Máquinas trabalham nas obras contra enchentes na Bacia do Rio Acari

Obra deve livrar nove bairros do Rio da rotina de enchentes

Intervenção promete melhorar o escoamento das águas e devolver segurança, mobilidade e espaços de convivência a 80 mil moradores

Para milhares de moradores da Zona Norte do Rio, a chuva não representa apenas uma mudança no tempo. Significa colocar móveis no alto, tentar impedir a entrada da água, atravessar ruas alagadas e conviver com lama, mau cheiro, doenças e prejuízos.

É essa rotina histórica que as obras iniciadas na Bacia do Rio Acari prometem transformar. O projeto prevê intervenções para reduzir as enchentes e melhorar as condições de vida de aproximadamente 80 mil pessoas.

A primeira etapa começou em Jardim América e inclui o reforço das margens do rio, a melhoria do escoamento da água e a criação de espaços públicos para circulação, esporte e lazer.

Mais do que uma obra de engenharia, a intervenção representa para os moradores a expectativa de não precisar mais temer cada temporal.

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Água acima da canela e crianças presas dentro de casa

A entregadora de compras Isabel do Nascimento, de 53 anos, vive há oito anos na Pavuna, às margens do Rio Acari. Enquanto retirava a lama da porta de casa com a ajuda da filha Yasmin, de 9 anos, ela resumiu a realidade enfrentada pela comunidade.

Segundo Isabel, quando chove, a água passa acima da canela. A presença constante de água parada também aumenta a preocupação com doenças.

A obra traz a esperança de uma vida diferente, principalmente para as crianças, que atualmente não dispõem de um espaço adequado para brincar.

Além das intervenções contra as enchentes, o projeto prevê a construção de quadra poliesportiva, parquinho infantil, academia da terceira idade, calçada, pista de caminhada e uma nova passarela para pedestres.

Para moradores como Isabel, esses equipamentos não são apenas complementos urbanos. Representam a possibilidade de ocupar o próprio bairro com mais dignidade, segurança e qualidade de vida.

Obra pretende reduzir décadas de sofrimento

A Bacia do Rio Acari possui 107 quilômetros quadrados e concentra cerca de 20% da população da cidade do Rio de Janeiro.

As cheias atingem principalmente nove bairros da Zona Norte:

  • Acari;
  • Costa Barros;
  • Coelho Neto;
  • Irajá;
  • Barros Filho;
  • Fazenda Botafogo;
  • Jardim América;
  • Pavuna;
  • Colégio.

Ao longo dos anos, moradores dessas regiões passaram a conviver com casas invadidas pela água, ruas bloqueadas, interrupção do transporte e perda de móveis, eletrodomésticos e objetos pessoais.

O impacto também chega ao comércio, às escolas e aos serviços públicos. Depois que a água baixa, permanecem a lama, o lixo e os riscos sanitários.

A expectativa é que a ampliação da calha do Rio Acari permita que um volume maior de água seja escoado, reduzindo a frequência e a intensidade das inundações.

Primeira etapa será concluída em 2027

Nesta primeira fase, serão construídos 740 metros de muros de contenção na região da Nova União. As estruturas, feitas com pedras e concreto, deverão reforçar as margens e reduzir o risco de erosão.

Também estão previstas intervenções no encontro dos rios Acari e Pavuna, ponto importante para o escoamento da água.

A preparação do terreno já começou, com a demolição e a retirada de construções localizadas na margem do rio. A conclusão dessa etapa está prevista para o segundo semestre de 2027.

Até lá, os moradores ainda precisarão conviver com o risco de novos alagamentos. O prazo torna necessário o acompanhamento permanente da execução, do cronograma e da qualidade das intervenções.

Projeto completo alcançará 3,8 quilômetros

O projeto será executado em fases e prevê a ampliação da calha do Rio Acari em um trecho de 3,8 quilômetros, entre a Avenida Pastor Martin Luther King Jr. e o encontro com o Rio Pavuna.

O investimento anunciado é de R$ 430 milhões, valor que inclui as obras e os serviços de manutenção do rio.

Além do sistema de contenção, a área receberá uma via junto à margem, calçada e pista de caminhada. A proposta é que espaços hoje associados ao abandono, ao lixo e às enchentes passem a ser utilizados para circulação, esporte e convivência.

Caso seja integralmente executado e acompanhado de manutenção contínua, o projeto poderá deixar um legado que vai além do controle das águas: bairros mais seguros, valorizados e integrados à cidade.

Mais de 143 mil toneladas retiradas do rio

Desde novembro do ano passado, aproximadamente 143 mil toneladas de resíduos e materiais acumulados foram retiradas do leito do Rio Acari.

A limpeza prioriza os trechos entre as avenidas Brasil e Pastor Martin Luther King Jr. Atualmente, as equipes trabalham na Pavuna, em Coelho Neto e em Honório Gurgel.

A retirada do material acumulado contribui para melhorar a passagem da água, mas precisa ser mantida mesmo depois da conclusão das obras. Sem conservação contínua, o assoreamento e o descarte irregular podem voltar a comprometer o funcionamento da calha.

Para os moradores, a transformação será medida de forma concreta: pela quantidade de casas que deixarão de ser invadidas, pelas crianças que poderão brincar perto de onde vivem e pelo fim do medo sempre que o céu escurecer.

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