Estação de Tratamento de Esgoto de Queimados, na Baixada Fluminense, inaugurada para ampliar o saneamento da região.

Adeus falta d’água no Rio? Obras ampliam abastecimento e saneamento

Expectativa é de redução de diversos problemas relacionados ao desabastecimento e também a melhora da qualidade de vida. Milhares de moradores serão beneficiados

Durante décadas, parte da Baixada Fluminense conviveu com uma realidade que muita gente só percebe quando o problema chega dentro de casa: esgoto correndo sem tratamento, rios mais poluídos, risco maior de doença e comunidades inteiras esperando por uma estrutura básica. Nesta segunda-feira, 22, essa história começou a mudar em Queimados. A Águas do Rio inaugurou a Estação de Tratamento de Esgoto de Queimados, uma estrutura com capacidade para tratar até 51 milhões de litros de esgoto por dia. A unidade vai atender moradores de Queimados, Japeri e partes de Nova Iguaçu, beneficiando cerca de 270 mil pessoas. A obra também tem impacto além da Baixada. O esgoto que hoje chega sem tratamento à Bacia do Guandu passará a ser tratado antes de voltar ao meio ambiente. O Guandu é o manancial responsável pelo abastecimento de aproximadamente 9 milhões de pessoas na Região Metropolitana do Rio.

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O que muda na vida de quem mora na região

A entrega da estação não significa que todas as casas estarão conectadas de uma hora para outra. O saneamento depende de uma rede inteira funcionando: tubulações, coletores, elevatórias, ligações domiciliares e operação contínua. Mas a estação é o coração desse sistema. Sem ela, o esgoto coletado não teria para onde ir. Com ela, Queimados e Japeri passam a ter uma estrutura que permite avançar na coleta e no tratamento dos efluentes. A expectativa é que, gradualmente, mais moradores sejam conectados à nova infraestrutura. O projeto prevê 700 quilômetros de redes coletoras, 13,2 quilômetros de coletores-tronco e mais de 60 estações elevatórias. Na prática, isso pode representar menos esgoto a céu aberto, menos contaminação de cursos d’água, menos mau cheiro em áreas urbanas e menor risco de doenças ligadas à falta de saneamento.

Uma obra de R$ 640 milhões

A estação foi instalada em uma área de 38,4 mil metros quadrados, próxima ao Rio Guandu. Segundo a concessionária, ela faz parte de um pacote de R$ 640 milhões em investimentos para ampliar a infraestrutura de saneamento da região. O projeto de universalização do esgoto na área também conta com R$ 172,8 milhões financiados pelo programa Saneamento para Todos, do Ministério das Cidades. Na cerimônia de entrega, o ministro das Cidades, Vladimir Lima, defendeu a união entre poder público e iniciativa privada para viabilizar grandes obras de infraestrutura. “É importante a parceria com estados, prefeituras e concessionária. Só é possível fazer isso aqui acontecer a quatro mãos”, afirmou o ministro.

Menos doença, menos gasto público

A falta de saneamento não aparece apenas nos rios. Ela também chega aos postos de saúde, às emergências e ao orçamento das famílias. Segundo dados citados pelo Instituto Trata Brasil, o país registrou, em 2024, 336 mil internações por doenças de veiculação hídrica e cerca de 11,5 mil mortes associadas a esse tipo de enfermidade. O impacto estimado para o sistema público de saúde foi de R$ 174 milhões. O presidente da Águas do Rio, Anselmo Leal, afirmou que a nova estação deve ter reflexo direto na saúde da população. “Em breve, as prefeituras de Queimados e Japeri vão conseguir medir nas unidades do SUS a redução de doenças típicas da falta de saneamento básico, como diarreias, hepatite e leptospirose”, disse.

Guandu mais limpo também significa renda

A melhora no tratamento de esgoto também mexe com a vida de quem depende do rio para trabalhar. Priscila Amorim, moradora ribeirinha, viu a pesca perder força com o avanço da poluição. Segundo ela, espécies antes comuns ficaram mais escassas, afetando diretamente a renda das famílias. “Nós tivemos muita perda na renda familiar com a falta de peixes fortes, como a tilápia, o robalo e o tucunaré. Com a água livre de esgoto, a reprodução aumenta e o pescado volta com mais qualidade para garantir o nosso arroz e feijão”, afirmou. A fala resume o peso da obra para além dos números. Saneamento não é apenas cano enterrado. É saúde, renda, rio vivo e dignidade para quem mora em regiões historicamente deixadas para depois.

Ainda há caminho pela frente

A inauguração da ETE Queimados é uma etapa importante, mas não encerra o desafio. O impacto real será sentido conforme as redes forem implantadas, as casas forem conectadas e o sistema operar em escala. O tamanho da mudança dependerá da velocidade das ligações, da manutenção da estrutura e da fiscalização sobre o lançamento irregular de esgoto. Ainda assim, para uma região que não contava com estrutura de tratamento, a entrega marca uma virada: o esgoto da Baixada começa, enfim, a ter destino tratado antes de chegar ao Guandu.

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