O que a decisão tem a ver com Madame Satã? Veja na reportagem
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional analisa o tombamento do túmulo de Madame Satã, na Ilha Grande. Caso aprovado, será o primeiro patrimônio LGBTQIA+ federal do Brasil, com forte valor simbólico para a cultura e diversidade.
Madame Satã, o lendário malandro e artista da Lapa, pode ter seu túmulo reconhecido como patrimônio histórico federal. O Iphan avalia o pedido que simboliza uma reparação histórica para a memória negra e LGBTQIA+.
Um gesto histórico de reparação simbólica
A possível transformação do túmulo de Madame Satã em patrimônio histórico é vista como um gesto raro do Brasil em reconhecer figuras marginalizadas que moldaram sua cultura popular.O pedido de tombamento, protocolado no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sob o número SEI 01450.000869/2025-85, propõe o reconhecimento de um personagem que atravessou o século XX entre a glória e o estigma.Segundo pesquisadores, o gesto representa um resgate simbólico da memória negra e LGBTQIA+, abrindo espaço para novos olhares sobre quem construiu, com resistência e arte, a identidade cultural brasileira.
Quem foi Madame Satã
João Francisco dos Santos, conhecido como Madame Satã, nasceu em 1900, em Glória do Goitá (PE), filho de ex-escravizados.Transferido ainda criança para o Rio de Janeiro, Satã viveu a infância em condições precárias, marcadas pela violência e abandono.Na juventude, tornou-se figura icônica da Lapa dos anos 1920 e 1930, misturando capoeira, teatro, travestimento e performance em uma persona que desafiava as convenções da época.Com seus cabelos longos, navalha e gestos teatrais, conquistou fama como um dos primeiros transformistas do Brasil — um símbolo de resistência cultural e sexual em meio à repressão.
Entre o escândalo e a consagração
A trajetória de Madame Satã foi marcada por prisões, preconceitos e reinvenções. Passou cerca de 27 anos encarcerado, acusado de agressões, furtos e desacatos, mas nunca deixou de encarnar o espírito livre e provocador que o consagrou.O episódio mais lembrado envolve o sambista Geraldo Pereira, morto após uma briga com Satã. Pesquisadores atuais afirmam, contudo, que Pereira já estava adoentado e que a briga apenas agravou seu estado.Mesmo cercado de polêmicas, Madame Satã se tornou um símbolo da cultura marginal, inspirando filmes, peças e estudos sobre gênero, arte e negritude.
Onde está o túmulo e por que ele é importante
Satã está sepultado no cemitério da Vila do Abraão, em Ilha Grande, Angra dos Reis — local onde passou boa parte da vida preso e escolheu viver após a liberdade.A sepultura é hoje um ponto de visitação simbólico, e o pedido de tombamento busca proteger esse espaço como parte da memória nacional.De acordo com o Iphan, não há ainda nenhum bem material tombado federalmente vinculado à história LGBTQIA+ no Brasil, o que tornaria este caso um marco inédito.
O movimento pelo tombamento
O pedido partiu do pesquisador Baltazar de Almeida, especialista em afroturismo e turismo LGBTQIA+, com apoio de entidades culturais e um abaixo-assinado com quase mil assinaturas.Segundo o proponente, o túmulo representa “um elo entre memória negra, diversidade e resistência”, além de corrigir lacunas históricas nos registros patrimoniais do país.A iniciativa também busca incluir a pauta LGBTQIA+ nas políticas de patrimônio cultural, algo até hoje restrito a expressões artísticas ou festas populares.
O processo dentro do Iphan
O tombamento federal segue etapas burocráticas:
Solicitação formal e abertura de processo;
Parecer técnico e análise da Superintendência estadual;
Deliberação do Conselho Consultivo;
Publicação no Diário Oficial e inscrição no Livro do Tombo.
O Iphan informou que o processo de Madame Satã segue em instrução no Rio de Janeiro, e que a conclusão pode levar até cinco anos.Mesmo assim, o simbolismo já se impõe — transformar um antigo perseguido em patrimônio nacional é uma inversão histórica que ecoa profundamente no imaginário brasileiro.
Um símbolo entre o inferno e a glória
Seja por sua arte, sua rebeldia ou por sua coragem de existir à margem, Madame Satã continua atravessando o tempo como um símbolo de liberdade e enfrentamento.O marginal de ontem pode, em breve, tornar-se monumento de amanhã — e o Brasil pode finalmente reconhecer, entre suas memórias oficiais, a grandeza das vidas que resistiram para existir.