Localizada perto da capital fluminense, santuário é responsável reintrodução de animais antes extintos na região e descobertas de novas espécies
O jornal Folha de São Pulo publicou recentemente uma reportagem contando a história da Reserva Ecológica de Guapiaçu, localizada em Cachoeiras de Macacu-RJ. Esta, é uma das mais importantes reservas ecológicas do Brasil. O local é responsável pelo monitoramento da fauna, flora e pelo replantio e recuperação de áreas verdes. A Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA), localizada no interior do Rio de Janeiro, exemplifica o potencial humano tanto para a destruição quanto para a preservação da natureza.
Transformação e Restauração
Localizada a aproximadamente 100 km da capital fluminense, a REGUA foi criada na antiga Fazenda do Carmo, uma propriedade de criação de gado que pertenceu a uma família anglo-brasileira desde 1907. Nos anos 1990, Nicholas Locke, um dos herdeiros das terras, decidiu preservar a vegetação remanescente e restaurar as áreas degradadas. Britânico de nascimento, Nicholas chegou ao Brasil aos 19 anos, formou-se como técnico agrícola e, aos 22, decidiu estabelecer-se definitivamente no país. Em 2001, junto com sua esposa, Raquel Locke, ele fundou a Associação Reserva Ecológica de Guapiaçu, com o objetivo de preservar a Mata Atlântica da bacia do rio Guapiaçu. Nicholas relembra que tanto ele quanto seu pai sempre se preocuparam com a conservação das florestas, e que essa missão se tornou possível graças à sua condição financeira e ao desejo de aprender a gerir uma unidade de conservação.
Atualmente, a REGUA se estende por 8.000 hectares e abriga uma biodiversidade impressionante, com mais de 700 espécies de árvores e 500 espécies de aves, atraindo observadores de pássaros do mundo inteiro. A maior parte da área atual da reserva foi adquirida de propriedades vizinhas, ampliando significativamente sua capacidade de preservação. Um dos grandes esforços da REGUA foi a restauração das áreas alagadas, um ecossistema típico da região que havia sido destruído por atividades agropecuárias. A recuperação desses alagados resultou no retorno de um habitat vital para diversas espécies, como jacarés, lontras e capivaras, e se tornou um símbolo do sucesso da reserva.Segundo a reportagem, nos últimos 20 anos, com o apoio de parceiros nacionais e internacionais, a reserva conseguiu restaurar 520 hectares de mata nativa, plantando mais de 800 mil árvores. Esse processo de restauração, que envolve técnicas de preparação do solo e seleção de espécies nativas, é conduzido com precisão científica para que o ecossistema reflorestado se aproxime ao máximo do original.
Reintrodução de Espécies e Proteção da Fauna
A reintrodução de espécies extintas na região também é um marco da REGUA. Um exemplo notável é o das antas, que foram reintroduzidas na reserva em 2017 pelo projeto Refauna e já se reproduziram na natureza. Imagens captadas por câmeras de monitoramento também registraram a presença de pumas, muriquis e tamanduás na área. Para combater a caça, um problema histórico na região, a estratégia adotada foi contratar ex-caçadores como guarda-parques. Esses profissionais, que conhecem intimamente a floresta, agora têm a missão de protegê-la, o que lhes confere um senso de responsabilidade e conexão com a natureza.Recentemente, um desses guarda-parques fez uma descoberta significativa ao encontrar uma nova espécie de árvore da Mata Atlântica, batizada de Eugenia guapiassuana. Com grandes flores rosadas e frutos vermelhos, a árvore recebeu o nome popular de “cereja-de-guapiaçu”. A descoberta foi publicada no Kew Bulletin, uma renomada revista científica de botânica, em março de 2024.A sede da REGUA é um local de intensa atividade, contrastando com a tranquilidade da floresta ao redor. Pesquisadores, voluntários, turistas e estudantes frequentam o local, que conta com trilhas sinalizadas, alojamentos, um auditório e uma pousada dedicada ao ecoturismo. Micaela Locke, filha de Nicholas e Raquel, que coordena projetos na reserva, destacou que o envolvimento com a comunidade local foi um processo gradual, mas essencial para o sucesso da REGUA. “No início, havia desconfiança sobre nossa presença, mas hoje, trabalhamos em conjunto com as comunidades vizinhas, oferecendo cursos, eventos e passeios educativos”, explica Micaela.A reportagem original foi publicada pela Folha de São Paulo na última quinta-feira.