Laço preto simboliza luto e despedida

Jovem teria sofrido abuso sexual antes de morrer em hospital de Nova Friburgo, diz família

Portal EcoSerrano divulga vídeo em que pai revela a grave denúncia. Veja todos os detalhes na reportagem

Maria Laura Henrique de Souza Mendes tinha 21 anos, trabalhava nas Lojas Americanas e havia concluído um curso de enfermagem. O pai, Luiz Antonio Mendes, de 58 anos, lembra-se de uma jovem alegre e divertida, que cresceu convivendo com a anemia falciforme e com as dores provocadas pelas crises da doença (veja o vídeo no final do texto).

Na última terça-feira, 8 de setembro, Maria Laura morreu no Hospital Municipal Raul Sertã, em Nova Friburgo. Além da perda da filha, a família tenta agora obter respostas sobre uma denúncia que ela teria feito enquanto ainda estava lúcida no CTI: a de que havia sido tocada sexualmente por um funcionário da unidade.

Maria Laura não conseguiu prestar depoimento à Polícia Civil. Seu relato chegou às autoridades por intermédio da família antes que ela fosse intubada.

O Portal EcoSerrano teve acesso exclusivo ao vídeo com o depoimento de Luiz Antonio e às páginas do registro de ocorrência e do termo de declaração da mãe. Os documentos confirmam que a denúncia foi formalizada na polícia três dias antes da morte da jovem.

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Uma internação que começou com Maria Laura consciente

Maria Laura convivia com a anemia falciforme desde o nascimento. Segundo o pai, ela já havia passado por outras internações em consequência da doença e chegou a perder a visão de um dos olhos.

A nova internação começou em 4 de setembro. Mesmo sentindo dores, ela chegou ao Hospital Raul Sertã andando e ainda conseguia ir ao banheiro sem ajuda, conforme o relato de Luiz Antonio.

Maria Laura permaneceu inicialmente na enfermaria. Após uma piora em seu quadro de saúde, foi encaminhada ao CTI.

O termo de declaração prestado pela mãe à Polícia Civil informa que, durante uma visita realizada por volta das 17h do dia 7, Maria Laura estava enfraquecida, recebia transfusão de sangue e respirava com o auxílio de oxigênio. Apesar das condições clínicas, permanecia lúcida.

Foi durante essa visita que a jovem contou o que teria acontecido.

“Minha filha sabia que aquele procedimento não era normal”

Segundo Luiz Antonio, Maria Laura relatou o suposto abuso à mãe e a um primo. Ela afirmou que um funcionário havia entrado no espaço onde estava durante a noite e tocado seus seios sem apresentar uma justificativa clínica.

“Minha filha contou à mãe que, durante a noite, um enfermeiro entrou onde ela estava e começou a apalpá-la, focando principalmente nos seios. Minha filha fez curso de enfermagem e sabia que aquele procedimento não era padrão e não tinha explicação para acontecer”, declarou o pai.

O termo da Polícia Civil apresenta uma versão semelhante. Segundo a declaração da mãe, Maria Laura disse que o funcionário teria ido algumas vezes ao CTI e, ao mexer nos eletrodos fixados na região do peito, tocado seus seios de forma indevida.

O documento acrescenta que o homem teria olhado ao redor para verificar se havia alguém por perto. Depois de perceber o comportamento, a própria Maria Laura teria chamado a chefia de enfermagem e relatado o ocorrido.

A mãe deixou registrado que não presenciou o suposto crime. Seu depoimento reproduz o relato que ouviu diretamente da filha, que estava consciente naquele momento.

Família procurou a polícia na mesma noite

Após ser informado, Luiz Antonio foi chamado ao hospital. Ele e a mãe de Maria Laura apresentaram a denúncia dentro da própria unidade.

Segundo o pai, um profissional da enfermagem acionou a Polícia Militar. O casal foi então à delegacia para prestar depoimento.

