Cantor é acusado de feminicídio. Veja os detalhes do crime
O cantor sertanejo conhecido como Gustavo, integrante da dupla Tony e Gustavo, será levado a júri popular nesta sexta-feira, 28 de agosto, acusado de matar Karen Mancini, de 39 anos. O crime aconteceu em abril de 2024, dentro da casa onde o casal vivia, em Lumiar, distrito de Nova Friburgo, há poucos meses.
Segundo a acusação, Karen foi atingida por 114 golpes, que provocaram hemorragia e traumatismo craniano. Já o memorial mantido pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro em homenagem à vítima informa que o laudo de necropsia registrou mais de 120 lesões pelo corpo — cerca de 30 somente no rosto. Os números se referem a registros diferentes: a quantidade de golpes atribuída pela acusação e o total de lesões identificadas no corpo.
Gustavo é acusado de feminicídio, mas nega ter cometido o crime. A responsabilidade criminal será decidida pelos jurados durante o julgamento.
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Defesa afirma que cantor não estava na residência
Os advogados Ester D’Arc Silveira e Erick Pereira Nascimento, responsáveis pela defesa, sustentam que Gustavo não estava em casa no momento da morte de Karen.
De acordo com a versão apresentada pelos defensores, o cantor sofreu um acidente de carro em Lumiar na noite de 19 de abril de 2024. Ele teria passado a noite internado no Hospital Municipal Raul Sertã e retornado à residência apenas na manhã seguinte, quando encontrou a companheira morta.
A defesa também aponta supostas falhas na investigação. Entre os questionamentos estão a ausência de perícias de impressões digitais e DNA no imóvel, a alegada falta de preservação da cena do crime e a inexistência de exame de corpo de delito no acusado.
Os advogados mencionam ainda que Karen tinha histórico de depressão e utilizava medicamentos controlados.
Essas afirmações fazem parte da estratégia da defesa e deverão ser confrontadas, durante o júri, com as provas e os argumentos apresentados pela acusação. Gustavo deve ser considerado inocente até que exista uma condenação definitiva.
Família relata histórico de violência
Caroline Mancini, irmã de Karen, relatou, após o crime, que o relacionamento era marcado por discussões graves, algumas delas a ponto de exigir a intervenção de vizinhos.
Segundo Caroline, Karen chegou a procurar uma delegacia para solicitar uma medida protetiva, mas ainda acreditava que o comportamento do companheiro poderia mudar.
“Karen relutava muito em acreditar que o marido não era boa pessoa. Para ela, é como se ele só fosse agressivo sob o efeito de drogas. Falar mal dele era comprar uma briga com ela, que sempre acreditava que ele iria melhorar.”
O memorial do MPRJ sobre Karen também apresenta relatos da família segundo os quais ela teria sofrido controle financeiro, agressões físicas e psicológicas e um processo de afastamento de sua rede de apoio.
Conforme esses relatos, o companheiro ficava com os cartões bancários de Karen, contraiu dívidas em nome dela e administrava medicamentos controlados sem prescrição. Familiares e amigos teriam tentado intervir diversas vezes.
Na ocasião da prisão, em abril de 2024, a Polícia Militar informou que o suspeito foi localizado quando estaria tentando embarcar em um ônibus com destino à cidade do Rio de Janeiro. A Polícia Civil declarou, naquele momento, que as investigações estavam em andamento para esclarecer a motivação do crime.
Quem era Karen Mancini
A violência do caso não deve apagar quem Karen foi antes de se tornar vítima de um crime.
Reconhecida pela inteligência e pela dedicação aos estudos, ela se destacava desde a escola, quando frequentemente era escolhida como oradora da turma e se tornava uma referência para professores e colegas.
Karen era apenas um ano e três meses mais velha que Caroline. As duas foram criadas quase como gêmeas e mantinham uma relação de grande proximidade.
Ela iniciou o curso de Economia na Universidade Federal Fluminense, a UFF, mas depois decidiu estudar Contabilidade, direcionando a preparação para concursos públicos. Tinha facilidade para aprender e também para ensinar, ajudando a irmã e os amigos a compreenderem conteúdos considerados difíceis.
Ao longo da vida profissional, Karen foi aprovada em 16 concursos públicos. Trabalhou como auditora da Financiadora de Estudos e Projetos, a Finep, e posteriormente realizou um de seus principais sonhos: ingressar no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro.
No TCE-RJ, tornou-se referência na área de controle externo. Karen também fundou um curso preparatório e ajudou diversos alunos a conquistarem aprovações em concursos.
Fora do trabalho, gostava de organizar festas, viajar e reunir os amigos. A família a descreve como uma mulher alegre, carismática, solidária e muito próxima das pessoas que amava.
Perdas e afastamento da família
O ano de 2018 marcou profundamente a vida de Karen. Em um intervalo de apenas três meses, ela enfrentou uma separação e perdeu os pais.
Segundo o relato disponibilizado pelo MPRJ, foi durante esse período de fragilidade emocional que Karen iniciou o relacionamento que, conforme sustenta a acusação, seria marcado por sucessivos episódios de violência.
A família afirma que tentou ajudá-la e que Karen chegou a se internar para tratar uma dependência. Ela, no entanto, retomou o relacionamento e teria ficado cada vez mais distante dos familiares e amigos.
Esse processo ajuda a compreender por que sair de uma relação abusiva não depende simplesmente de “querer ir embora”. Dependência emocional, controle financeiro, isolamento, ameaças e esperança de mudança podem funcionar como portas trancadas ao redor da vítima, mesmo quando não existe uma prisão física.
Uma dor que começou antes da morte
Para Caroline, o luto não começou somente quando a irmã morreu. A perda teria se iniciado durante os seis anos em que acompanhou Karen sendo progressivamente afetada pelo relacionamento.
Após o crime, Caroline passou a ter pesadelos nos quais revive o espancamento e tenta proteger a irmã. Ela precisou buscar terapia e acompanhamento psiquiátrico para enfrentar a ansiedade e o trauma.
A família espera que o julgamento represente uma resposta do sistema de Justiça e ajude a encerrar um ciclo de sofrimento que permanece aberto desde abril de 2024.
Julgamento será presidido por juíza do caso Flordelis
O júri será presidido pela juíza Nearis dos Santos Arce. A magistrada também conduziu o julgamento da ex-deputada federal Flordelis, condenada pela morte do pastor Anderson do Carmo.
Durante o julgamento desta sexta-feira, acusação e defesa apresentarão suas versões, testemunhas e provas. Caberá ao Conselho de Sentença decidir se Gustavo é responsável pela morte de Karen e se houve feminicídio.
Mais do que a brutalidade registrada nos autos, o caso deixa a história de uma mulher que construiu uma trajetória de excelência no serviço público e ajudou outras pessoas a realizarem seus próprios projetos.
Karen Mancini foi irmã, amiga, professora, auditora e referência profissional. Seu nome permanece também como um alerta sobre a necessidade de reconhecer os sinais da violência doméstica antes que ela chegue ao desfecho mais grave.
Onde procurar ajuda
Mulheres vítimas de violência podem buscar ajuda pelos seguintes canais:
- Central de Atendimento à Mulher: 180
- Polícia Militar: 190
- Emergência médica — Samu: 192
- Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de Nova Friburgo: atendimento presencial em caso de violência ou ameaça
- Disque Denúncia: 2253-1177
Em situação de risco imediato, a orientação é ligar para o 190.
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