Agência oceânica e atmosférica aponta chance de evento muito forte; efeitos podem alternar calor, seca, temporais e chuva persistente, no Rio
O El Niño já deixou de ser uma possibilidade distante. O fenômeno está formado no Pacífico Equatorial e deve ganhar força nos próximos meses, com chance de atingir intensidade muito elevada entre o fim de 2026 e o início de 2027. A confirmação vem da NOAA, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, que mantém o sistema de acompanhamento em El Niño Advisory.O boletim do Climate Prediction Center, ligado à NOAA, indica que o aquecimento das águas do Pacífico central e leste já vem acompanhado de mudanças atmosféricas compatíveis com o fenômeno. A região Niño 3.4, principal área usada para monitorar o El Niño, registrava anomalia semanal de 1,2°C acima da média. Outras faixas do Pacífico também estavam aquecidas, com 1,5°C na região Niño 3 e 2,7°C na Niño 1+2, mais próxima da costa da América do Sul.A projeção mais forte está no trimestre entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Segundo a NOAA, há 63% de chance de o El Niño alcançar intensidade muito forte nesse período, quando o aquecimento da região Niño 3.4 chega ou passa de 2°C acima da média.
A expressão “super El Niño” ganhou força fora do meio técnico para descrever eventos de grande intensidade, como os registrados em 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016. Mas essa não é a classificação operacional usada pela NOAA. O termo técnico adotado no boletim é “very strong El Niño”, ou El Niño muito forte.A diferença não é apenas de nome. Um El Niño muito forte aumenta a chance de impactos relevantes no clima, mas não significa que todos os lugares terão efeitos extremos da mesma forma. A resposta depende da região, da época do ano, da temperatura do Atlântico, da chegada de frentes frias e da organização da umidade na atmosfera.No caso do Estado do Rio, o risco não está em um único tipo de evento. O que preocupa é a possibilidade de uma sequência irregular: primeiro calor forte, baixa umidade, estiagem e risco de queimadas; depois, temporais localizados e episódios de chuva mais prolongada no fim do ano e no início de 2027.
Rio pode passar por meses de calor e tempo seco
As projeções indicam que os efeitos mais perceptíveis no estado podem aparecer a partir de agosto, com um período mais quente e seco se estendendo até o início de dezembro. Mesmo cidades da Região Serrana, acostumadas a temperaturas mais amenas, podem enfrentar dias de calor acima do normal.Com o solo mais seco e a vegetação perdendo umidade, cresce o risco de incêndios em áreas de mata, margens de rodovias, terrenos baldios e regiões rurais. Esse tipo de situação também costuma afetar a qualidade do ar e aumentar a sensação de desconforto, principalmente em dias de baixa umidade.Mas tempo seco não significa ausência total de chuva. O calor acumulado pode alimentar temporais rápidos, fortes e muito localizados. São pancadas que se formam em pouco tempo e podem vir acompanhadas de vento, raios, granizo e chuva intensa em poucos minutos.Em áreas montanhosas, como Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis, esses temporais merecem acompanhamento especial. A água desce com velocidade pelas encostas, eleva rios e córregos e pode provocar enxurradas, alagamentos e deslizamentos.
A virada mais delicada pode vir no fim do ano
A partir da segunda quinzena de dezembro, a preocupação muda de eixo. O calor e a umidade podem favorecer a formação de corredores de chuva sobre o Sudeste. Um dos sistemas mais conhecidos é a Zona de Convergência do Atlântico Sul, a ZCAS.A ZCAS funciona como uma faixa extensa de nuvens carregadas, conectando a umidade da Amazônia ao Atlântico. Quando esse corredor fica parado sobre a mesma região por vários dias, a chuva deixa de ser apenas uma pancada de verão e passa a ser persistente.Esse tipo de configuração é especialmente sensível para o Estado do Rio. Na Região Serrana, o relevo, a ocupação de encostas, os rios cortando áreas urbanas e os problemas antigos de drenagem tornam o risco maior quando a chuva se acumula por vários dias.Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis carregam a memória da tragédia de janeiro de 2011, quando mais de 900 pessoas morreram na Região Serrana. A presença do El Niño não permite prever uma tragédia semelhante com meses de antecedência, mas reforça a necessidade de preparação antes dos alertas de chuva aparecerem nos celulares.
Fenômeno não significa chuva todos os dias
No Sudeste, o El Niño costuma ter efeitos mais irregulares do que no Sul do Brasil. Isso significa que o Rio pode passar semanas com calor e pouca chuva e, em seguida, enfrentar episódios concentrados de temporal ou períodos de chuva persistente.Essa irregularidade é um dos pontos mais difíceis para a população e para o poder público. A chuva pode faltar quando reservatórios, lavouras e áreas verdes precisam de umidade, e depois cair em grande volume sobre cidades que já convivem com rios assoreados, encostas ocupadas e sistemas de drenagem insuficientes.Os reflexos também podem chegar ao abastecimento de água, à agricultura, à geração de energia, ao preço dos alimentos e à rotina de quem vive em áreas de risco.Por enquanto, a mensagem central dos boletins climáticos é direta: o El Niño está presente, deve continuar avançando e tem chance relevante de se tornar muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. Para o Estado do Rio, a preparação precisa começar ainda na fase do calor e da seca, porque a parte mais perigosa pode vir depois, quando a umidade voltar com força.