Encosta com terra exposta, vegetação caída e escombros ao lado de uma residência.

Jovens de Caxias e Magé mapeiam riscos de enchentes, calor e falta d’água

Participação comunitária na Baixada Fluminense mapeou locais de risco e elaborou projeto de prevenção

Jovens e moradores de comunidades da Baixada Fluminense participaram da construção de propostas para enfrentar problemas que atingem diretamente suas casas, sua saúde e sua alimentação. Em encontros realizados entre setembro e outubro, em Duque de Caxias e Magé, os participantes mapearam riscos de enchentes, deslizamentos, calor extremo e falta d’água e discutiram formas de prevenção e organização comunitária.

A formação Justiça Climática e Resiliência Socioecológica reuniu nove encontros, com atividades em Duque de Caxias e no Quilombo de Bongaba, em Magé. O trabalho partiu das experiências de quem vive nos territórios para discutir como reconhecer vulnerabilidades, acompanhar riscos e participar das decisões sobre proteção e adaptação às mudanças climáticas.

Entre os assuntos abordados estiveram o monitoramento comunitário, a participação nas políticas públicas e a saúde mental. O encerramento foi dedicado ao planejamento de ações futuras e à organização das comunidades.

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Moradores mapearam os riscos do próprio território

O mapeamento permitiu relacionar o debate sobre mudanças climáticas aos problemas enfrentados no cotidiano. Enchentes, calor intenso, deslizamentos e dificuldades no abastecimento de água foram examinados a partir das condições dos locais onde os participantes vivem.

Essa abordagem aproximou o conhecimento técnico das experiências dos moradores. Além de estudar os cenários climáticos, o grupo discutiu prevenção e formas de levar suas demandas ao poder público.

As atividades descritas incluem diagnóstico, formação e planejamento. Não foram apresentados resultados de obras ou intervenções já concluídas a partir das propostas.

Participação dos jovens ganha espaço no Quilombo de Bongaba

No Quilombo de Bongaba, a discussão sobre proteção dos territórios também passou pelo acesso à educação e pelo fortalecimento da participação dos jovens.

Pai Paulo de Ogun, liderança religiosa do Asé Ogun Alakoro, conduziu o encontro sobre justiça climática e território. Segundo ele, enfrentar as vulnerabilidades exige valorizar os conhecimentos da comunidade e ampliar as condições para que seus integrantes participem das decisões que afetam suas vidas.

A liderança citou o pré-vestibular com professores voluntários existente no quilombo, que já contribuiu para o ingresso de estudantes em universidades públicas. A experiência foi apresentada como parte de um trabalho de educação, autonomia e troca de saberes.

“Nosso lema quilombola é: não fale de nós sem nós”, afirmou. Para ele, os jovens vêm ocupando espaços aos quais têm direito, levando consigo as experiências e as necessidades de seus territórios.

Parcerias buscam levar agroecologia à Maré e à Mangueira

A agricultora familiar Fabiana dos Anjos relatou que saiu dos encontros com novas ferramentas e contatos para desenvolver iniciativas comunitárias.

Ela afirmou estar construindo parcerias com colegas da formação para projetos de agroecologia na Maré e na Mangueira, na cidade do Rio de Janeiro. Também pretende buscar recursos para sua comunidade em 2027.

As iniciativas ainda estão em articulação. O relato mostra como o contato entre participantes pode dar continuidade ao aprendizado, aproximando pessoas interessadas em desenvolver projetos nos locais onde vivem.

“Quando a gente passa a ter acesso a essas informações, a gente passa a ir descortinando as nossas visões”, disse Fabiana.

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Desigualdade influencia quem fica mais exposto

A formação também discutiu por que uma mesma chuva pode produzir consequências diferentes entre bairros e comunidades.

A filósofa e pesquisadora Maria Clara Salvador destacou que populações negras e quilombolas enfrentam maior exposição quando vivem em áreas vulneráveis e têm menos acesso a políticas de adaptação. Ela apontou a falta de saneamento como uma expressão do racismo ambiental.

“Uma chuva não produz o mesmo impacto em todos os territórios”, afirmou.

O debate amplia a prevenção para além dos fenômenos meteorológicos: as condições de moradia, a infraestrutura disponível e o acesso aos serviços públicos também precisam ser considerados na proteção das famílias.

Natureza e conhecimento local entram no planejamento

A professora Aliny Pires, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), defendeu a inclusão das chamadas soluções baseadas na natureza nos planos de adaptação climática.

São estratégias que utilizam a conservação, a recuperação e o manejo dos ecossistemas para enfrentar problemas ambientais e sociais. Na avaliação da pesquisadora, essas respostas precisam ser construídas com participação das comunidades.

O trabalho discutido nos encontros combina conhecimento técnico, experiências locais e articulação entre moradores. A continuidade dependerá de transformar os diagnósticos em projetos, buscar recursos e acompanhar as respostas do poder público.

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