Fachada de antiga fábrica, parte de complexo industrial histórico em Nova Friburgo.

Acordo para pagar dívidas deve cancelar leilão de prédio histórico do Estado do RJ

Administrador afirma que débitos devem ser pagos em até duas semanas, apesar de anúncio do leilão ainda permanecer ativo

Um acordo envolvendo credores, Justiça e a administração da antiga fábrica indica que o leilão pode ser cancelado. O complexo industrial possui cerca de 305 mil m² e valor inicial estimado em R$ 159 milhões. A área é considerada um dos patrimônios históricos da industrialização de Nova Friburgo.

Nesta quarta-feira, 11 de março de 2026, às 17h, em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, novas informações indicam que o leilão da antiga Fábrica Ypu poderá não ocorrer, apesar do anúncio ainda permanecer ativo no site da empresa responsável pela venda judicial do imóvel. A informação foi confirmada ao Portal EcoSerrano pelo administrador da área, Moair Lengruber, após a reportagem exclusiva e em primeira mão sobre a data do leilão, que afirmou que um acordo foi firmado entre a administração da fábrica, a Justiça e os credores para quitação das pendências financeiras que motivaram a inclusão do imóvel no processo de leilão.

Segundo Lengruber, ainda existem remanescente de dívidas federais, estaduais e municipais, mas os débitos vêm sendo pagos gradualmente nos últimos anos. “Há um remanescente de dívidas federais, estaduais e municipais, mas há oito anos as dívidas têm sido pagas. O leilão ainda está ativo, mas um acordo entre a fábrica, a Justiça e seus credores prevê que, em até duas semanas, os débitos sejam quitados e o leilão seja oficialmente cancelado”, afirmou ao EcoSerrano.

Até o fechamento desta reportagem, a empresa Rymer Leilões, responsável pela realização do evento, ainda mantinha o anúncio ativo do leilão, com valor inicial de aproximadamente R$ 159 milhões. O portal também tentou contato com a empresa organizadora, mas não houve retorno.

Edital previa leilão milionário do complexo industrial: O edital divulgado anteriormente confirmava a realização do leilão do terreno onde funcionou a antiga Fábrica Ypu, localizado na Rua Maximiliano Falck, em Nova Friburgo. De acordo com documentos do processo de avaliação imobiliária, o complexo industrial possui aproximadamente 305 mil metros quadrados de área total, incluindo a estrutura da antiga indústria e imóveis residenciais utilizados por trabalhadores ao longo do século XX.

O cronograma previa dois leilões: 4 de maio de 2026, às 12h, com lance inicial de R$ 159.180.000; 7 de maio de 2026, também às 12h, caso não houvesse arremate no primeiro, com valor mínimo reduzido para R$ 79.590.000. 

Segundo o estudo técnico anexado ao processo, a avaliação considerou parâmetros da NBR 12.721/2026, além de dados do Custo Unitário Básico (CUB) e da tabela do Sinduscon de dezembro de 2025.

Avaliação inclui fábrica, terreno e vila operária: O estudo imobiliário que embasa o processo considera três estruturas principais presentes no complexo industrial. O primeiro elemento é o terreno com aproximadamente 305 mil m², uma das maiores áreas industriais dentro do perímetro urbano de Nova Friburgo.

O segundo ponto é a área construída da antiga fábrica, estimada em cerca de 43 mil m², onde funcionaram os galpões industriais e estruturas administrativas. O terceiro componente da avaliação são 38 casas da antiga vila operária, que juntas somam aproximadamente 9.500 m² de área construída. O edital também previa condições comuns em leilões judiciais de grande porte, como entrada imediata de 30% do valor arrematado, pagamento do saldo em até 15 dias e comissão de 5% ao leiloeiro.

Origem da fábrica marcou a industrialização da cidade: A história da Fábrica Ypu está diretamente ligada ao processo de industrialização de Nova Friburgo no início do século XX. O empreendimento surgiu por volta de 1912, no antigo Sítio Ypu, propriedade do empresário alemão Maximilian Falck, localizado às margens do Rio Santo Antônio.

