três módulos principais: Primeiro módulo – Visitas a projetos de segurança pública, com participação de forças policiais e instituições municipais ligadas à educação e ao lazer. Segundo módulo: Encontros com setores acadêmicos e industriais, voltados ao desenvolvimento tecnológico e inovação. Terceiro módulo: Participação na Muni Expo Israel 2025, feira internacional dedicada à exposição de tecnologias de segurança, vigilância e controle urbano. Além disso, o cronograma incluía visitas a áreas próximas à Faixa de Gaza, encontros com vítimas de atentados e atividades de caráter turístico.
Prefeito de Nova Friburgo esteve entre os participantes: Entre os 11 prefeitos brasileiros convidados para a missão, estavam Johnny Maycon, de Nova Friburgo, e o prefeito de Macaé. Durante a viagem, a comitiva precisou se refugiar em bunkers após ataques do Irã a Israel, sendo posteriormente evacuada por terra até a Jordânia, passando pela Arábia Saudita, antes de retornar ao Brasil em voo fretado. À época, o prefeito de Nova Friburgo divulgou nas redes sociais que participava de uma missão técnica voltada à segurança e à tecnologia. No entanto, o cronograma oficial apontava também visitas a empresas ligadas a tecnologias de vigilância militar, algumas com histórico de uso em ações de repressão contra a população palestina.
Lobby internacional e tecnologias “testadas em campo de guerra”: Ainda segundo o Intercept Brasil, Israel tem adotado a estratégia de convidar gestores públicos estrangeiros como forma de abrir portas para a exportação de tecnologias de segurança. Na Muni Expo Israel, estavam presentes empresas como: Tamildata – Especializada em controle de comunicações em ambientes educacionais, liderada por ex-integrantes das Forças de Defesa de Israel. Reshef Security: Fornecedor de soluções para checkpoints militares em Jerusalém e na Cisjordânia. O pesquisador Pablo Nunes, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), afirmou ao Intercept que esse tipo de iniciativa representa uma apropriação indevida do tema da segurança por municípios, que constitucionalmente não possuem essa atribuição.
Tecnologias questionadas e histórico de abusos: A reportagem também destaca que empresas israelenses de espionagem e vigilância já tiveram tecnologias usadas de forma irregular no Brasil. Um exemplo citado é o software FirstMile, adquirido pela Abin durante o governo Bolsonaro. Há ainda registros de contratos entre estados brasileiros e empresas como Cellebrite e Cognyte, especializadas em extração de dados e reconhecimento facial, cujas tecnologias teriam sido testadas, segundo especialistas, em operações militares na Faixa de Gaza.
Oito meses depois, o que Nova Friburgo ganhou? Passados quase oito meses da viagem, a pergunta que permanece sem resposta é direta: o que Nova Friburgo efetivamente ganhou com essa missão internacional? Até o momento, não há informações públicas sobre projetos inspirados no intercâmbio, investimentos firmados, transferência de tecnologia ou mudanças administrativas decorrentes da experiência em Israel. A ausência de resultados concretos reforça os questionamentos sobre o real objetivo da viagem, seu custo político e institucional, e o benefício prático para a população friburguense.
Mini-questionário final — Participe do debate
A viagem do prefeito a Israel trouxe benefícios concretos para Nova Friburgo? Até agora, não há anúncios oficiais de projetos ou investimentos decorrentes da missão.
Houve transparência sobre os objetivos e resultados da viagem? As informações divulgadas até o momento não indicam resultados mensuráveis ou políticas públicas implementadas.
O tema da segurança pública deveria ser tratado em missões internacionais por municípios? Especialistas apontam que a segurança é atribuição constitucional dos estados, não dos municípios.