Veto do prefeito Johnny Maycon será analisado pelos vereadores em uma sessão que promete mobilizar moradores de Lumiar e familiares da menina
A Câmara Municipal de Nova Friburgo promete receber um grande número de moradores nesta terça-feira, 14 de julho. Os vereadores vão decidir se mantêm ou derrubam o veto do prefeito Johnny Maycon ao projeto que dá o nome de Isadora Cardoso da Silva Stulpen Veiga à Unidade de Urgência e Emergência 24 Horas de Lumiar.Isadora tinha apenas oito anos quando morreu, em 13 de dezembro de 2025, depois de passar mal e procurar atendimento médico no distrito. Desde aquela noite, familiares e moradores cobram explicações sobre o serviço oferecido na localidade e defendem mudanças para que outra família não passe pela mesma situação.A ideia de colocar o nome da menina na unidade nasceu durante as primeiras mobilizações realizadas pela comunidade. O projeto foi apresentado pelo vereador Cláudio Damião e aprovado duas vezes pela Câmara, sempre com 15 votos favoráveis e apenas dois contrários.Apesar da ampla maioria, o prefeito decidiu vetar a proposta.O que poderia ser apenas mais uma homenagem a uma pessoa falecida transformou-se em uma disputa política, social e simbólica.
A polêmica chama atenção por uma razão que pode ser considerada, literalmente, sem precedentes na história recente do município.Dar nomes de pessoas falecidas a ruas, praças, escolas, unidades de saúde e repartições públicas é uma prática comum em Nova Friburgo. Projetos semelhantes passaram recentemente pela Câmara e pela Prefeitura sem resistência pública, demora fora do normal ou qualquer mobilização para impedir a homenagem.Com Isadora, porém, o tratamento foi diferente.O projeto levou meses para chegar ao plenário, enfrentou manifestações contrárias depois de já ter sido aprovado duas vezes e acabou vetado pelo prefeito.A situação provoca uma pergunta inevitável: por que o nome de uma menina de oito anos gera tamanha burocracia, resistência e movimentação de bastidores?Segundo informações colhidas pelo Portal EcoSerrano, a oposição à homenagem teria partido de um pequeno grupo ligado a uma associação que não representa a totalidade dos moradores de Lumiar.Pessoas ouvidas pela reportagem afirmam que integrantes desse grupo tentariam conservar influência sobre decisões locais e teriam preferência por nomes ligados a famílias tradicionais do distrito. Os relatos também apontam que a origem humilde de Isadora teria pesado na resistência ao projeto.Essas informações são resultado da apuração do portal e não representam, até o momento, uma justificativa oficialmente admitida pela associação ou pela Prefeitura. Todos os citados têm espaço garantido para apresentar sua versão.O que precisa ser explicado é por que um grupo restrito teria tamanho poder para tentar modificar uma decisão tomada legalmente por ampla maioria dos vereadores.
O peso político da homenagem
O projeto apresentado por Cláudio Damião não pretende apenas colocar o nome de Isadora em uma placa.Para familiares e moradores, a homenagem serviria para preservar a memória de uma criança cuja morte expôs as fragilidades do atendimento de urgência oferecido em Lumiar naquela noite de dezembro.O nome de Isadora na entrada da unidade faria com que a história não fosse esquecida. Também manteria diante do poder público uma lembrança permanente das falhas apontadas pela família e pela comunidade.Para os defensores do projeto, esse seria um dos principais motivos do constrangimento político causado ao governo Johnny Maycon.Na avaliação de apoiadores da homenagem, o veto busca impedir que o nome da menina fique diretamente associado a um episódio que marcou negativamente a atual gestão na área da saúde.A Prefeitura, no entanto, apresentou justificativas formais para o veto, que agora serão analisadas pelos vereadores. Caberá ao plenário decidir se os argumentos do Executivo são suficientes para impedir a homenagem.
