Cozinha de restaurante com trabalhadores preparando alimentos.

Merendeiras denunciam cobrança em excesso, assédio e ameaças em capacitação da Educação de Nova Friburgo

Profissionais da rede municipal dizem que encontro anunciado como formação técnica teve clima de pressão e críticas à realidade de trabalho

Mais de 150 profissionais participaram da atividade promovida pela Secretaria de Educação em Nova Friburgo.  Após a divulgação oficial, comentários públicos de merendeiras expuseram relatos de medo, desgaste físico e cobranças que, segundo elas, não consideram a realidade das escolas.

Na última sexta-feira, 20 de março de 2026, por volta do período da manhã e da tarde, a Prefeitura de Nova Friburgo informou oficialmente que realizou uma capacitação voltada às merendeiras e manipuladoras de alimentos da rede municipal de ensino, reunindo mais de 150 profissionais em atividade conduzida por nutricionistas da Secretaria de Educação e da Vigilância Sanitária.

Segundo nota divulgada pelo governo municipal, o objetivo foi reforçar boas práticas de manipulação de alimentos, higiene, armazenamento e segurança alimentar. Para quem trabalha diariamente nas cozinhas escolares, porém, o impacto relatado após o encontro foi outro: em vez de acolhimento técnico, surgiram manifestações públicas descrevendo um ambiente de cobrança intensa, advertências e frustração profissional.

Prefeitura destaca qualidade alimentar, mas comentários revelam desconforto entre participantes: No comunicado oficial, a prefeitura afirmou que a formação representa compromisso com a qualidade da alimentação escolar, prevenção de doenças e valorização dos profissionais envolvidos. O texto institucional também menciona cumprimento de normas sanitárias vigentes e reforça que ações como essa contribuem para a saúde dos estudantes.

Entretanto, logo após a publicação, profissionais que participaram do encontro passaram a relatar publicamente uma percepção bastante diferente da apresentada no material oficial. Uma das manifestações descreve que “em vez de um espaço de aprendizado, diálogo e reconhecimento da importância do trabalho dentro das escolas, foi um clima de cobrança e até de ameaça”.

Relatos apontam distância entre teoria exigida e rotina das cozinhas escolares: Segundo os comentários, uma das principais queixas foi a cobrança por padrões considerados difíceis de cumprir diante da rotina operacional nas unidades escolares. Uma servidora afirmou que foi dito que tudo precisaria seguir “uma linda teoria”, sem considerar limitações práticas enfrentadas diariamente.

Ela acrescentou que a realidade inclui grandes quantidades de alimentos, tempo reduzido, cozinhas com estrutura limitada e responsabilidade por dezenas ou centenas de refeições em horários rígidos. Mais adiante, outro ponto chama atenção. Diversas profissionais também relataram que o encontro teria abordado possíveis autuações pessoais em caso de irregularidades sanitárias, inclusive com referência a multas vinculadas ao CPF de trabalhadores.

Menção a multas pessoais gerou temor entre servidoras: Uma das falas reproduzidas nos comentários afirma: “Se tiver algo errado como um pote de plástico que não seja transparente com algum alimento na geladeira, levamos multa em nosso CPF”. Outra profissional relatou: “A fiscal chefe da vigilância fala que já levou multa no CPF dela e que vão multar no CPF dos funcionários da educação”. Até o momento, não há documento público detalhando como esse tipo de responsabilização individual seria formalmente aplicado em ambiente escolar municipal, nem em quais situações específicas ela ocorreria.

Esse não é o primeiro episódio relacionado ao tema: Há cerca de uma semana, o portal EcoSerrano publicou reportagem sobre redução de itens alimentares em determinadas unidades escolares, caso que também provocou reações públicas de profissionais da rede.

Mudança de tom em comentários chamou atenção após reportagem anterior: Um ponto que gerou estranheza foi o fato de algumas profissionais que anteriormente haviam defendido a situação da merenda em comentários públicos agora relatarem críticas severas à forma como a capacitação foi conduzida.

Nos perfis oficiais, surgiram manifestações mencionando ausência de valorização salarial, falta de insalubridade e sobrecarga. Uma delas resumiu: “Capacita? Que valor nós temos se nem foi aprovado um aumento para nós”. Outra escreveu que “todo ano é a mesma coisa esse curso… não pode isso, não pode aquilo”.

Queixas envolvem salário, saúde física e desgaste emocional: Os relatos também avançaram para temas trabalhistas e de saúde ocupacional. Uma profissional afirmou que muitas servidoras trabalham em calor intenso, com movimentos repetitivos, exposição constante a vapor, panelas de pressão, facas e jornadas consideradas exaustivas. Outra relatou: “Crises de ansiedade e infecções urinárias de repetição são nossas companheiras”. Segundo ela, a dificuldade para ir ao banheiro durante o expediente estaria relacionada ao volume de tarefas e à rigidez dos horários de alimentação nas escolas.

Insalubridade e ações judiciais voltam a ser mencionadas: Nos comentários, também surgiram referências a pedidos judiciais. Uma servidora afirmou que algumas profissionais já precisaram recorrer à Justiça para buscar reconhecimento de adicional de insalubridade. Embora não haja detalhamento oficial de quantos casos existem judicializados atualmente no município, a menção reaparece em diferentes manifestações públicas. Esse tipo de debate já apareceu em outros municípios fluminenses em anos recentes, quando cozinhas escolares passaram a discutir critérios de exposição ocupacional e condições ergonômicas.

Realidade nas escolas inclui múltiplas refeições e poucos intervalos: As profissionais relatam que precisam cumprir, em sequência, preparo de colação, almoço, lanche da tarde e jantar em algumas unidades. Segundo uma delas, “não podemos falhar, não podemos atrasar”. Isso significa que qualquer atraso impacta diretamente a rotina de centenas de estudantes e da própria dinâmica escolar. O assunto segue em observação.

Entenda também o que já mudou desde a última atualização sobre este tema: Desde a última discussão pública envolvendo alimentação escolar, a prefeitura manteve a versão de normalidade no abastecimento e reforçou a narrativa de qualificação técnica. Agora, porém, surgem relatos que deslocam o debate para dentro das cozinhas escolares, com foco nas condições de execução do serviço.

Atualizado às 16h10: Novos comentários continuavam sendo publicados até o fechamento desta edição, mantendo críticas à ausência de valorização salarial e ao desgaste físico relatado pelas profissionais.

Perguntas centrais sobre a situação das merendeiras em Nova Friburgo 🍽️

  • O que a prefeitura informou oficialmente? Que a capacitação teve foco técnico em higiene, armazenamento e segurança alimentar.

  • O que as merendeiras relataram? Cobranças excessivas, temor com multas, falta de valorização e dificuldade estrutural nas escolas.

  • Há resposta oficial sobre os relatos? Até agora, não houve retorno complementar ao pedido de esclarecimento.

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