Ameaças, perseguição e xingamentos a funcionários. Servidores não descartam greve que pode paralisar Saúde da cidade. Informações vazadas por concursados chocam. Veja o conteúdo na íntegra
Um documento com fortes denúncias foi enviado ao EcoSerrano e encaminhado à Prefeitura de Nova Friburgo, ao Coren-RJ e a autoridades políticas como a vereadora Maiara Felício, o vereador Cláudio Damião e a deputada estadual Lilian Behring. O texto, assinado por profissionais concursados da área da saúde, traz uma série de questionamentos e acusações relacionadas à mudança de escala de trabalho, assédio moral, perseguições, falta de estrutura e más condições de trabalho nas unidades hospitalares da cidade.Segundo o documento, os profissionais de enfermagem atualmente cumprem escala de 24×120 horas, mas estariam sendo forçados a aceitar uma nova jornada de 12×60, o que, segundo eles, dobraria o custo com reembolso de passagens intermunicipais — passando de cerca de R$ 262 mil para mais de R$ 525 mil por mês, ou R$ 3,15 milhões por ano, um prejuízo direto ao erário público. “É isso que o senhor quer? Gastar dinheiro sem necessidade?”, questionam os servidores ao Prefeito Johnny Maycon.Além da questão financeira, os profissionais alertam para impactos diretos no atendimento à população. “A troca de escala vai desentrosar equipes, prejudicar quem trabalha em dois empregos e causar pedidos de exoneração em massa”, afirmam. Eles ainda denunciam perseguição exclusiva contra a enfermagem, já que a mudança de escala não atinge os médicos, que manteriam a escala 24×120.A denúncia também destaca condições precárias de trabalho no Hospital Municipal Raul Sertã (HMRS) e na Maternidade: falta de sabão para higienização das mãos, ausência de medicamentos básicos, inexistência de papel toalha, máscaras N95, fraldas para pacientes e até ameaças e humilhações de médicos contra enfermeiros.“Há médicos que chamam enfermeiros de incompetentes e ameaçam expor nomes ao diretor médico. Isso é assédio moral”, diz o texto. Eles também denunciam que todo o corpo de chefia é formado por contratados, o que gera perseguições políticas contra os concursados. “Estudamos, passamos em concurso público. Isso é democracia. Por que toda chefia é nomeada e nenhum é concursado?”, indagam.Outra denúncia grave envolve o descumprimento do TAC 01/2024, firmado com o Ministério Público. “Vamos acionar o MPRJ, oficiar às autoridades competentes e abrir essas informações à população”, alertam. Há ainda relatos de servidores adoecendo por conta do ambiente de trabalho hostil, como uma enfermeira que desenvolveu transtornos após ser transferida sob pressão de chefias contratadas.Ao final, os profissionais pedem uma resposta pública do prefeito de Nova Friburgo: “O senhor quer ser lembrado como o prefeito que prejudicou a enfermagem ou que dialogou com a categoria?”.Diante das graves denúncias, o portal EcoSerrano procurou a Prefeitura de Nova Friburgo. No entanto, o Executivo friburguense não quis se pronunciar e se calou em face das graves acusações. O espaço segue aberto.Carta na íntegra:“Prezado Ex.mo Prefeito, COREN/RJ e a quem interessar este e-mail/denúncia,Inicialmente, gostaríamos de falar com o Prefeito: sabemos que o HMRS é o assunto mais delicado de Nova Friburgo, e que isso não vem unicamente da sua gestão. Atendemos 12 municípios e é evidente tamanha responsabilidade, sendo injusto colocar tudo na conta da prefeitura atual — exceto por um assunto em comum a todos os concursados da área de enfermagem, conforme relatamos mais abaixo.