Após divulgação do aumento das notificações no município, reportagem explica como reconhecer a infecção, buscar tratamento e reduzir a transmissão entre animais e pessoas
Feridas que não cicatrizam, nódulos na pele e lesões no focinho de gatos são sinais que merecem atenção diante da esporotricose, uma infecção que pode atingir animais e seres humanos. O crescimento das notificações em Nova Friburgo, divulgado pelo Portal EcoSerrano nesta terça-feira, 29 de setembro, reforça a necessidade de diagnóstico, tratamento e manejo seguro dos animais.
O levantamento apresentado na reportagem contabiliza 169 notificações em animais até 11 de agosto de 2026 — 166 gatos e três cães —, contra 92 em todo o ano de 2025. A diferença é de 83,7%. Entre humanos, foram 69 notificações desde 2021, incluindo oito em 2026, até 10 de agosto.
A documentação registra 25 óbitos e uma eutanásia, embora outro trecho reúna os 26 desfechos como óbitos. Esses registros não comprovam, individualmente, que a infecção tenha sido a causa exclusiva das mortes. O vereador Cláudio Damião (PT) informou ter solicitado apuração ao Ministério Público.
Os números ajudam a dimensionar a preocupação, mas também exigem cuidado na interpretação: notificações não significam que todos os animais estejam simultaneamente doentes. Para as famílias, a orientação central é reconhecer sinais suspeitos e buscar atendimento. A esporotricose tem tratamento e pode ser curada.
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A doença é causada por um fungo, e não por um vírus
A esporotricose é uma micose provocada por fungos do gênero Sporothrix. A infecção costuma começar quando o microrganismo entra no organismo por uma lesão na pele, após contato com material contaminado.
Inicialmente, podem surgir alterações localizadas. Dependendo da resposta imunológica e da gravidade do quadro, a doença pode alcançar outras áreas da pele, mucosas e estruturas mais profundas.
Uma das espécies envolvidas na transmissão entre animais e pessoas no Brasil é o Sporothrix brasiliensis. Os gatos têm importância nesse ciclo porque podem apresentar grande quantidade do fungo nas lesões, favorecendo a transmissão durante arranhaduras, mordidas ou contato com secreções.
Isso exige cuidado com animais suspeitos, mas não justifica abandono, agressão ou a interrupção dos cuidados.
Como acontece a transmissão da esporotricose
Arranhaduras e mordidas de animais infectados, especialmente gatos, são formas importantes de transmissão. Também existe risco no contato de pele lesionada ou mucosas com secreções de feridas contaminadas.
A infecção pode ocorrer ainda após ferimentos com espinhos, madeira ou outros materiais contaminados presentes no ambiente. Essa associação com plantas e solo explica por que a esporotricose ficou conhecida como “doença do jardineiro”.
O risco precisa ser considerado durante o atendimento e a administração de medicamentos aos animais. Um gato assustado ou com dor pode reagir à manipulação, provocando ferimentos no cuidador. Por isso, o veterinário deve orientar como realizar o tratamento com segurança.
Lesões nasais e secreções respiratórias também merecem atenção no manejo. A doença, porém, não deve ser apresentada como uma infecção transmitida rotineiramente pelo ar, como ocorre com algumas doenças respiratórias.
Nos gatos, feridas profundas e alterações no focinho merecem atenção
Os felinos podem desenvolver lesões ulceradas, com secreção, que não cicatrizam e aumentam rapidamente. Cabeça, focinho, orelhas e patas estão entre as regiões que podem ser afetadas.
O inchaço e as feridas no nariz são popularmente associados à expressão “nariz de palhaço”. Essa aparência pode levantar suspeita, mas não substitui a avaliação veterinária, pois outras doenças também provocam alterações semelhantes.
Os principais sinais incluem:
- Feridas persistentes, profundas ou com secreção.
- Nódulos e aumento dos linfonodos, conhecidos como ínguas.
- Apatia e redução do apetite.
- Perda de peso e piora do estado geral.
- Espirros, lesões nasais e dificuldade respiratória em quadros mais graves.
A perda de apetite pode contribuir para o emagrecimento e o enfraquecimento do animal. Quando há dificuldade para respirar, prostração intensa ou recusa de alimento, a avaliação veterinária deve ser procurada com urgência.
Cães também podem adoecer e precisam de avaliação
Nos cachorros, a esporotricose pode provocar nódulos, feridas e úlceras na pele, inclusive no focinho e nos membros. Também pode ocorrer aumento dos linfonodos próximos às lesões.
