O medo de sair de casa e não conseguir voltar de ônibus começou a aparecer nas conversas de muita gente no Rio de Janeiro desde que a Prefeitura confirmou o fim do pagamento em dinheiro nos coletivos municipais.Para quem anda com cartão, celular carregado e aplicativo funcionando, a mudança pode até parecer simples. Mas existe uma parte enorme da população que vive outra realidade: trabalhador informal, ambulante, diarista, idoso, passageiro sem conta bancária, sem internet móvel ou até sem bateria no celular no fim do dia.Agora, essa preocupação virou disputa judicial.O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro entrou com uma ação civil pública para tentar suspender a decisão da Prefeitura que proíbe, a partir de 1º de junho, o pagamento em dinheiro nos ônibus municipais da capital.Na ação ajuizada pela 3ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Consumidor, o MPRJ afirma que a medida pode criar barreiras tecnológicas para acesso ao transporte público, especialmente para pessoas em situação de vulnerabilidade social.A preocupação central do Ministério Público é prática — e cotidiana.O que acontece quando o passageiro não tem cartão Jaé? E quando o celular descarrega? E se estiver sem internet? Ou quando o trabalhador recebe em dinheiro vivo e precisa pegar ônibus imediatamente?A ação destaca que milhares de pessoas ainda dependem exclusivamente do pagamento em espécie para circular pela cidade.O documento enviado à Justiça também questiona a estrutura atual do sistema Jaé.Segundo o MPRJ, os pontos de atendimento ainda são considerados insuficientes para atender toda a demanda da cidade. Os postos funcionam em horários limitados e estão concentrados em poucos locais, como estações de BRT, VLT, metrô e na sede da Prefeitura.Na prática, isso significa que moradores de regiões mais afastadas podem enfrentar dificuldades até para conseguir emitir ou carregar o cartão.O Ministério Público também argumenta que a decisão da Prefeitura não foi criada por meio de lei aprovada, mas sim por ato administrativo, o que, segundo a ação, poderia ferir o princípio da legalidade ao restringir o acesso a um serviço essencial.Enquanto a Prefeitura defende que o sistema digital traz mais segurança, controle operacional e redução de crimes dentro dos ônibus, o debate passou a atingir outro ponto sensível: quem pode acabar ficando para trás nesse processo de modernização.Nos últimos dias, muitos passageiros começaram a relatar insegurança sobre situações comuns da rotina.Há dúvidas sobre falha no PIX, instabilidade nos aplicativos bancários, dificuldade de idosos com tecnologia, ausência de atendimento em determinados bairros e até problemas para turistas e passageiros ocasionais que não possuem cartão Jaé.A ação do Ministério Público pede que a Justiça suspenda imediatamente a medida. Caso isso não aconteça, o órgão solicita ao menos que a Prefeitura seja obrigada a ampliar os pontos de venda do cartão e os horários de atendimento antes de implementar totalmente o sistema digital.Enquanto isso, a contagem regressiva para o fim do dinheiro nos ônibus continua — e junto dela cresce a sensação de incerteza entre passageiros que dependem do transporte público todos os dias.O fim do pagamento em dinheiro nos ônibus do Rio virou alvo de ação do Ministério Público. A disputa deixa de ser apenas tecnológica e passou a atingir diretamente passageiros sem internet, cartão bancário ou acesso fácil ao sistema Jaé.