Clubes deixaram marcas curiosas e glórias que foram esquecidas
O outro lado do futebol carioca
Quando se fala em futebol no Rio de Janeiro, os olhos brilham ao lembrar de Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo. Mas a história do esporte na Guanabara também foi escrita por clubes que, embora desaparecidos, deixaram marcas curiosas, folclóricas e até poéticas.
Esses times surgiram entre ruas e bairros, viveram glórias efêmeras e quedas retumbantes. Hoje, permanecem como memória de um futebol que nunca soube viver sem exageros.
Andarahy Athletic Club: a praga que marcou o Vasco
Fundado em 1909, o Andarahy disputou o Campeonato Carioca e entrou para a história em 1937. Após perder por 12 a 0 para o Vasco em um jogo sob chuva torrencial, um de seus reservas — conhecido como pai de santo Arubinha — rogou uma praga contra o rival. O Vasco ficou nove anos sem conquistar títulos, alimentando a lenda que eternizou o pequeno clube tijucano, extinto em 1973.
Paysandu Athletic Club: futebol “chique” do Leblon
Originado do Paysandu Cricket Club, de 1872, o clube do Leblon venceu o Carioca em 1912, mas desistiu do futebol dois anos depois. Jornais da época relatam que a decisão veio por “não querer se misturar com a gentalha”. Hoje, o espaço permanece como clube social.
Sport Club Mangueira: o maior saco de pancadas
Fundado por operários da fábrica Chapéus Mangueira, na Tijuca, o clube ficou famoso por derrotas históricas. A mais emblemática ocorreu em 1909, quando perdeu por 24 a 0 para o Botafogo, resultado que permanece como uma das maiores goleadas do futebol brasileiro. O time desistiu em 1927, e muitos de seus remanescentes seguiram carreira na escola de samba Mangueira.
Villa Isabel Football Club: futebol à luz de velas
Fundado em 1912, o Villa Isabel protagonizou o primeiro jogo noturno da América Latina, em 1914. A iluminação improvisada contou com 12 lâmpadas e 3 mil velas. O time venceu por 4 a 0 um selecionado de Campos, mas nunca brilhou em competições oficiais, encerrando atividades na década de 1940.
Haddock Lobo FC: o time de rua da Tijuca
Criado em 1908, foi o único a adotar uniforme marrom, completo com gola engomada e gravata branca. Apesar do estilo, colecionou goleadas e durou apenas três anos, sendo absorvido pelo América FC. Ainda assim, revelou o goleiro Marcos Carneiro de Mendonça, ídolo do Fluminense e da Seleção.
Outros clubes esquecidos
Riachuelo FC: campeão da 2ª divisão em 1906, mas barrado por regulamento e extinto em 1911.
Football and Athletic Club: rebatizado de Associação Athletica Internacional, desapareceu em 1912.
Sport Club Brasil: da Urca, teve estádio na Praia Vermelha e chegou a contar com Leônidas da Silva. Fechou em 1935.
Syrio e Libanez AC: fundado em 1921, punido por não ter campo próprio, encerrou em 1930.
América FC de Três Rios: o “clube fênix”, já extinto e reativado várias vezes, hoje planeja retorno como SAF.
Futebol carioca e sua memória
Os clubes extintos do Rio não foram apenas coadjuvantes. Eles ajudaram a moldar a cultura boleira carioca, com histórias de superação, fracassos épicos e episódios lendários. Se hoje não existem mais, continuam vivos na memória, como estrelas cadentes que brilharam intensamente antes de desaparecer.