Estudo técnico aponta necessidade de energia equivalente a quase três Itaipus
O alerta sobre a necessidade de ampliar a geração elétrica no país voltou a colocar o horário de verão no centro das discussões energéticas. Embora o governo federal mantenha a decisão de não retomar a medida neste momento, técnicos não descartam novas avaliações caso o cenário de pressão sobre o sistema se agrave.
Atualizado às 16h
Uma nova leitura sobre o sistema elétrico brasileiro trouxe de volta um tema que costuma reaparecer em períodos de maior pressão energética: a possibilidade de retorno do horário de verão. O motivo está no tamanho do desafio apontado em estudo encaminhado à Agência Nacional de Energia Elétrica, que indica a necessidade de contratar 35 gigawatts adicionais até 2035 para evitar instabilidades e apagões no país.
O que muda no cenário energético brasileiro agora? O volume projetado equivale a quase três vezes a capacidade da Usina Hidrelétrica de Itaipu, uma das principais bases de sustentação do sistema nacional. Hoje, Itaipu responde por cerca de 9% do consumo brasileiro e ainda atua como reserva estratégica em momentos de pico. Segundo o levantamento, o país precisará ampliar a oferta de chamadas fontes despacháveis — como térmicas e hidrelétricas — capazes de entrar rapidamente em operação quando a demanda sobe.
Isso pode fazer o horário de verão voltar? Por enquanto, oficialmente, não há decisão para retomar a medida. O governo federal continua mantendo a posição de que o horário de verão permanece suspenso. Mas o cenário técnico faz o tema voltar ao radar porque, em momentos de maior desequilíbrio entre consumo e geração, o adiantamento dos relógios reduz a pressão no início da noite, período em que historicamente a demanda cresce. Um detalhe técnico ajuda a entender por que isso ainda não está descartado: se houver agravamento no quadro de segurança energética, medidas de gestão de consumo podem voltar à mesa.
Por que o sistema precisa de tanta energia extra? O crescimento acelerado das fontes solar e eólica trouxe avanço na geração, mas também aumentou a necessidade de equilíbrio operacional. Essas fontes dependem de clima e horário, o que exige reforço de estruturas capazes de responder rapidamente. O estudo elaborado pela Academia Nacional de Engenharia e pelo CIGRE-Brasil aponta que não basta gerar mais: será preciso armazenar melhor e distribuir com mais eficiência.
Onde estão os maiores riscos hoje? De acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico, o Sistema Interligado Nacional atingiu 246.762 MW de capacidade instalada, enquanto a demanda máxima chegou a 104.732 MW. Mesmo com capacidade aparentemente superior, o sistema enfrenta sobrecargas porque parte da geração não entra no momento exato em que o consumo exige.
O que já está sendo feito? O governo já contratou cerca de 19 GW adicionais em fontes térmicas e hidráulicas. Esse volume, sozinho, já supera a potência instalada de Itaipu. Além disso, o Ministério de Minas e Energia iniciou discussões sobre leilões de baterias para armazenamento energético.
O curtailment mostra que o sistema já opera sob pressão? Sim. O curtailment — corte temporário de geração para evitar sobrecarga — tem sido usado com frequência crescente. Segundo análises do setor, houve pelo menos 16 dias em 2025 em que o sistema operou próximo do limite de segurança. Isso ocorre principalmente em fins de semana, quando a produção continua alta, mas o consumo cai.
O que pode acontecer nos próximos anos? Se os investimentos em armazenamento, reservatórios e transmissão não avançarem no ritmo necessário, medidas de gestão energética podem ganhar força. Entre elas, o horário de verão volta naturalmente ao debate técnico, mesmo sem decisão imediata. Hoje, o cenário ainda é de monitoramento. Mas no setor elétrico, a lógica é simples: quando a margem diminui, toda ferramenta capaz de aliviar a demanda volta a ser observada.
Entenda rapidamente
O horário de verão vai voltar em 2026? Ainda não há decisão oficial.
O governo descarta totalmente? Não. Mantém a suspensão, mas acompanha o cenário.
O risco de apagão existe hoje? Há alerta técnico para reforço estrutural até 2035.
O que mais pesa no sistema? A dificuldade de equilibrar geração intermitente com demanda real.