*Novamente, há diversos funcionários contratados usando seu nome, dizendo que o senhor quer prejudicar os concursados com a troca de escala. Algo não está batendo. Num dia, o senhor faz vídeo e publica no seu Instagram oficial, ligando para o candidato aprovado e dizendo que ele irá tomar posse — com muita felicidade (achamos muito humano e legal de sua parte, inclusive). Noutro dia, alguns funcionários contratados dizem que a escala de enfermagem irá mudar e que a decisão partiu de V.Sas. Outros já dizem que a decisão vem do diretor médico do hospital e do coordenador médico do CTU. O que um médico tem que se “meter” (nos desculpe o palavreado) no serviço da enfermagem? Outros dizem que tal medida vem do gerente de enfermagem, da coordenação geral de enfermagem… Enfim, há uma coisa em comum entre todos esses cargos: TODOS SÃO CONTRATADOS.NÃO EXISTE HIERARQUIA ENTRE AS PROFISSÕES DENTRO DE UMA UNIDADE HOSPITALAR. EXISTE O PAPEL DE CADA UM DA EQUIPE MULTIPROFISSIONAL, E O RESPEITO SE FAZ NECESSÁRIO SEMPRE. O PACIENTE É O PRINCIPAL PONTO E O PRINCIPAL AFETADO POR ATITUDES INPENSADAS E DESCOMPENSADAS.EXISTE HIERARQUIA ENTRE CARGOS, MAS TAL FATO NÃO DÁ O DIREITO AO DESRESPEITO, ASSÉDIO MORAL, INTIMIDAÇÃO ETC.Preferimos acreditar que tal decisão veio deste diretor médico, que, aliás, só quer prejudicar a enfermagem. Mas isso é o senhor quem vai nos dizer…A escala da enfermagem atual é 24×120, e “você” quer mudar para 12×60. Colocamos “você” entre aspas, visto que há muitas especulações sobre de quem partiu essa decisão absurda. Porém, o senhor é o chefe do poder executivo do município e responde por seus representantes nas unidades públicas e pelos funcionários de cargos nomeados.O senhor consegue nos dar uma posição? Qual o embasamento e estudo técnico para tal decisão? Podemos elencar diversos pontos onde esta escala será a derrocada final do HMRS e da Maternidade.O primeiro e grande deles é o aumento expressivo do gasto com reembolso das passagens intermunicipais, visto que 90% dos concursados empossados não residem no município. Isso causará um prejuízo enorme ao erário do município. Perguntamos: por que não investir esse dinheiro no hospital ou até mesmo com cursos de capacitação aos profissionais, mantendo a escala atual, que vem funcionando perfeitamente?Vamos fazer uma conta rápida: somos aproximadamente 400 concursados empossados da área da enfermagem, maqueiros e afins. Suponhamos que 350 sejam reembolsados (alguns vão de carro e não pedem o reembolso). Tiramos uma média de R$ 750,00 de passagem/mês para esses 350 servidores com a escala atual de 24×120, perfazendo então um montante total de R$ 262.000,00 em passagens. Mudando a escala para 12×60, esse custo irá dobrar, chegando a R$ 525.000,00. O que ocorre no final de 12 meses com essa diferença? TRÊS MILHÕES, CENTO E CINQUENTA MIL REAIS A MAIS DE CUSTO, SEM NECESSIDADE. Dinheiro que poderia ser investido no hospital, em equipamentos, em melhorias. É isso que o senhor quer? Gastar dinheiro sem necessidade?O segundo ponto é o desentrosamento das equipes que já trabalham em conjunto atualmente. Isso poderá causar erros no atendimento à população, vista a falta de entrosamento. É isso que o senhor quer? Piorar o atendimento?O terceiro ponto é que todo profissional de saúde trabalha em dois lugares. Tal mudança de escala prejudicará TODOS os profissionais de enfermagem. Ao menos levou isso em consideração? Foi feita uma reunião, uma consulta aos profissionais? Nossas vidas não podem ficar à mercê de políticas execráveis. É isso que o senhor quer? Prejudicar os profissionais da categoria?Trocar a escala vai causar pedido de exoneração em massa (é isso que vocês querem?), só que não pararam para pensar que a população será atingida em cheio pela falta de profissionais, que já é escassa. Aliás, a mudança da escala será apenas para a enfermagem ou para os médicos também? A perseguição é somente conosco? É isso que o senhor quer? Que continuem as perseguições e posteriores processos e pedidos de exoneração?Aproveitando o assunto e agora nos dirigindo ao COREN/RJ, viemos formalmente, através deste e-mail, denunciar as péssimas condições de trabalho. Faltam equipamentos e insumos básicos: capotes, medicamentos como Tramal ampola (os que havia estavam vencidos), Metoprolol (medicação para hipertensos), falta de coletor aberto há tempos (usado em lavagens gástricas), falta SABÃO para higienização das mãos. Do plantão 1 ao 6 no CTU do HMRS, funcionários levam sabão de casa. Papel toalha? É artigo de luxo. O enfermeiro precisa realizar