Revelados os motivos da “aventura”. Reportagem mostra detalhes impressionantes do real interesse, por trás da ida a uma nação em guerra
Viagem de prefeitos brasileiros a Israel levanta polêmica: lobby, vigilância e interesses militares
De acordo com uma detalhada reportagem do Intercept Brasil, assinada pelos jornalistas Laís Martins, Tatiana Dias e Thalys Alcântara, a recente viagem de prefeitos brasileiros a Israel foi muito além de um simples “curso de segurança pública”. Segundo o levantamento, o verdadeiro objetivo da comitiva foi fortalecer o lobby da indústria de vigilância israelense, expandindo a influência política e comercial do país no Brasil.
O que diz a programação oficial?
Segundo a reportagem do Intercept, a viagem foi inteiramente custeada pela Mashav (Agência Israelense de Cooperação Internacional) e pelo Instituto Internacional de Liderança de Histadrut, que representa trabalhadores de Israel. O roteiro incluía três módulos principais:
Primeiro módulo: Visitas a projetos de segurança pública com envolvimento de órgãos como polícia e instituições municipais ligadas à educação e tempo livre.
Segundo módulo: Encontros com setores acadêmicos e industriais israelenses com foco em desenvolvimento tecnológico.
Terceiro módulo: Participação na Muni Expo Israel 2025, feira internacional que expõe tecnologias de segurança e vigilância.
Ainda de acordo com o Intercept, além da feira, o roteiro previa visitas a áreas próximas à Faixa de Gaza, encontros com vítimas de atentados e até atividades turísticas em Israel.
Prefeitos de Nova Friburgo e Macaé estavam entre os participantes
Entre os 11 políticos convidados, estavam o prefeito de Nova Friburgo, Johnny Maycon (PL), e o prefeito de Macaé. Ambos integraram a comitiva que precisou se refugiar em bunkers após os ataques do Irã a Israel, antes de serem evacuados por terra rumo à Jordânia e de lá irem para a Arábia Saudita até saírem do país em um avião fretado rumo ao Brasil.O detalhe que chama atenção é que, enquanto Johnny Maycon defendia nas redes sociais que a viagem era uma missão técnica sobre segurança e tecnologia, o próprio cronograma oficial mostrava visitas a pontos turísticos e reuniões com empresas ligadas a tecnologias de vigilância militar, com histórico de uso em repressão a palestinos.
Lobby israelense e exportação de tecnologias “testadas em campo de guerra”
Ainda segundo o Intercept, Israel tem feito dessa estratégia de convidar políticos brasileiros um método constante para abrir portas para a venda de equipamentos de segurança, muitos deles usados em ações contra a população palestina.Entre as empresas expositoras da Muni Expo, estavam:
Tamildata: Que oferece controle de comunicações em ambientes educacionais, liderada por veteranos das Forças de Defesa de Israel.
Reshef Security: Fornecedora de soluções para checkpoints militares em Jerusalém e na Cisjordânia.
O pesquisador Pablo Nunes, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), disse ao Intercept que a viagem representa uma perigosa apropriação do tema da segurança por municípios, que constitucionalmente não têm essa atribuição.
Tecnologias com uso questionável e potencial para abusos
A reportagem do Intercept Brasil também lembra que softwares de espionagem desenvolvidos por empresas israelenses já foram usados ilegalmente no Brasil, como o FirstMile, adquirido pela Abin durante o governo Bolsonaro.Além disso, há registros de contratos entre estados brasileiros e companhias como Cellebrite e Cognyte, especializadas em tecnologias de extração de dados e reconhecimento facial – muitas delas testadas, segundo especialistas, em ações militares contra a população de Gaza.