Irmã da vítima e o marido afirmaram que evitaram divulgar informações para não prejudicar o processo que terminou com condenação em Nova Friburgo
Um silêncio mantido por quase cinco anos começou a ser rompido depois da condenação de Ricardo Pinheiro Jucá Vasconcelos, em Nova Friburgo. Familiares de Nahaty Gomes de Mello afirmaram que evitaram dar detalhes públicos sobre o caso durante todo esse período para não comprometer o processo judicial.Após o julgamento, a irmã de Nahaty, Saliha Mello, e o marido dela, Paulo Cezar Azevedo falaram em coletiva de imprensa sobre os bastidores do caso, a atuação da acusação, os elementos apresentados ao Júri e o sentimento da família depois da sentença.Ricardo Jucá foi condenado a 70 anos, 6 meses e 14 dias de reclusão por dois feminicídios, um homicídio qualificado e um aborto provocado por terceiro. O crime vitimou Nahaty Gomes de Mello, que estava grávida de seis meses; a mãe dela, Rosemary Gomes de Mello; o pai, Wellington Braga Mello; e a bebê Zoe, que Nahaty esperava.O caso chocou Nova Friburgo, ganhou repercussão nacional e chegou ao Tribunal do Júri com uma disputa central: a defesa sustentava a tese de “surto”, enquanto a acusação defendia que o crime foi praticado com consciência e responsabilidade penal.
Família diz que ficou em silêncio para não prejudicar o processo
Na coletiva, Saliha e Paulinho explicaram que a família carregou informações ao longo dos anos sem expor tudo publicamente porque havia o receio de prejudicar o andamento do caso.Segundo eles, a decisão de falar com mais detalhes veio apenas depois da conclusão do julgamento. Para a família, o resultado representou não apenas a condenação do réu, mas também o reconhecimento de uma tese sustentada desde o início pelos familiares e pela acusação: a de que o crime não teria sido resultado de um surto.“É uma sensação de alívio. A justiça foi feita. É uma pena alta. Mesmo com a questão de progressão da pena, ele deve cumprir cerca de 40 anos, porque houve os qualificadores, feminicídio, premeditação, crime hediondo, aborto provocado, entre outros”, afirmou o casal.Eles também agradeceram aos advogados e ao Ministério Público, destacando o esforço para reunir informações, obter quebras de sigilo e apresentar elementos que, segundo a família, foram fundamentais para a condenação com agravantes.
De acordo com os familiares, o julgamento trouxe elementos que, na avaliação deles, demonstram atos preparatórios antes do crime.Saliha afirmou que, no mesmo período em que Ricardo alegaria ter sofrido um surto, ele também tratava de assuntos ligados ao cartório e teria negociado a compra de uma escopeta. A família também relatou que foram identificadas pesquisas feitas por ele na internet, incluindo buscas sobre como demitir uma funcionária grávida por justa causa e sem direitos trabalhistas.Outro ponto citado por Saliha foi a construção de uma sauna na casa. Segundo ela, Ricardo teria pesquisado se sauna poderia provocar aborto e pedido ao empreiteiro que acelerasse a obra.“Minha irmã queria sair desse relacionamento. Ela observou que ele tinha comportamento manipulador, tirando ela do convívio com a família. Ele chegou a pesquisar se o ato de fazer sauna poderia provocar um aborto porque ele estava construindo uma sauna em casa e pediu ao empreiteiro para acelerar a construção da sauna”, afirmou Saliha.As informações foram apresentadas pela família como parte do conjunto de elementos que, segundo eles, ajudou a afastar a tese de incapacidade e reforçou a linha de premeditação defendida no julgamento.
Relação marcada por isolamento, segundo familiares
Saliha também afirmou que a convivência com Ricardo não era boa e que Nahaty teria sido afastada gradualmente da família durante o relacionamento.Segundo a irmã, Nahaty era “prisioneira dentro do relacionamento” e Ricardo queria ocupar o papel de protagonista o tempo inteiro. Na avaliação da família, a gravidez teria intensificado conflitos, especialmente porque, segundo Saliha, ele não aceitava bem a paternidade.Os familiares afirmaram ainda que, depois que Ricardo soube da gravidez, surgiram questionamentos sobre a paternidade. Para eles, esse comportamento foi um dos sinais de que o crime não poderia ser tratado apenas como um episódio isolado.A família também relacionou a intensificação do comportamento de Ricardo ao período da prisão de Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como “Faraó dos Bitcoins”, em agosto de 2021. A referência foi apresentada pelos familiares como parte do contexto que, segundo eles, Ricardo tinha investimentos dele e de familiares e havia perdido tudo por conta de Glaidson, fato que marcou a mudança de comportamento observada antes do crime.
“Lutem sempre até o fim”, diz irmã de Nahaty
Ao falar sobre a espera por justiça, Saliha deixou uma mensagem para outras famílias e para mulheres que possam estar vivendo relacionamentos marcados por controle, isolamento ou sinais de violência.“Lutem sempre até o fim. É custoso, é cansativo, mas vale a pena lutar por justiça”, disse.Ela também pediu atenção aos alertas feitos por pessoas próximas em situações de relacionamento abusivo.“Se alguém estiver passando por problemas no relacionamento, ouçam às vezes alguns toques, dicas que amigas e amigos dão. Avaliem essas sugestões para perceber se fazem sentido ou não. Isso faz a diferença”, afirmou.A condenação de Ricardo Jucá representa a etapa mais decisiva do processo até agora, mas a sentença ainda pode ser questionada por meio dos recursos previstos na legislação. Para a família de Nahaty, no entanto, o fim do julgamento permitiu que uma parte da história, guardada em silêncio por anos, finalmente fosse contada.