Mulher entrou em choque por conta do frio, entrou em convulsão e morreu. Detalhes obtidos com exclusividade pelo EcoSerrano revelam que Prefeitura vai responder por omissão
Uma tragédia que poderia ter sido evitada marcou Nova Friburgo no último dia 4 de setembro. Maria Clara Mattos Mafort, uma jovem de 26 anos, faleceu após sofrer um ataque epiléptico seguido de convulsão, e as circunstâncias de sua morte têm sido associadas à negligência da Prefeitura de Nova Friburgo, em que pese, a Secretaria de Assistência Social. Segundo testemunhas e defensores dos direitos humanos, a morte de Maria Clara poderia ter sido prevenida, mas acabou sendo tratada como um descaso e “desrespeito aos Direitos Humanos”.
Tudo começou na terça-feira, 27 de agosto, um dos dias mais frios do ano em Nova Friburgo, quando as temperaturas caíram abaixo de 0ºC. Naquela noite gelada, Maria Clara e mais três pessoas, buscaram abrigo no ponto de apoio da Prefeitura de Nova Friburgo, localizado na Via Expressa, em Olaria. Contudo, sua entrada foi negada pela responsável, com a justificativa de que o local estava com sua capacidade máxima.A Defensoria Pública foi acionada e entrou em contato com a responsável pelo local, com a SubSecretária Simone de Almeida e com a Secretária Nicole Cipriano. Mesmo após a Secretária determinar o acolhimento da jovem, autorizando inclusive o pagamento de hora extra para a equipe da pasta, o acolhimento não foi realizado. Sem outra alternativa, Maria Clara se abrigou no coreto da Praça Getúlio Vargas. Durante a madrugada de quarta-feira, 28 de agosto, ela sofreu um ataque epiléptico e entrou em convulsão devido ao frio intenso. O Corpo de Bombeiros foi acionado e a levou ao Hospital Municipal Raul Sertã, onde recebeu atendimento emergencial.Mesmo em estado grave, Maria Clara não foi imediatamente internada no CTI e permaneceu intubada na enfermaria, conforme aponta o laudo médico obtido com exclusividade pelo EcoSerrano. Apenas no dia 29 de agosto, após ação da Defensoria Pública, ela conseguiu uma vaga no CTI. Infelizmente, devido à gravidade de seu estado de saúde, Maria Clara não resistiu e veio a falecer no dia 4 de setembro.
Acusações de negligência
A Secretaria de Assistência Social, sob a gestão de Nicole Cipriano, enfrenta agora acusações de negligência. De acordo com informações apuradas pelo EcoSerrano, a secretaria poderia ser responsabilizada por omissão, conforme denúncia feita pela Defensoria Pública. O Ecoserrano teve acesso com exclusividade aos documentos. Segundo informou a Defensoria, “há indícios de que a omissão da Diretora do Centro Pop e da Subsecretária de Assistência Social ao não realizar o acolhimento das pessoas em situação de rua que voluntariamente buscaram o Centro Pop no dia 27/08/2024 ocorreu por negligência ou imperícia”. A legislação prevê que a secretaria deveria providenciar um local para a jovem se abrigar, mas, aparentemente, isso não foi feito. Na última sexta-feira, o EcoSerrano entrou em contato com Nicole Cipriano para obter um posicionamento, mas até o fechamento desta reportagem, não obteve retorno. O espaço segue aberto.
Tragédia anunciada
Esta não é a primeira vez que situações de negligência são apontadas em Nova Friburgo. Em 2022 e 2023, o EcoSerrano já havia publicado reportagens alertando sobre o fechamento de abrigos temporários e o risco que isso representava para a população em situação de rua. Durante o inverno de 2022, com temperaturas frequentemente abaixo de zero e até geadas em algumas regiões, os abrigos de Mury e Duas Pedras foram fechados, supostamente com o conhecimento do prefeito Johnny Maycon. Na época, movimentos sociais denunciaram o que consideravam um descaso com a população vulnerável.Após a intervenção da Defensoria Pública, a Prefeitura foi obrigada a reabrir um espaço para acolhimento, que acabou sendo o antigo almoxarifado da secretaria em Duas Pedras. No entanto, o local era inadequado, com problemas de infestação de roedores e insetos, além de ser insalubre e sem controle sanitário adequado.Movimentos sociais voltados para a população em situação de rua há muito tempo questionam o tratamento dado a essas pessoas e cobram ações mais efetivas do poder público para garantir o acolhimento. Apesar das denúncias de negligência, até então não haviam sido registradas mortes relacionadas a essa situação. A tragédia de Maria Clara, contudo, pode ter mudado esse cenário.