A produção inicial incluía passamanarias e artigos têxteis, fabricados em teares importados da Alemanha. Técnicos europeus foram contratados para operar o maquinário e treinar trabalhadores locais. A expansão ocorreu rapidamente. Cinco anos após a fundação, a fábrica já empregava 155 operários, consolidando-se como um dos primeiros polos industriais relevantes da cidade.

Bairro inteiro se desenvolveu ao redor da indústria: Com o crescimento da produção, o entorno da fábrica passou a receber moradias, comércio e serviços, dando origem ao bairro Ypu, atualmente uma das regiões tradicionais de Nova Friburgo. Na década de 1940, a empresa construiu residências para funcionários, formando uma vila operária — modelo comum em complexos industriais brasileiros da época.

A fábrica também mantinha intensa vida social e cultural. Em 1944, foi inaugurada a Recreativa Ypu, espaço destinado a eventos esportivos e atividades comunitárias. Funcionários participavam de competições entre indústrias da cidade, conhecidas como Jogos dos Industriários, que durante décadas fizeram parte do calendário esportivo local.

Fábrica chegou a empregar mais de mil trabalhadores: Durante o período de maior expansão industrial, especialmente entre as décadas de 1950 e 1970, a Fábrica Ypu se tornou um dos maiores empregadores da cidade. No balanço de 1958, a empresa já registrava 1.026 operários. Nos anos 1970, o quadro de funcionários chegou a aproximadamente 1.200 trabalhadores, com um parque industrial que ultrapassava 44 mil metros quadrados de construção. Entre os produtos fabricados estavam passamanarias, bordados, sianinhas, acessórios têxteis e itens em couro, como cintos e carteiras.

Crise industrial levou ao encerramento das atividades: Com mudanças no mercado e dificuldades financeiras acumuladas ao longo das décadas seguintes, a empresa entrou em crise. Entre os fatores historicamente citados estão: aumento de custos trabalhistas; dívidas fiscais e previdenciárias; exigências ambientais relacionadas ao tratamento de efluentes industriais. Segundo registros históricos e relatos de ex-funcionários, a empresa teve dificuldades para se adaptar às novas regras e acabou tendo sua falência decretada, encerrando um ciclo importante da história industrial de Nova Friburgo.

Área pode despertar interesse imobiliário: Especialistas do setor imobiliário apontam que áreas industriais de grande porte dentro de zonas urbanas costumam despertar interesse para diferentes tipos de empreendimentos. Entre os possíveis usos para o complexo da antiga Ypu estão projetos de: requalificação urbana, centros logísticos, empreendimentos habitacionais, espaços comerciais ou projetos mistos. Até o momento, não há confirmação oficial sobre eventuais interessados na área, e a possível suspensão do leilão dependerá da formalização do acordo mencionado pela administração do imóvel.

Impacto para moradores e para a história da cidade: A situação do complexo industrial desperta interesse não apenas do mercado imobiliário, mas também de moradores,  historiadores e ex-funcionários. A antiga Fábrica Ypu é considerada um dos símbolos da formação econômica e social de Nova Friburgo, tendo influenciado diretamente o crescimento urbano da região ao longo do século XX. Por isso, qualquer definição sobre o futuro da área tende a ter impacto tanto urbanístico quanto histórico para a cidade.

🔄 Atualização, às 17h20: até o momento da atualização desta reportagem, o anúncio do leilão da área da antiga Fábrica Ypu ainda permanecia ativo na plataforma da empresa responsável, apesar da informação de acordo para quitação das dívidas.

📊 Entenda o caso

  • O leilão da Fábrica Ypu foi cancelado? Ainda não oficialmente. Segundo o administrador do imóvel, um acordo deve quitar as dívidas e levar ao cancelamento do leilão nas próximas semanas.

  • Qual o valor estimado do complexo industrial? O primeiro leilão previa lance inicial de cerca de R$ 159 milhões, podendo cair para aproximadamente R$ 79 milhões em um segundo leilão.

  • Qual o tamanho da área da antiga fábrica? O complexo possui cerca de 305 mil metros quadrados, incluindo galpões industriais e casas da antiga vila operária.

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