um procedimento chamado “Clister” e não há sequer fraldas para os pacientes — temos que ficar pedindo a todo momento para o acompanhante comprar. É muita humilhação para o paciente, acompanhantes e para o próprio profissional.Máscaras N95, para uso em pacientes com suspeitas de doenças respiratórias altamente contagiosas como tuberculose, meningite e COVID, não existem. Outra questão não menos importante de se relatar é que há médicos humilhando enfermeiros no HMRS, proferindo palavras como: “São todos incompetentes, do enfermeiro ao técnico. Vou passar o nome de todos vocês ao diretor médico”. Uma ameaça clara, concorda? Um assédio aqui, uma intimidação ali… Mas e o paciente? O médico não se preocupa? O diretor médico não se preocupa?O “star” da enfermagem (enfermeiros) é um local horrível, insalubre. Mofo em alguns cantos, higienização péssima, sem ar-condicionado (entendemos que Friburgo é uma cidade fria, porém, nas últimas ondas de calor que passaram no RJ, foi um sufoco — até para os pacientes em setores que não possuem ar-condicionado). Mas e no “star” dos médicos? Ah, neste tem, claro, né?Outro ponto: o complemento do piso, QUE NÃO VEM JUNTO AO NOSSO SALÁRIO. É pago à parte, sem data definida, e quando a prefeitura quer. Alô COREN/RJ, vamos fiscalizar mais Nova Friburgo, principalmente o HMRS, Maternidade e o Posto do Suspiro.Respeitem quem passou e estudou para este concurso. Os contratados que fizeram e não passaram, lamentamos. Estudem mais. O Sr. Prefeito, foi eleito com a maioria de votos, uma democracia. O concurso público é o sistema mais democrático que existe. Estudou? Passou! Não estudou? Lamentamos, tentem outra vez.Respeitem nossas profissões. Saúde não é brincadeira, muito menos política. É possível “fazer saúde” com políticas e não “política com saúde”. Saúde não é um comércio de vidas, não é um joguinho de quem manda mais ou de quem tem a maior caneta.Para finalizar, só depende de você, Ex.mo Prefeito, que decidirá se vai querer ser o prefeito que prejudicou os profissionais da enfermagem ou se será o prefeito que ajudou, dialogou com a classe. Um político pode ser lembrado pelas decisões boas e ruins. O Sr. quer ser lembrado como? Fica a nossa indagação…Sejamos honestos: é um DIREITO seu ou da direção médica e/ou chefia de enfermagem querer trocar a nossa escala, dentro da carga horária conforme o edital do concurso. Porém, é um DEVER nosso como profissionais da saúde denunciar os abusos, irregularidades e demais situações que coloquem em risco a nossa integridade e principalmente dos pacientes. Justo, não? Seguiremos com nossos DEVERES, mas cobraremos nossos DIREITOS.Vale lembrar que nosso regime é o estatutário, regido pela Lei Federal nº 8.112/90, a qual diz, dentre seus diversos artigos e capítulos:Art. 116. São deveres do servidor: (…) VI – levar as irregularidades de que tiver ciência em razão do cargo ao conhecimento da autoridade superior ou, quando houver suspeita de envolvimento desta, ao conhecimento de outra autoridade competente para apuração;“[…] Veja-se que, por se tratar de um dever, o servidor é obrigado a denunciar as irregularidades que tiver ciência, em razão do cargo. Podemos dizer, portanto, que há um certo mimetismo entre o delito de prevaricação e o não atendimento a este dever, afinal, o servidor que deixar de observar tal obrigação, desde que com o objetivo de satisfazer interesse ou sentimento pessoal (dolo específico), cometerá o citado crime, ao passo que deixará de praticar ato de ofício, descrito diretamente no tipo penal. […]”Se os funcionários contratados prevaricam, nós concursados não iremos prevaricar. Estudamos, nos empenhamos e conhecemos Leis, direitos, deveres. Queremos trabalhar e fazer a diferença para a população friburguense, independente de viés político. Aguardemos seu posicionamento. Faça um comunicado oficial, via Instagram — gostamos de lhe ouvir — ou faça um memorando às unidades informando que manterá a escala 24×120. É o que esperamos de V. Sas.At.te,Concursados do concurso de 2023 da área da saúde.”