Foto de picolés antigos da Nestlé: Prestígio, Lollo, Chokito e Galak.

A divertida guerra dos sorvetes cariocas: como uma briga de marcas virou história no Rio de Janeiro

Uma história gelada e saborosa que começou no Rio de Janeiro

Nos anos 1970, o calor do Rio de Janeiro não derretia apenas sorvetes, mas também egos empresariais. Uma disputa judicial entre duas marcas cariocas — uma gigante e uma iniciante — acabou se tornando um dos casos mais curiosos da história da publicidade brasileira. O mercado de sorvetes do Rio viveu uma “guerra gelada” nos anos 1970, quando a Kibon processou a pequena Hébom por semelhança de nomes. A resposta criativa da concorrente, que passou a se chamar “Sem Nome”, virou símbolo de irreverência e marcou a memória publicitária brasileira.  

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O surgimento da Hébom e o início da briga

Em meio ao calor carioca da década de 1970, o empresário Luiz Fernando Martins decidiu investir em um produto que era sucesso nas praias e esquinas: o sorvete. Fundou, em Pilares, a fábrica da Hébom, nome simples, fácil de lembrar e com sabor local. O sucesso veio rápido. Os produtos invadiram lanchonetes e mercados, conquistando o público com sabores marcantes e preços acessíveis. Mas o crescimento acelerado incomodou uma vizinha poderosa: a Kibon, que também nasceu carioca — fato desconhecido por muita gente que a imagina estrangeira.

Kibon: uma marca que nasceu no Rio

A história da Kibon também começou na antiga Guanabara, em 1941, fundada por um grupo de imigrantes norte-americanos sob o nome U.S. Harkson do Brasil. Em 1942, chegaram às ruas do Rio os primeiros 50 carrinhos amarelos refrigerados, vendendo os hoje lendários Eskibon e Chicabon. Nos anos seguintes, a marca cresceu de forma impressionante: em 1960, já havia 3 mil carrinhos espalhados pelo país e uma fatia de 60% do mercado nacional de sorvetes, até ser comprada pela General Foods Corporation. Os carrinhos mudaram de cor com o tempo, mas continuam parte da memória afetiva carioca.

Uma guerra gelada nos tribunais

Quando a Hébom começou a ganhar mercado, a Kibon entrou em cena com um processo judicial por semelhança de nomes. A decisão obrigou Luiz Fernando a mudar o nome de sua marca. Parecia o fim de uma história — mas era só o começo de uma das campanhas mais criativas já vistas na publicidade brasileira. Com uma boa dose de humor e ousadia, o empresário lançou a marca “Sem Nome”, ironizando a decisão judicial. Nas embalagens, vinha o aviso provocador: “Proibido usar o nome anterior. Pergunte ao revendedor.” O público adorou. O episódio transformou um revés jurídico em uma aula de marketing criativo e comunicação inteligente, fazendo da Sem Nome um verdadeiro fenômeno.

A expansão e o fim da “Sem Nome”

O sucesso da nova marca foi imediato. Em 1979, os sorvetes Sem Nome estavam em todo o estado do Rio, exibidos até em trilhas sonoras de novelas da TV Globo — o que, à época, era o auge da visibilidade nacional. A empresa chegou a ter 2 mil funcionários e produzir 5 mil litros de sorvete por dia. Mas nos anos 1990, a concorrência crescente e problemas na rede de distribuição acabaram esfriando o negócio. A fábrica encerrou as atividades, deixando para trás uma história de criatividade, resistência e bom humor à carioca.

O Brasil e a tradição dos sorvetes

O Brasil saboreia sorvete há quase dois séculos. Segundo registros históricos, o primeiro carregamento de gelo chegou ao porto do Rio em 1834, vindo do navio Madagascar — foram 200 toneladas de gelo cobertas por serragem, que deram origem aos primeiros sorvetes de frutas vendidos nas ruas da cidade. Desde então, o país se tornou um dos maiores consumidores do produto no mundo. Hoje, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Sorvete (ABIS), existem mais de 11 mil empresas ligadas ao setor, com faturamento acima de R$ 14 bilhões por ano, sendo 92% delas pequenas e médias fábricas regionais.

De Yopa a Diletto: outras histórias saborosas

A indústria de sorvetes brasileira é também uma fábrica de histórias curiosas. Nos anos 1980, a Nestlé comprou a marca alemã Jopa e a rebatizou como Yopa, que mais tarde foi descontinuada. A Kibon, por sua vez, absorveu concorrentes e consolidou seu domínio. Mas talvez o caso mais inusitado tenha sido o da Diletto, lançada em 2009 com uma história fictícia sobre um “nonno Vittorio”, um suposto mestre sorveteiro italiano. Em 2014, a farsa foi revelada e o caso virou exemplo de como autenticidade vale mais que uma boa narrativa publicitária.

O legado das sorveterias cariocas

Mais do que disputa comercial, a chamada “guerra dos sorvetes cariocas” mostra como o espírito criativo e bem-humorado do Rio influenciou até o modo de fazer negócios. De carrinhos amarelos nas ruas a campanhas irônicas na TV, o setor ajudou a construir uma parte importante da identidade cultural e empreendedora fluminense.

Mini questionário – A guerra dos sorvetes cariocas

🍦 Quem fundou a Hébom? ➡️ O empresário Luiz Fernando Martins, no bairro de Pilares, no fim da década de 1970. 🍧 Por que a Hébom virou “Sem Nome”? ➡️ A mudança foi consequência de um processo judicial movido pela Kibon por semelhança de nomes. 🍨 Onde nasceu a Kibon? ➡️ No Rio de Janeiro, em 1941, fundada por imigrantes norte-americanos. 🍦 Qual é o legado dessa disputa? ➡️ Mostra que a criatividade pode transformar um problema jurídico em sucesso de marca.

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