No interior do Rio de Janeiro, em Rio Claro, um distrito carrega um dos nomes mais simbólicos da história mundial: Lídice. A mudança ocorreu em 1942, quando o Brasil se uniu a outros países aliados para homenagear a cidade tcheca destruída pelo regime nazista após o atentado contra Reinhard Heydrich.O antigo nome, Santo Antônio do Capivary — também chamado Vila do Parado — foi substituído em plena Segunda Guerra Mundial. A troca, no entanto, nunca foi consenso entre os moradores, que se viam mais ligados à tradição religiosa e ao rio Capivari do que a um conflito distante na Europa.
A tragédia que inspirou a homenagem
Em 27 de maio de 1942, guerrilheiros checos e eslovacos atacaram Reinhard Heydrich, um dos principais articuladores da “Solução Final”. Dias depois, ele morreu em decorrência dos ferimentos.A resposta nazista foi brutal: todos os homens da cidade de Lidice, na Tchecoslováquia, foram executados; as mulheres enviadas a campos de concentração; e as crianças, levadas para reformatórios. Para apagar a memória do local, Hitler mandou aterrar a cidade.Sensibilizados, diversos países passaram a batizar cidades e distritos com o nome “Lidice” (aportuguesado como Lídice), como forma de eternizar a memória da tragédia.
Resistência e identidade local
Apesar da causa nobre, a mudança causou estranhamento. Documentos históricos indicam que parte dos moradores rejeitou a troca de nome, considerando-a uma imposição política. Até hoje, há quem prefira chamar a região de Capivari, em referência ao santo padroeiro e à ligação histórica com o rio.Esse choque de identidades mostra como a memória local e a memória global podem se sobrepor, criando uma disputa simbólica que atravessa gerações.
Natureza e simplicidade atraem visitantes
Além de sua história singular, Lídice é conhecida por cachoeiras, poços naturais e trilhas na Serra da Bocaina. São mais de dez quedas d’água, como a do Segredo, Sebastião Marinho e Três Quedas, que formam piscinas cristalinas, ideais para famílias.O distrito também realiza, todo dia 10 de junho, a Festa da Paz, em homenagem às vítimas da cidade original de Lidice.
A era do Trem da Mata Atlântica
Outro símbolo marcante foi o Trem da Mata Atlântica, que ligava Angra dos Reis a Lídice. O trajeto cortava túneis, viadutos e cachoeiras, movimentando pousadas e restaurantes locais. O serviço foi desativado nos anos 2000 e, com ele, a economia do distrito perdeu um importante atrativo turístico.
Como chegar e quando visitar
De carro, a viagem dura cerca de três horas a partir do Rio de Janeiro. Não há ônibus diretos, sendo necessário ir até Rio Claro e, de lá, seguir por transporte local.Para quem busca cachoeiras com bom volume de água, os meses entre novembro e janeiro são os mais indicados. No outono e inverno, apesar do frio, o clima é mais estável para trilhas e passeios.