A apresentação costuma ser menos agressiva do que em felinos, mas isso não significa que os cães estejam protegidos contra complicações. Feridas persistentes precisam ser investigadas, especialmente quando existe contato com animais infectados ou exposição a ambientes contaminados.
A aparência da lesão, sozinha, não confirma esporotricose. O diagnóstico orienta o tratamento adequado e evita o uso de medicamentos para uma doença que o animal pode não ter.
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Em humanos, a infecção pode começar com um pequeno caroço
Nas pessoas, o primeiro sinal pode ser um pequeno nódulo avermelhado no local de uma arranhadura, mordida ou outro ferimento. A alteração pode evoluir para uma ferida que não cicatriza.
Uma manifestação característica é o aparecimento de outros nódulos ao longo do trajeto dos vasos linfáticos. Assim, uma lesão inicialmente localizada em um dedo pode ser acompanhada de alterações na mão e no braço.
Os sintomas variam. Nem toda lesão provoca dor intensa, e a ausência de dor não deve ser usada para descartar a doença.
Pessoas com feridas persistentes devem procurar atendimento e informar possíveis exposições a animais doentes, arranhaduras, mordidas ou acidentes com plantas e solo. Esse histórico ajuda a equipe de saúde na investigação.
Sem tratamento, a doença pode provocar complicações graves
Nos animais, a progressão da infecção pode causar sofrimento, lesões extensas, perda de peso e comprometimento de outras estruturas. Quadros graves podem levar à morte.
Em humanos, a doença pode deixar cicatrizes e comprometer a função da região afetada. Formas que atingem órgãos internos são menos frequentes, mas podem ocorrer, especialmente em pessoas com imunidade comprometida.
Pulmões, ossos e articulações estão entre as estruturas que podem ser atingidas. A gravidade depende de diferentes fatores, e não apenas da aparência inicial da ferida.
Buscar atendimento cedo ajuda a reduzir complicações e a interromper oportunidades de transmissão.
Tratamento pode durar meses e não deve ser interrompido por conta própria
O tratamento utiliza antifúngicos e precisa ser acompanhado por profissionais. Para seres humanos, o Ministério da Saúde informa que a duração pode variar de três meses a um ano, conforme a apresentação da doença e a resposta ao tratamento.
Há medicamentos disponibilizados pelo SUS para o tratamento humano. A escolha da terapia, os exames e o acompanhamento dependem da avaliação da equipe de saúde.
Nos animais, a prescrição é responsabilidade do médico-veterinário. Não se deve adaptar uma receita humana, calcular doses por conta própria ou suspender o medicamento porque a ferida melhorou.
A cicatrização visível não significa necessariamente que o tratamento terminou. Interromper a medicação antes da orientação profissional pode comprometer a recuperação.
A cura também não impede uma nova infecção após outra exposição. Os cuidados preventivos devem continuar depois da alta.
Prevenção depende de manejo seguro e cuidado contínuo
Manter os gatos em ambiente protegido, sem acesso livre à rua, ajuda a reduzir brigas, ferimentos e contato com outros animais. A castração integra esse cuidado, embora não ofereça imunidade contra o fungo.
Animais em tratamento precisam ficar separados dos demais, em espaço adequado, seguindo orientação veterinária. O isolamento deve preservar alimentação, higiene, conforto e acompanhamento.
Durante os cuidados, é necessário evitar contato direto com feridas e secreções, utilizar a proteção recomendada e higienizar as mãos. A limpeza de objetos e ambientes também deve seguir orientação profissional.
Para atividades com terra, plantas e madeira, luvas, roupas e calçados adequados ajudam a prevenir ferimentos.
Abandonar um animal doente aumenta seu sofrimento e favorece a continuidade da transmissão. A dificuldade financeira para manter o tratamento deve motivar a busca de orientação e assistência, nunca o abandono.
Animais mortos não devem ser enterrados ou colocados no lixo comum
A destinação de animais que morreram com suspeita ou diagnóstico de esporotricose exige cuidado sanitário. Enterrar o corpo ou descartá-lo no lixo comum pode contribuir para a contaminação ambiental.
O tutor deve buscar orientação da Vigilância Ambiental ou do serviço municipal responsável antes de transportar ou manipular o corpo. O encaminhamento precisa ocorrer por um fluxo adequado, com incineração ou cremação realizada por serviço habilitado.
A orientação não é queimar o corpo em casa. O procedimento exige estrutura e controle apropriados.
O enfrentamento da esporotricose envolve o cuidado com o animal vivo, a proteção das pessoas que o assistem e a destinação segura após a morte. Reconhecer os sinais, manter o tratamento e procurar os serviços responsáveis são medidas fundamentais para reduzir sofrimento e novas infecções.
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