Presidente Lula e prefeito Eduardo Cavaliere durante anúncio de obras do PAC no Rio, com moradores e autoridades presentes em Guaratiba.

Obra esperada pela população promete por fim aos alagamentos, no Rio

Moradores terão rotina alterada com interdições de ruas. Veja os detalhes

Para quem mora em área que alaga, obra pública não é assunto distante. É a diferença entre dormir quando começa a chover ou passar a madrugada levantando móveis, salvando documentos, protegendo criança, idoso, remédio, geladeira e o pouco que ainda não foi perdido em outras enchentes. Foi esse tipo de espera que voltou ao centro da agenda pública do Rio nesta semana. A Prefeitura do Rio e o Governo Federal anunciaram um conjunto de obras e financiamentos voltados para drenagem, saneamento, mobilidade, urbanização e recuperação de espaços públicos em áreas populares da cidade. O pacote inclui o início das obras do PAC Jardim Maravilha, em Guaratiba, o começo da primeira etapa do PAC Maré e a assinatura do contrato de financiamento do PAC Rocinha. Somados, os três projetos chegam a mais de R$ 860 milhões em investimentos. A agenda também incluiu anúncio de ações para o Complexo do Alemão e a cessão de imóvel para implantação de um Instituto Federal na Cidade de Deus. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o prefeito Eduardo Cavaliere participaram da agenda na segunda-feira, dia 22. Durante o evento, a moradora Ivone Abrantes, que vive há mais de 20 anos no Jardim Maravilha, relatou as dificuldades enfrentadas por famílias que convivem com enchentes na região.

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Quando a chuva vira medo dentro de casa

O Jardim Maravilha, em Guaratiba, é tratado pela Prefeitura como um dos maiores desafios de alagamento do Rio. A promessa agora é enfrentar o problema com uma obra de grande porte: R$ 340 milhões em recursos federais, por meio do Novo PAC, destinados a drenagem, contenção de cheias, urbanização e melhoria da circulação no bairro. A estimativa é de que cerca de 30 mil moradores sejam beneficiados diretamente. A principal intervenção será a construção de um dique de 3,4 quilômetros ao longo do Rio Cabuçu-Piraquê. A estrutura terá até 2,5 metros de altura e também deverá receber uma ciclovia. A função será conter cheias e reduzir o avanço da água sobre áreas habitadas. O projeto também prevê três grandes reservatórios abertos, com capacidade total para armazenar cerca de 231 milhões de litros de água. Para se ter uma ideia da dimensão, a Prefeitura compara o volume a 13 reservatórios da Praça da Bandeira, região da cidade que também passou por obras importantes de drenagem após anos de alagamentos. Além disso, um canal na Avenida Barão de Cocais deverá conduzir a água da drenagem local até os reservatórios. Na vida prática, a obra mira problemas que moradores conhecem bem: ruas intransitáveis, casas invadidas pela água, perda de móveis, prejuízos para comerciantes, dificuldade de sair para trabalhar, interrupção de aulas, risco para pessoas com mobilidade reduzida e medo de novas tempestades.

A obra não é só para a água escoar

O PAC Jardim Maravilha não se limita à drenagem. O projeto inclui urbanização de 16 ruas, implantação de redes de drenagem, esgotamento sanitário e abastecimento de água, além de pavimentação e construção de calçadas. Também estão previstos jardins de chuva, praças e áreas de convivência. Esses espaços ajudam na absorção da água, melhoram a paisagem urbana e podem devolver áreas de uso público a moradores que hoje convivem com lama, buracos e insegurança em dias de chuva. As obras serão executadas pela Fundação Rio-Águas, vinculada à Secretaria Municipal de Infraestrutura. O prazo estimado é de três anos. Esse ponto merece atenção porque obras desse porte costumam mexer com a rotina do bairro antes de entregar resultado. Moradores podem enfrentar interdições, poeira, mudanças no trânsito local e alteração no acesso a algumas ruas. A diferença é que, se o projeto for executado como previsto, a promessa é atacar um problema antigo de forma estrutural, e não apenas com reparos pontuais depois das enchentes.

Maré começa por parque, ecoponto e presença do poder público

No Complexo da Maré, a primeira etapa do PAC Periferia Viva prevê a implantação do Parque Linear da Maré, na Vila dos Pinheiros, e da sede do Posto Territorial, na Baixa do Sapateiro. O parque será construído em uma área hoje degradada às margens da Baía de Guanabara. A previsão é de um espaço com mais de 8 mil metros quadrados, incluindo quadra poliesportiva, quadra de areia, anfiteatro, parque infantil, hortas comunitárias, ecopontos, circuito para bicicletas e áreas de convivência. A criação de um parque em área degradada tem efeito que vai além do lazer. Pode melhorar a circulação, reduzir descarte irregular, ampliar áreas verdes e criar pontos de encontro em uma região onde o espaço público costuma ser disputado por muitas necessidades ao mesmo tempo. O Posto Territorial, por sua vez, será uma base local do programa. A ideia é aproximar moradores, lideranças comunitárias, instituições e poder público durante a definição das próximas etapas. O plano geral para a Maré prevê obras de drenagem, saneamento, pavimentação, qualificação de calçadas, implantação de ciclovias, criação e recuperação de áreas de convivência e ampliação de áreas verdes. Entre as localidades citadas estão Baixa do Sapateiro, Nova Maré, Timbau, Conjunto Bento Ribeiro Dantas, Vila dos Pinheiros, Novo Pinheiro, Conjunto Esperança e Vila do João. O investimento total previsto é de aproximadamente R$ 172 milhões.

