Comparação entre Cascadura no passado, com bonde lotado, e a paisagem da Avenida Dom Hélder Câmara em 2026

Rio Antigo: Do bonde lotado ao vazio das ruas

Comparação entre 1977 e 2026 mostra as mudanças na paisagem, no transporte e na ocupação da antiga Avenida Suburbana 

Há um Rio de Janeiro que sobrevive nas fotografias em preto e branco. Um tempo marcado pelos bondes, pelas construções de fachadas alinhadas à calçada e por ruas tomadas por pessoas que faziam do transporte coletivo uma experiência compartilhada — muitas vezes até demais.

Uma comparação entre registros de Cascadura mostra como o mesmo trecho da cidade se transformou ao longo de quase cinco décadas. A imagem antiga, apresentada como sendo de 1977, retrata a antiga Avenida Suburbana, atual Avenida Dom Hélder Câmara. Ao lado, uma fotografia de 2026 revela a paisagem encontrada no local atualmente.

A mudança vai além dos prédios e da forma de ocupação da avenida. As duas fotografias contam parte da história da mobilidade, do crescimento urbano e da relação dos cariocas com os espaços públicos.

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Um bonde tomado por passageiros

No registro antigo, o transporte coletivo domina completamente a cena. Um bonde com a identificação da linha 97, no itinerário Madureira–Penha, aparece cercado por passageiros.

O veículo está lotado. Homens se seguram na parte externa, apoiados nas laterais e nos estribos. Outros aguardam nas proximidades, enquanto pedestres acompanham a movimentação. O bonde parece concentrar a vida daquele pedaço do subúrbio carioca.

Acima dele, uma extensa rede de fios alimenta o sistema elétrico. Os postes, os trilhos e as construções antigas ajudam a compor uma imagem associada ao chamado Rio Antigo: uma cidade movimentada, popular e atravessada por transportes que desapareceriam da rotina urbana.

A cena pode despertar romantismo e nostalgia, mas também revela uma realidade difícil. A superlotação expunha passageiros a riscos que hoje seriam considerados inaceitáveis. Muitos viajavam pendurados do lado de fora do veículo, sem qualquer proteção.

A fotografia, portanto, guarda duas leituras. De um lado, o fascínio por uma época que permanece no imaginário carioca. Do outro, a precariedade enfrentada diariamente por quem precisava se deslocar pela cidade.

Trilhos desapareceram e árvores ocuparam a paisagem

Na imagem de 2026, o mesmo trecho parece viver outro ritmo. O bonde, os passageiros, os trilhos e a rede aérea não estão mais presentes.

O asfalto ocupa o espaço por onde antes passava o transporte sobre trilhos. Árvores cresceram ao longo da via, postes de iluminação foram instalados e placas, sinais de trânsito e faixas de pedestres passaram a organizar a circulação.

Os prédios antigos ainda permitem reconhecer parte do cenário. Algumas fachadas permanecem como pontos de referência, embora tenham recebido novas cores, anúncios e usos comerciais. São elementos que ajudam a ligar visualmente as duas épocas.

O contraste mais forte está na presença humana. A fotografia antiga registra uma rua cheia de passageiros e pedestres. Já a imagem atual foi feita em um momento de circulação reduzida, com poucos veículos e nenhuma aglomeração aparente.

Isso não significa necessariamente que Cascadura tenha deixado de ser movimentada. A comparação registra momentos específicos, sob condições diferentes. Ainda assim, o vazio da fotografia de 2026 torna mais intensa a lembrança da multidão reunida ao redor do bonde.

A antiga Avenida Suburbana permanece na memória

A mudança de nome também acompanha as transformações do local. A antiga Avenida Suburbana passou a ser chamada de Avenida Dom Hélder Câmara, uma das principais vias da Zona Norte do Rio de Janeiro.

Para gerações mais antigas, porém, o nome anterior permanece vivo. “Avenida Suburbana” continua sendo uma referência afetiva e geográfica, ligada a bairros, histórias familiares, antigos comércios e viagens realizadas durante décadas.

Colocadas lado a lado, as fotografias permitem observar muito mais do que a substituição de um meio de transporte. Elas mostram uma cidade que retirou trilhos, redesenhou a circulação, modificou fachadas e criou novas formas de ocupar o espaço urbano.

Os prédios ajudam a confirmar que o lugar é o mesmo. Todo o restante revela o caminho percorrido pelo Rio entre a memória preservada em preto e branco e a paisagem colorida de 2026.

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