Pacote reúne recursos públicos e privados para colocar 5 mil ônibus nas ruas, ampliar a segurança e atacar velhos problemas da cidade
A Prefeitura do Rio apresentou um plano de investimentos de R$ 22,1 bilhões que promete mexer profundamente com a rotina de quem vive, trabalha ou circula pela cidade até 2028.O pacote coloca sobre a mesa números gigantescos: 5 mil ônibus novos, 20 mil câmeras inteligentes, 4.200 agentes da Força Municipal, ampliação do BRT, novos terminais, obras contra enchentes, urbanização de grandes comunidades e expansão de escolas em tempo integral.É dinheiro suficiente para produzir uma transformação visível no transporte, na segurança e na infraestrutura. Mas também cria uma cobrança do mesmo tamanho: a Prefeitura terá pouco mais de dois anos para transformar o megaplano em obras entregues, veículos nas ruas e serviços percebidos pela população.O prefeito Eduardo Cavaliere apresentou o programa ao Conselho da Cidade como o mapa de investimentos da gestão municipal até 2028.O valor, porém, não sairá integralmente do caixa da Prefeitura. O próprio governo informa que os R$ 22,1 bilhões reúnem investimentos públicos e privados. Na renovação dos ônibus, por exemplo, parte da conta dependerá das empresas e da estrutura do novo modelo de transporte.Portanto, o anúncio representa um conjunto de projetos, metas e recursos previstos. Não significa que todo o dinheiro já esteja contratado, empenhado ou disponível para uso imediato.
A maior parcela do pacote está reservada para a mobilidade urbana: R$ 6,3 bilhões.A promessa mais impactante é renovar completamente a frota municipal, com a entrada de 5 mil ônibus novos até 2028.Para o passageiro, esse é o ponto que mais rapidamente poderá separar propaganda de mudança real. Ônibus novos podem significar menos panes, maior conforto, ar-condicionado funcionando, veículos mais acessíveis e menor tempo perdido em pontos.Mas a renovação da frota, sozinha, não resolve todo o problema.A Prefeitura também promete ampliar o sistema BRT, construir terminais de integração, reorganizar o transporte público, implantar ciclovias e criar motofaixas. O plano ainda prevê maior integração metropolitana, um desafio que envolve deslocamentos de milhões de passageiros entre a capital, a Baixada Fluminense, Niterói, São Gonçalo e outros municípios.O governo afirma que 95% dos pagamentos nos ônibus municipais já são realizados por cartão ou aplicativo e aposta na consolidação do Jaé como sistema integralmente eletrônico.A meta é chegar a uma bilhetagem completamente digital. A mudança aumenta o controle municipal sobre as viagens e a arrecadação, mas também exige atendimento a passageiros que enfrentam dificuldades com aplicativos, recargas, cartões e acesso à tecnologia.
R$ 1,6 bilhão para segurança e uma tropa com 4.200 agentes
A segurança pública municipal receberá R$ 1,6 bilhão.Desse valor, R$ 1 bilhão será destinado à Divisão de Elite da Guarda Municipal, chamada de Força Municipal. A previsão apresentada é colocar 4.200 agentes nas ruas até 2028.Outros R$ 600 milhões serão aplicados na expansão da Central de Inteligência, Vigilância e Tecnologia em Apoio à Segurança Pública, a Civitas.A meta é alcançar 20 mil câmeras inteligentes em operação.O tamanho da estrutura mostra que a Prefeitura pretende ampliar fortemente sua participação em uma área tradicionalmente associada ao Governo do Estado.Segundo o secretário municipal de Segurança Urbana, Brenno Carnevale, agentes da Força Municipal já realizaram 655 prisões, recuperaram 115 celulares roubados e 101 motocicletas. O secretário afirmou que as prisões ocorreram sem disparos efetuados pelos agentes.A expansão exigirá mais do que dinheiro para efetivo, equipamentos e tecnologia. O crescimento de uma força armada ou com atuação direta em ocorrências precisa ser acompanhado por treinamento, protocolos claros, fiscalização, transparência e definição precisa de competências.
