Um manifesto corajoso, em forma de empreendedorismo, para derrubar estigmas e abrir diálogos sobre os benefícios terapêuticos da cannabis em Nova Friburgo
Maconha: o tabu em torno do tema divide aqueles que defendem a discussão no âmbito da segurança pública daqueles que apoiam o debate aberto sobre as propriedades terapêuticas da cannabis.Além de buscar ganhos financeiros e empreendedorismo, o casal Raquel Leal, de 37 anos, e Bruno Rangel, de 40, acredita que sua mais recente empreitada nos negócios possa gerar discussões aprofundadas que levem a reformas significativas na legislação brasileira sobre a Cannabis.Em 2 de janeiro de 2023, na Rua Farinha Filho, 45, Centro de Nova Friburgo, às 16h20, o casal inaugurou a loja Bendita Cannabis. O estabelecimento destina-se a adultos, pacientes e simpatizantes dos produtos derivados da planta. O objetivo da loja, segundo o casal, vai além do aspecto financeiro. Em Nova Friburgo, apesar da presença de tabacarias e lojas do gênero, a Bendita Cannabis é a primeira e, até o momento, a única a abordar abertamente o tema.
Mudança para o Peru foi pontapé inicial para interesse na cannabis
A mudança para o Peru foi o ponto inicial para o interesse na cannabis. Raquel, formada em Marketing e atualmente cursando Biologia, trabalhou por 8 anos no setor de segurança pública e começou a utilizar medicamentos controlados devido a vários episódios traumáticos decorrentes do estresse no trabalho. Após alguns anos de uso da medicação, Raquel decidiu interromper o tratamento de forma gradual.Bruno, formado em administração e trabalhando para uma empresa de telecomunicações de Macaé-RJ, teve que se mudar para o Peru em 2019 por motivos profissionais. Sua esposa e o filho do casal, Heitor, de 7 anos, foram com ele. Foi nesse momento que Raquel percebeu que seus sintomas estavam retornando e decidiu experimentar um tratamento mais natural. Após pesquisar e estudar muito sobre o assunto, Raquel conheceu a cannabis e suas propriedades terapêuticas. No país vizinho, onde a política e a visão em relação ao uso da cannabis são mais abertas, a família iniciou seus estudos aprofundados sobre a planta.“Comecei a estudar a cosmetologia cannabica e fiz diversos cursos. Eu sabia que queria trabalhar com cannabis. Queria entender como poderia aplicar essa ideia aqui no Brasil, considerando todo o histórico, a legislação e a resistência ao tema. Eu não poderia ficar sem a cannabis, pois ela era o meu remédio e a melhor forma de me tratar. Procurei a Anvisa, um advogado, fiz tudo para me certificar de que estaria dentro da lei. Quando voltei ao Brasil em 2022, consegui trazer dois frascos de óleo à base de cannabis. Eu já sabia como extrair o óleo e como cozinhar com cannabis, então decidi cultivar. Não precisava ser tão difícil para mim e para a população se a discussão saísse do âmbito da segurança e passasse para a área da saúde”, disse Raquel.Já no Brasil e com ideia de se mudar para a região serrana do Rio de Janeiro, o casal fez todos os trâmites para obter as autorizações necessárias. “A Cannabis não é para todos. Para quem tem dinheiro, ela é “liberada”. A história da criminalização das drogas é mais uma questão de controle social do que segurança pública”, disse Bruno.
Loja é um manifesto para derrubar tabus
O casal abriu a loja Bendita Cannabis na região serrana do Rio de Janeiro com o objetivo de desafiar tabus e promover o diálogo sobre o uso medicinal da cannabis. “Quem entra na loja para questionar, nós já temos um discurso pronto para explicar. A pessoa sai daqui com outra ideia”, afirma Raquel.“A Bendita é um manifesto para derrubarmos tabus, hipocrisias e pressionar quem pode fazer alguma coisa, no caso políticos, para criar esse diálogo e conscientização. Cerca de 90% do nosso público é uma galera que tem mais consciência”, contou o casal ao EcoSerrano.Embora cientes de que a cidade de Nova Friburgo é considerada conservadora e que enfrentariam dificuldades para implementar o negócio na região, o casal está determinado a quebrar os estigmas associados à cannabis. Eles acreditam que as pessoas precisam entender os benefícios medicinais da planta antes de chegar ao ponto de necessitar dela.
