Placa 'Abrigo Antiaéreo' adaptado para garagem no Rio de Janeiro, com fotos de aviões emolduradas.

Você sabia que prédios do Rio de Janeiro têm bunkers anti bombardeios?

Abrigos estão espalhados por diversos bairros da capital Veja onde estão localizados

Subterrâneos de Copacabana guardam histórias da guerra

Em uma manhã nublada em Copacabana, um grupo de visitantes deixou de lado as praias para conhecer uma faceta pouco lembrada do bairro: os bunkers construídos durante a Segunda Guerra Mundial. No subsolo da Galeria Menescal, edifício tombado em 2007, a arquiteta carioca Isabella Cavallero mostrou, por meio de antigas plantas de 1943, que ali já existiu um abrigo projetado para 964 pessoas, com 34 banheiros e até uma subestação de energia. Hoje, o que antes foi abrigo contra bombas é apenas uma garagem.

Por que o Rio construiu bunkers na década de 1940

A construção de abrigos antiaéreos se tornou obrigatória após o Decreto-Lei 4.098 de 1942, assinado por Getúlio Vargas. O Brasil, então sob o Estado Novo, rompeu relações com o Eixo após o bombardeio de seis navios brasileiros no Atlântico e entrou oficialmente na guerra em agosto daquele ano. O temor de ataques a cidades costeiras, especialmente ao Rio de Janeiro — então capital federal — levou à criação de uma rede de bunkers em edifícios residenciais e comerciais. Segundo o escritor Ruy Castro, autor de Trincheira Tropical, “havia uma ameaça constante de bombardeios. Os bunkers eram projetados para que famílias pudessem viver dias inteiros ali embaixo, caso fosse necessário”.

Onde estão os bunkers do Rio

Desde 2022, Isabella Cavallero já mapeou 46 prédios com abrigos antiaéreos, a maioria em Copacabana, mas também no Centro, Flamengo, Ipanema e Humaitá. Ela criou o projeto Bunker Paradies, em parceria com a antropóloga colombiana Ana Catalina Correa, para documentar e divulgar esses espaços, muitos dos quais foram convertidos em garagens. Um dos exemplos é a Galeria Menescal, que, segundo anúncios da época, tinha o “maior abrigo antiaéreo já aprovado pelo Serviço Nacional de Defesa Civil”.

Entre o luxo e o medo

A década de 1940 coincidiu com a expansão imobiliária de Copacabana. Prédios em estilo art déco ofereciam luxo e status, e a presença de bunkers virou até atrativo em anúncios de apartamentos. Um classificado de jornal listava, lado a lado, atributos como “living de 28m²”, “banheiros ingleses de luxo” e “abrigo antiaéreo”. “Esses espaços se tornaram símbolo de exclusividade em uma época de medo e incertezas”, explica Cavallero.

A memória subterrânea

Muitos dos bunkers cariocas foram adaptados para garagens no pós-guerra, e hoje quase nada denuncia seu passado. Ainda assim, a pesquisadora tem encontrado rastros, como uma placa no Flamengo com os dizeres: “Abrigo antiaéreo adaptado para garagem em 1949”. O síndico da Galeria Menescal, Klaus Scheyer Junior, disse à BBC News Brasil que estuda instalar um QR Code na entrada da galeria para que visitantes possam acessar fotos e informações históricas sobre o bunker.

História viva

A busca de Cavallero também foi impulsionada pela repercussão nas redes sociais. Um vídeo de um tour pelos bunkers viralizou no TikTok, levando novos moradores a oferecer acesso aos subterrâneos de seus prédios. “A gente tem a tendência de olhar mais para a superfície da cidade, mas há muitas partes da nossa história escondidas embaixo dos nossos pés”, afirma a arquiteta. Para ela, dar visibilidade a esses espaços é uma forma de manter viva a memória da guerra, do antifascismo e do período Vargas, evitando que caiam no esquecimento. 📌 Reportagem com informações da BBC News Brasil, de Júlia Dias Carneiro

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