Comparação de imagens históricas revela uma transformação que avança longe da faixa de areia e já mobiliza moradores
A Praia do Peró permanece associada às águas limpas, ao turismo e à certificação internacional Bandeira Azul. Fora da faixa de areia, porém, uma mudança menos evidente vem alterando o bairro: árvores e jardins estariam perdendo espaço para construções, pavimentação e áreas sem vegetação.A situação foi identificada em um levantamento realizado pelo engenheiro de produção Rodolfo Cardoso, que frequenta o Peró desde 2012 e possui uma residência na Rua Anequim desde novembro de 2025.Por meio de imagens históricas disponíveis no Google Earth, ele comparou diferentes períodos da ocupação urbana e fez um mapeamento das ruas. Segundo Rodolfo, o material aponta redução da cobertura vegetal e perda de áreas ajardinadas que antes ajudavam a compor a paisagem do bairro.“Fiquei impressionado com o nível de degradação. Eu já tinha essa percepção por frequentar o bairro há anos, mas resolvi confirmar por meio de um mapeamento rua por rua utilizando a tecnologia do Google Earth”, relatou.De acordo com ele, o problema não se resume ao desaparecimento de árvores. Jardins que antes recebiam manutenção e ajudavam a valorizar os imóveis e os espaços públicos também teriam sido abandonados ao longo dos anos.“A arborização diminuiu, o asfalto se deteriorou e muitos jardins, que antes eram bem cuidados e valorizavam o espaço urbano, foram abandonados”, afirmou.
Árvores foram retiradas sem reposição, aponta levantamento
A ocupação urbana do Peró avançou sobre áreas anteriormente cobertas por vegetação de Mata Atlântica e restinga. A arborização das ruas, porém, nunca teria acompanhado plenamente o crescimento dos loteamentos e condomínios.Segundo o levantamento de Rodolfo Cardoso, a perda de árvores se intensificou nos últimos anos. Ele afirma ter identificado supressões feitas por condomínios, moradores e estabelecimentos comerciais sem reposição equivalente da vegetação.Não foram apresentados, no material encaminhado, números consolidados sobre a quantidade de árvores retiradas nem documentos oficiais sobre autorizações ambientais. As conclusões estão baseadas na comparação visual de imagens históricas e na observação direta do pesquisador.Mesmo quando não pertencem a espécies nativas ou de grande valor paisagístico, as árvores presentes nas áreas urbanas exercem funções importantes. Elas ajudam a produzir sombra, amenizar o calor nas calçadas e residências, reter partículas de poeira e melhorar o conforto de moradores e visitantes.A retirada contínua da vegetação também pode ampliar a presença de superfícies impermeáveis. Com mais concreto e asfalto, o solo absorve menos água da chuva e tende a acumular mais calor ao longo do dia.
Campanha pretende mobilizar moradores do Peró
Diante do cenário identificado, Rodolfo pretende lançar uma campanha comunitária para recuperar a arborização do bairro. A proposta é envolver moradores, síndicos, comerciantes, proprietários de imóveis de veraneio e representantes do poder público.A Prefeitura de Cabo Frio, segundo ele, disponibiliza gratuitamente até duas mudas por morador por meio do Horto Municipal. O acesso às plantas, no entanto, representa apenas uma etapa do processo.O plantio precisa considerar o porte adequado de cada espécie, a largura das calçadas, a presença de redes elétricas, a necessidade de irrigação e o espaço para o desenvolvimento das raízes. Sem planejamento, uma iniciativa bem-intencionada pode provocar danos às calçadas ou não garantir a sobrevivência das mudas.“Infelizmente, houve supressão de árvores sem que fossem adotadas medidas efetivas de compensação ambiental. Muitas vezes prevalece a preocupação com custos de manutenção ou comodidade, enquanto são ignorados os benefícios ambientais, paisagísticos e sociais proporcionados pela vegetação urbana”, disse Rodolfo.Para ele, a recuperação não depende de obras de grande porte, mas de organização, planejamento e comprometimento dos diferentes grupos que utilizam e ocupam o bairro.“Recuperar o verde do Peró não exige grandes investimentos, mas sim vontade política, conscientização e amor pelo bairro”, afirmou.
Mudança pode atingir conforto, paisagem e turismo
A perda da arborização não afeta apenas a aparência das ruas. Em períodos de calor, a ausência de sombra aumenta a exposição de pedestres e eleva o desconforto térmico nas áreas com maior concentração de concreto.Árvores também contribuem para a infiltração da chuva no solo, oferecem abrigo para aves e outras espécies e ajudam a integrar as áreas construídas aos fragmentos de vegetação ainda existentes.No caso do Peró, a mudança ganha peso adicional por ocorrer em uma das áreas turísticas mais conhecidas da Costa do Sol. O bairro reúne praias, pousadas, condomínios, restaurantes e imóveis de temporada, setores diretamente relacionados à qualidade ambiental e paisagística da região.O uso de imagens históricas do Google Earth permitiu ao autor do levantamento observar transformações ocorridas em diferentes momentos. A ferramenta, entretanto, não substitui um inventário técnico de arborização, que poderia identificar espécies, condições das árvores, quantidade de exemplares e pontos prioritários para novos plantios.Até o momento, não foram apresentados dados oficiais da Prefeitura de Cabo Frio sobre a redução da cobertura arbórea no Peró nem informações sobre a existência de um plano específico de arborização para o bairro.A mobilização proposta por Rodolfo pretende levar o problema para além da percepção individual. O objetivo é transformar a comparação das imagens em uma discussão sobre o futuro de um bairro cuja identidade ambiental não termina na areia ou na qualidade da água.Enquanto a Bandeira Azul mantém o Peró entre os destinos reconhecidos por seus padrões ambientais, o desafio nas ruas é impedir que o verde continue desaparecendo sem planejamento, reposição e acompanhamento público.