“Chegamos a ficar em Teresópolis, mas tínhamos uma paixão por Nova Friburgo. Nós amamos a cidade e viemos para cá. Foi difícil achar um local para montar a Bendita. Procuramos alguns imóveis e em muitos deles tivemos recusas. Eu entendo o receio porque já estive desse lado. O que eu quero é que as pessoas não precisem chegar ao ponto em que eu cheguei, que é necessitar do medicamento e só aí entender os seus benefícios”, disse Raquel.
Cannabis é reconhecida como medicamento importante no tratamento de diversas doenças
Estas são algumas das comorbidades que podem ser tratadas com medicamentos à base de cannabis:
Fibromialgia
Dor crônica
Dores reumatológicas
Efeitos analgésicos e relaxantes que ajudam a diminuir dores e inflamações
Transtornos de ansiedade
Melhora dos parâmetros de sono
Mal de Parkinson
Glaucoma
“Por que é proibido cultivar uma planta, cujas propriedades aliviam dores e são tratamento poderosos de saúde? Já existem cursos que ensinam como extrair os óleos, entre outras coisas para auxiliar no tratamento de doenças. Por que ficar refém da indústria farmacêutica que vende um medicamento a cerca de R$ 2 mil se a pessoa pode ter esse remédio de forma natural, no quintal de casa?”, questionou o casal.
Paixão motivou abertura da loja
O casal compartilhou que, ao decidirem abrir a loja, não realizaram uma pesquisa de mercado para avaliar a demanda em Nova Friburgo. Bruno e Raquel estão impulsionados pelo desejo de ver a cidade adotar um discurso progressista. “Sendo honestos, fizemos uma pesquisa de mercado em nível nacional, mas não especificamente em Friburgo. Viemos para cá com uma enorme paixão e determinação para causar impacto e fomentar discussões. Este é um espaço para diálogo”, garantiram.A motivação empreendedora do casal transcende a esfera econômica. Eles vislumbram, no futuro, a possibilidade de participar de uma audiência pública na Câmara Municipal e, de maneira ousada, almejam contribuir para a criação de leis e promover mudanças que coloquem Nova Friburgo no mapa da desconstrução e do pensamento moderno em relação à cannabis. “É importante ter metas como negócio e empreendedor, mas também queremos ser agentes de transformação”, destacou Bruno.
Resultados já estão surgindo
Segundo Raquel, a loja tem se tornado um ponto de encontro para diversos grupos que discutem os benefícios medicinais da cannabis, tanto dentro do estabelecimento como em locais onde a receptividade é positiva.Recentemente, em 22 de maio, na Livraria Genipapo, ocorreu uma roda de conversa com a presença significativa de profissionais de saúde, evidenciando o interesse e engajamento em torno do tema.Além disso, o casal compartilhou que alguns médicos que apoiam o uso de medicamentos à base de cannabis já demonstraram apoio à loja, deixando seus contatos para aqueles que desejam realizar consultas e obter prescrições para tratamentos.
Ampla variedade de produtos na loja
A loja oferece uma ampla gama de produtos relacionados ao uso adulto, incluindo produtos terpenados, comestíveis e cervejas e, em breve, chocolates produzidos em Nova Friburgo.Os produtos da loja são elaborados com aromas e terpenos derivados da genética da cannabis. Além disso, são disponibilizadas roupas feitas de tecido de cânhamo, artigos para cultivo, como substratos, fertilizantes e luzes, bem como acessórios feitos de fibra de cânhamo.Essa variedade de itens visa proporcionar uma experiência segura e reduzir danos, por exemplo, da forma fumada. No entanto, é importante ressaltar que a forma fumada da cannabis possui propriedades terapêuticas, aliviando diversas dores, e existem médicos que prescrevem flores para uso medicinal. A loja também oferece opções como bongs, pipes, cachimbos e piteiras, atendendo às diferentes preferências e necessidades dos clientes.
Total conformidade com a legislação
O casal assegura que a loja está totalmente regularizada, possuindo CNPJ e razão social em nome do estabelecimento. É importante ressaltar que a loja não vende maconha ou qualquer substância derivada dela.“Não oferecemos produtos que proporcionem o chamado ‘barato’, tudo aqui é voltado para fins terapêuticos. Recebemos a inspeção da Vigilância Sanitária e estamos em plena conformidade com todas as normas”, enfatizou o casal.A reprodução deste conteúdo em parte ou em sua totalidade, sem prévia autorização do EcoSerrano, pode acarretar em violação dos direitos autorais e resultar em uma ação judicial.Redes Sociais do EcoSerranoTelegramGrupo de Whatsapp 3Grupo de Whatsapp 2 Grupo de Whatsapp 1 Instagram: @ecoserranoFacebook: @ecoserranooTwitter: @serrano_eco