Município também foi uma potência econômica e referência na área industrial
Da “Paris dos Trópicos” à capital do cinema fluminense
No início do século XX, a economia de Campos dos Goytacazes era doce como o açúcar que saía de suas 26 usinas. Em 1973, o município bateu recorde histórico de produção: 611 mil toneladas de açúcar. Esse cenário, impulsionado por financiamentos estatais e programas como o Pró-Álcool, fez florescer uma vida cultural intensa.
Na década de 1960 e 1970, Campos chegou a ter 68 salas de cinema de rua — 20 no centro e 48 espalhadas pelos distritos, tornando-se a terceira cidade brasileira com mais cinemas. Ir ao cinema era tão popular quanto frequentar a missa aos domingos.“Campos era rica, ambiciosa e profundamente vaidosa — e o cinema era seu espelho mais reluzente”, relata o pesquisador Jan Theóphilo.
Primeiros projetores e salas históricas
O Cine-Teatro São Gonçalo, inaugurado em 1930, é considerado o primeiro cinema de rua documentado no município. Logo vieram clássicos como o Cine Capitólio e o Cine Goitacá, todos com forte presença na vida social e política da cidade.O Teatro Trianon, aberto em 1921, também se adaptou ao cinema, tornando-se um dos pontos culturais mais importantes da região.
O fechamento das salas e a mudança de hábitos
A crise do setor sucroalcooleiro e a modernização da produção em outras regiões levaram à decadência econômica de Campos. O reflexo foi direto no setor cultural: o último cinema de rua, o Cine Capitólio, fechou as portas em 2001.Hoje, os campistas assistem aos lançamentos apenas nos multiplex de shoppings — mais confortáveis, porém sem a alma das antigas poltronas rangentes do centro histórico.
Campos como cenário de filmes e novelas
A cidade já foi locação de produções marcantes como Ganga Zumba (1963), Xica da Silva (1976), Escrava Isaura (1976), Sinhá Moça (1986) e O Coronel e o Lobisomem (2005). Também lançou produções independentes, como Forró em Cambahyba (2013) e Faroeste Cabrunco (2022).Além das locações, Campos revelou artistas consagrados como Tonico Pereira, Zezé Motta e Milton Gonçalves.
A nova geração e o faroeste campista
O filme Faroeste Cabrunco é exemplo da resistência cultural. Rodado nos canaviais do Norte Fluminense e lançado em 2022, mistura faroeste, política e estética do cangaço, com direção de Pedro M. G. Rocha e atuação marcante de Tonico Pereira.Produzido com recursos limitados pela Sonar Filmes, o longa foi exibido em festivais e recebeu elogios pela criatividade.
Quando visitar Campos
A melhor época para conhecer a cidade é de maio a agosto, quando o clima é ameno e seco, ideal para explorar seu patrimônio histórico. Entre outubro e novembro, eventos como a Exposição Agropecuária movimentam o município.
O desafio de manter viva a memória
Com nenhum cinema de rua em funcionamento, Campos enfrenta o desafio de preservar seu passado cultural. Iniciativas independentes e produções locais tentam reacender o brilho perdido. E, como toda estrela esquecida, talvez a cidade esteja preparando um retorno triunfal.