Rocinha terá contrato para obras em área de grande circulação

A agenda também marcou a assinatura do contrato de financiamento do PAC Rocinha, com investimento de R$ 350 milhões. O projeto reúne intervenções de infraestrutura urbana, mobilidade, saneamento e recuperação ambiental. O plano prevê ações em cerca de 280 mil metros quadrados da comunidade. Entre as medidas anunciadas estão obras de infraestrutura, urbanização, habitação, abertura de novas vias, melhoria da circulação interna e requalificação de aproximadamente 9 mil metros quadrados do Parque Ecológico da Rocinha. Na Rocinha, mobilidade não é detalhe. A circulação de moradores, entregadores, trabalhadores, vans, motos, pedestres e serviços públicos depende de vias estreitas, acessos difíceis e áreas muito adensadas. Qualquer intervenção precisa considerar a rotina de quem sobe e desce a comunidade todos os dias. Por isso, a execução será tão importante quanto o anúncio. Obras em territórios densos exigem diálogo, planejamento e redução de danos para não piorar, durante meses, a vida de quem já enfrenta deslocamentos difíceis.

Alemão também entra na lista de investimentos

Além de Jardim Maravilha, Maré e Rocinha, a agenda também incluiu o lançamento do PAC Periferia Viva no Complexo do Alemão. O investimento anunciado é de R$ 210 milhões, com previsão de beneficiar mais de 63 mil moradores. O ponto inicial será a implantação de um Posto Territorial, que servirá de base para a elaboração do plano de ação em diálogo com moradores, lideranças comunitárias e instituições locais. As intervenções devem abranger cerca de 3 milhões de metros quadrados, incluindo localidades como Morro do Itararé, Capão, em Nova Brasília, Travessa Laurinda, no Morro do Alemão, e vias de acesso. O pacote prevê pavimentação, escadarias, ampliação das redes de esgoto e drenagem, contenção de encostas, reforço no abastecimento de água, nova iluminação pública, áreas de lazer, parques infantis, pista de skate, requalificação da Avenida Itaoca e da Estrada do Itararé, ciclovia, recuperação de área verde no Parque Everest e construção de 192 unidades habitacionais pelo Minha Casa, Minha Vida.

Cidade de Deus deve receber Instituto Federal

A agenda também incluiu a assinatura da cessão de um imóvel na Cidade de Deus para implantação de um Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. A proposta é oferecer cursos técnicos gratuitos, do nível médio à pós-graduação. Em uma região marcada por desigualdades históricas, a chegada de uma unidade de ensino técnico pode ter impacto direto na formação profissional de jovens e adultos, especialmente para quem não consegue se deslocar diariamente para instituições distantes. Esse tipo de equipamento não resolve sozinho os problemas de renda e acesso ao mercado de trabalho, mas pode abrir portas importantes quando chega junto com transporte, segurança, permanência estudantil e oferta de cursos conectados às oportunidades reais da cidade.

O tamanho da promessa e o peso da execução

Os anúncios reúnem valores altos, obras complexas e territórios com problemas antigos. Por isso, a principal pergunta daqui para frente não é apenas quanto será investido, mas como, quando e com qual controle público cada etapa será entregue. No Jardim Maravilha, o teste será tirar do papel uma solução estrutural contra enchentes em uma região que espera há décadas. Na Maré, o desafio será transformar uma área degradada em espaço público vivo, enquanto as próximas etapas são definidas com participação local. Na Rocinha, o ponto sensível será executar obras em uma comunidade de grande circulação sem desorganizar ainda mais a rotina dos moradores. No Alemão, a promessa envolve urbanização, contenção, habitação, lazer e recuperação ambiental em uma área extensa. Para quem mora nesses territórios, a obra só vira notícia boa quando muda o caminho de casa, reduz o alagamento, melhora o esgoto, encurta deslocamentos, amplia o lazer e diminui o risco. O pacote anunciado coloca dinheiro público em áreas onde a ausência de infraestrutura aparece de forma concreta: na água que entra pela porta, no esgoto a céu aberto, na rua sem calçada, na praça abandonada, na encosta sem contenção e na dificuldade de chegar ao trabalho ou à escola. A partir de agora, o que precisa ser acompanhado é a execução. Porque, para o morador que espera há anos, placa de obra e discurso não seguram enchente. Dique, drenagem, saneamento, manutenção e fiscalização, sim.

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