Disputa por sobrenomes tradicionais
Moradores favoráveis ao projeto também denunciam uma tentativa de impor nomes ligados a famílias consideradas influentes ou tradicionais na região.Para esse grupo, retirar o nome de Isadora seria permitir que interesses particulares se sobrepusessem à dor de uma família, ao desejo de parte da comunidade e a duas decisões tomadas pela Câmara.O debate, portanto, deixou de ser apenas sobre o nome de um equipamento público.Está em discussão se uma menina de origem humilde pode ser homenageada da mesma forma que integrantes de famílias conhecidas e pessoas com maior influência política ou social.Isadora lutou pela vida e, depois de sua morte, sua memória passou a enfrentar uma nova disputa. Desta vez, contra o elitismo, contra as pressões de bastidores e contra aqueles que não aceitam uma decisão tomada pelos meios legais.O que os defensores do projeto consideram inaceitável é que a história de uma criança seja diminuída para abrir espaço a nomes escolhidos por um grupo pequeno, sem que a maioria da comunidade seja ouvida.
Vereador classifica veto como inédito
Cláudio Damião afirmou não se lembrar de outro caso semelhante no município.“Que eu me lembre, é inédito o veto a um projeto que dá nome a um equipamento público”, declarou.Segundo o parlamentar, a proposta nasceu de um pedido feito pela própria comunidade.“O projeto nasceu a partir de um apelo da comunidade. Desde dezembro esse assunto tramitou na Casa, algo que geralmente é votado em cerca de dois meses. Teve a aprovação da população, dos parlamentares em duas votações e o prefeito, de forma covarde, nega à família e à comunidade essa homenagem”, afirmou.A declaração e a classificação do ato como covarde são de responsabilidade do vereador.
Projeto recebeu 15 votos favoráveis
O projeto foi aprovado em primeira discussão no dia 21 de maio, com 15 votos a favor e dois contra.Cinco dias depois, em 26 de maio, o resultado se repetiu na segunda votação. O texto seguiu então para a análise do prefeito.Johnny Maycon vetou a proposta em 15 de junho.Em 2 de julho, uma associação de moradores se manifestou publicamente contra o nome de Isadora durante uma sessão da Câmara. A manifestação ocorreu mais de seis meses depois do início do debate e após o projeto já ter sido aprovado duas vezes.A entrada tardia da associação na discussão aumentou as dúvidas sobre a origem da resistência e sobre os interesses envolvidos.
Uma decisão que vai além de uma placa
Nesta terça-feira, os vereadores terão de escolher entre manter a decisão do prefeito ou confirmar novamente os votos dados em maio.A votação também mostrará se os 15 parlamentares que apoiaram a homenagem nas duas primeiras oportunidades continuarão defendendo o projeto diante da pressão política e das manifestações contrárias.Formalmente, o plenário decidirá apenas o nome de uma unidade pública.Na prática, a votação tratará da memória de uma criança, do direito de uma família à homenagem e dos limites da influência exercida por pequenos grupos sobre decisões tomadas de forma democrática.Também estará em jogo a resposta da cidade a uma pergunta que ainda não foi esclarecida: por que tantas homenagens passaram sem problemas, mas justamente o nome de Isadora encontrou tantos obstáculos?
Linha do tempo
13 de dezembro de 2025: Isadora, de oito anos, morre após procurar atendimento médico de urgência em Lumiar.14 de dezembro de 2025: moradores realizam um ato no distrito. Durante a mobilização, é apresentada a ideia de dar o nome da menina à unidade.15 de dezembro de 2025: o projeto é protocolado na Câmara Municipal.17 de dezembro de 2025: Cláudio Damião participa de uma reunião na Ação Rural, em Lumiar, e anuncia a proposta.20 de dezembro de 2025: o vereador participa de um ato no Centro de Nova Friburgo, onde o projeto volta a ser mencionado.3 de fevereiro de 2026: a proposta é lida na primeira sessão legislativa do ano e começa a tramitar.16 de maio de 2026: uma placa com o nome de Isadora é colocada durante uma inauguração simbólica da unidade.21 de maio de 2026: o projeto é aprovado em primeira discussão, com 15 votos favoráveis e dois contrários.26 de maio de 2026: a proposta é novamente aprovada por 15 votos a dois e segue para a Prefeitura.15 de junho de 2026: o prefeito Johnny Maycon veta o projeto.2 de julho de 2026: uma associação de moradores se manifesta publicamente contra a homenagem.14 de julho de 2026: a Câmara vota se mantém ou derruba o veto.