O registro de ocorrência foi iniciado às 19h10 de 7 de setembro e concluído às 20h13 e foi registrado inicialmente como importunação sexual, com referência ao artigo 215-A do Código Penal.

O profissional apontado pela família também foi identificado no boletim. O documento registra que ele trabalhava no Hospital Raul Sertã como técnico de enfermagem e o apresenta, na classificação inicial da ocorrência, como autor.

Essa identificação no boletim não representa condenação nem comprova a responsabilidade do funcionário. A denúncia ainda precisa ser investigada, e o profissional tem direito à defesa e à presunção de inocência. Por esse motivo, o EcoSerrano não publicará seu nome neste momento.

Maria Laura seria ouvida depois da alta

Durante o atendimento policial, segundo Luiz Antonio, a família foi informada de que Maria Laura poderia prestar depoimento assim que recebesse alta. O termo da mãe, assinado na manhã de 8 de setembro, registrava que naquele momento a jovem ainda não tinha previsão de deixar o hospital.

Ela não conseguiu apresentar pessoalmente sua versão à Polícia Civil.

Conforme o pai, depois que o caso foi comunicado às autoridades e antes que Maria Laura pudesse ser ouvida, a jovem precisou ser intubada. Luiz Antonio afirma que a família não foi avisada sobre o procedimento.

Maria Laura morreu horas depois da intubação, na quinta-feira (10), segundo o relato paterno.

O EcoSerrano não teve acesso ao prontuário, aos laudos ou a uma manifestação médica que esclareça quando a intubação foi realizada, quais alterações clínicas levaram ao procedimento e qual foi a causa da morte.

Não há elementos que permitam relacionar o suposto abuso ao agravamento do estado de saúde ou ao falecimento. A denúncia policial e as circunstâncias médicas da morte precisam ser apuradas separadamente, com análise dos depoimentos, escalas de trabalho, prontuário e demais registros do hospital.

“Não tivemos apoio de ninguém”

No vídeo entregue com exclusividade ao EcoSerrano, Luiz Antonio fala sobre a filha e cobra respostas para os últimos dias de sua vida. Para ele, a família não recebeu o acolhimento necessário depois de comunicar a denúncia.

“Não tivemos nenhum apoio do hospital, da direção, de ninguém”, afirmou.

A família pede justiça e quer que a denúncia relatada por Maria Laura não seja esquecida porque ela morreu antes de conseguir falar diretamente com a polícia.

Além da investigação sobre o suposto crime, os familiares querem esclarecimentos sobre a evolução do quadro clínico, a decisão de intubá-la e a alegada falta de comunicação do procedimento.

Secretaria de Saúde não respondeu

O Portal EcoSerrano procurou a Secretaria Municipal de Saúde por meio da Subsecretaria de Comunicação e encaminhou o pedido de esclarecimentos diretamente ao secretário municipal de Saúde, Gabriel Wenderoschy.

A reportagem perguntou se foi aberta sindicância ou investigação administrativa; se o profissional citado foi afastado ou transferido; e se foram preservados prontuários, escalas, registros de acesso e eventuais imagens do CTI.

Também foram solicitadas informações sobre as condições clínicas que levaram à intubação, a alegação de que a família não foi avisada, os protocolos adotados após a comunicação do suposto abuso e o acolhimento oferecido aos parentes.

Até o fechamento desta reportagem, nenhuma resposta havia sido enviada.

O espaço permanece aberto à Secretaria de Saúde, à direção do Hospital Raul Sertã, à Polícia Civil e à defesa do profissional citado. A reportagem será atualizada quando houver manifestação oficial ou novos desdobramentos da investigação.

Telefones úteis

  • Polícia Civil: 197
  • Polícia Militar: 190
  • Central de Atendimento à Mulher: 180
  • Disque Direitos Humanos: 100

RIO DA DEPRESSÃO: https://whatsapp.com/channel/0029VbAzBflJZg41UHQaoP0l

INFORME NA PISTA RJ: https://whatsapp.com/channel/0029Vadaiao9MF98Ocpdnx3m

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