Inovação recebe R$ 5,1 bilhões
Outra cifra que salta aos olhos está na área classificada pela Prefeitura como inovação e futuro: R$ 5,1 bilhões.O pacote inclui o Governo Digital, o projeto Rio AI City e programas de qualificação profissional e geração de oportunidades.Essa é uma das áreas mais amplas e menos visíveis de imediato para o cidadão. Diferentemente de um ônibus novo ou de uma rua asfaltada, investimentos em tecnologia podem envolver data centers, sistemas digitais, infraestrutura energética, serviços públicos online e atração de empresas.Para a população, o resultado precisará aparecer na prática: menos filas, serviços digitais que funcionem, documentos emitidos com rapidez, acesso a cursos, empregos e melhoria real no atendimento público.Sem metas abertas e indicadores claros, investimentos tecnológicos bilionários correm o risco de parecer distantes da vida cotidiana.
Comunidades e bairros entram na promessa bilionária
Infraestrutura e urbanização receberão R$ 3,5 bilhões.Entre os projetos citados estão intervenções na Rocinha, Maré, Complexo do Alemão e Rio das Pedras, além da Praça Onze Maravilha e da Biblioteca dos Saberes.O prefeito também mencionou obras ligadas a programas de urbanização em Acari e em grandes complexos da cidade.São territórios onde os moradores convivem com problemas que não podem ser resolvidos por uma obra isolada: saneamento, drenagem, contenção, iluminação, acessibilidade, transporte, coleta de lixo e regularização urbana precisam avançar de forma integrada.O investimento será medido não apenas pelo tamanho da obra, mas por sua capacidade de reduzir diferenças históricas entre bairros.
Enchentes terão R$ 1,3 bilhão
A prevenção a enchentes receberá R$ 1,3 bilhão.As obras estruturantes anunciadas alcançam Jardim Maravilha, Acari e Realengo, além de projetos de contenção de encostas.Esses investimentos atingem diretamente moradores que perdem móveis, veículos, mercadorias e dias de trabalho sempre que uma chuva mais forte transforma ruas em rios.No caso das enchentes, o prazo até 2028 pesa ainda mais. Cada verão que chega antes da conclusão das obras mantém milhares de pessoas expostas aos mesmos riscos.Também será necessário esclarecer quanto do montante representa obra nova, quanto já estava previsto anteriormente e quais intervenções estarão concluídas antes dos próximos períodos chuvosos.
Asfalto, parques, escolas e habitação dividem bilhões
O plano destina R$ 1,4 bilhão à conservação urbana, com destaque para o programa Asfalto Liso 3.Outros R$ 694 milhões serão usados na educação, com a promessa de ampliar o ensino integral e fazer com que a rede alcance 500 Ginásios Educacionais Tecnológicos até 2028.A criação e ampliação de parques urbanos receberá R$ 534 milhões. Estão previstos investimentos nos parques Terra Prometida, Fazenda Baronesa, Realengo e Oeste.A habitação ficará com R$ 318 milhões. A saúde receberá R$ 216 milhões, enquanto projetos sociais ligados à primeira infância, segurança alimentar e qualidade de vida terão R$ 156 milhões.Para projetos urbanos, a Prefeitura apresentou dois recortes: R$ 268 milhões para ações de urbanismo e R$ 258 milhões ligados a obras específicas, como o Novo Mercado da Uruguaiana, o Novo Mercado da Comunidade do Aço, a Fábrica do Samba II e o Polo Gastronômico Rio da Prata.A divulgação não esclarece se os R$ 258 milhões estão contidos nos R$ 268 milhões ou se representam uma dotação adicional. Esse detalhamento será necessário para evitar dupla contagem na apresentação pública do pacote.
Um megaplano também produz uma megacobrança
O discurso da Prefeitura é de confiança na capacidade de execução.Cavaliere afirmou que o plano reúne compromissos assumidos com a população e destacou o histórico de investimentos do Município. Segundo ele, o Rio chegou a destinar, no ano passado, aproximadamente 10% de um orçamento total próximo de R$ 54 bilhões para investimentos.Mas o valor anunciado não pode ser confundido com dinheiro já gasto ou obra concluída.Entre a apresentação de um plano e a entrega existe um caminho formado por projetos executivos, licenciamento, licitações, contratos, desapropriações, execução física, participação privada e fiscalização.Também será necessário acompanhar quanto dos R$ 22,1 bilhões será efetivamente bancado com recursos municipais, quanto virá de empresas, concessões, financiamentos ou outras esferas de governo.A Prefeitura apresentou o tamanho da promessa. Agora precisará abrir o calendário, informar as fontes de cada recurso e permitir que a população acompanhe quanto foi executado.Cinco mil ônibus, 20 mil câmeras, grandes obras contra enchentes e bilhões em comunidades podem, de fato, mudar o Rio.Mas a revolução só começa quando o investimento sai da apresentação e chega à rua.