ATENÇÃO MOTORISTA: Frear só na hora de passar pela fiscalização já não alivia multa
Reduzir a velocidade diante do radar e voltar a acelerar logo depois pode deixar de ser suficiente para escapar da fiscalização na BR-101. Uma tecnologia capaz de acompanhar o comportamento do motorista durante um trecho inteiro já está sendo testada no Espírito Santo, estado vizinho ao Rio de Janeiro.O sistema calcula a velocidade média mantida entre dois ou mais pontos da estrada. Assim, mesmo que o veículo passe pelos radares dentro do limite, a tecnologia consegue descobrir se o condutor acelerou além do permitido no intervalo entre os equipamentos.A experiência ainda não foi anunciada para o trecho fluminense da BR-101. O teste realizado do outro lado da divisa, porém, mostra uma possibilidade concreta de modernização da fiscalização em uma rodovia que atravessa boa parte do Estado do Rio e conecta Niterói ao Norte Fluminense e à fronteira com o Espírito Santo.São cerca de 322 quilômetros sob concessão da Arteris Fluminense, passando por áreas de intenso movimento da Região Metropolitana, das Baixadas Litorâneas e do Norte Fluminense. A estrada atende municípios como São Gonçalo, Itaboraí, Tanguá, Rio Bonito, Silva Jardim, Casimiro de Abreu, Rio das Ostras, Macaé e Campos dos Goytacazes, além de outros pontos do corredor.A chegada de uma tecnologia semelhante ao Rio dependeria de estudos, regulamentação e decisões dos órgãos responsáveis. Até o momento, não existe confirmação de instalação ou cronograma para o trecho fluminense.
O sistema testado pela Ecovias Capixaba utiliza radares posicionados em pontos diferentes da BR-101. Cada equipamento registra a passagem do veículo e o horário em que ela ocorreu.Depois, o programa compara o tempo gasto entre um ponto e outro com a distância percorrida. Caso o motorista tenha completado o trajeto rapidamente demais, a tecnologia indica que a velocidade média ficou acima do limite.O funcionamento é diferente do radar convencional, que mede a velocidade apenas no instante em que o veículo passa pelo equipamento. No novo modelo, o trecho inteiro entra na conta.Isso dificulta uma prática comum nas estradas: o condutor freia ao avistar o radar, atravessa o ponto fiscalizado dentro da velocidade permitida e acelera novamente poucos metros depois.No Espírito Santo, a tecnologia foi incorporada a cinco radares que já funcionavam entre os quilômetros 102 e 125 da BR-101, na região de Sooretama. Portanto, não foi necessária a instalação de uma nova sequência de equipamentos: um programa passou a cruzar as informações obtidas pelos aparelhos existentes.
Motorista manteve média de 124 km/h onde o limite era 60
Um dos casos registrados durante a experiência dimensiona o alcance da tecnologia. Em um trecho com velocidade máxima de 60 km/h, um motorista foi identificado com média de 124 km/h entre os pontos monitorados.Ele não passou acima do limite exatamente diante dos radares. Mesmo assim, o tempo gasto para percorrer o trecho revelou que a velocidade mantida no trajeto foi superior ao dobro da permitida.A área fica próxima à Reserva Biológica de Sooretama, onde o limite foi reduzido para proteger motoristas e animais silvestres. Colisões com a fauna e manobras bruscas para evitar animais representam riscos específicos naquele trecho.Pela fiscalização convencional, uma velocidade superior em mais de 50% ao limite da via configura infração gravíssima. A penalidade prevista no Código de Trânsito Brasileiro inclui multa multiplicada por três e suspensão do direito de dirigir.Esse enquadramento, contudo, depende de uma medição feita por equipamento e procedimento admitidos na regulamentação vigente.
Sistema ainda não aplica multas pela média
Apesar de identificar veículos que mantêm velocidade excessiva durante o percurso, o teste capixaba tem caráter educativo. A velocidade média calculada entre os equipamentos ainda não é utilizada, isoladamente, para aplicar multas.A atual regulamentação brasileira disciplina a fiscalização feita por medidores fixos, estáticos, móveis e portáteis. Ela ainda não estabeleceu o uso da velocidade média entre dois pontos como base autônoma para uma autuação.Isso significa que o motorista identificado no teste não recebe uma multa apenas porque o sistema calculou uma média acima do limite. Os radares convencionais continuam funcionando normalmente e podem gerar autuação quando registram excesso de velocidade no ponto fiscalizado.A experiência permite, entretanto, estudar o comportamento dos condutores, identificar trechos de maior risco e avaliar como uma eventual mudança regulatória poderia funcionar no país.
Por que o teste interessa ao motorista do Rio
A BR-101 não termina no Espírito Santo. Ao cruzar a divisa, a rodovia entra no território fluminense e segue pelo Norte do estado, pelas Baixadas Litorâneas e pelo Leste Metropolitano até chegar a Niterói.O teste acontece em um momento no qual a fiscalização eletrônica está sendo ampliada em diferentes rodovias fluminenses. O EcoSerrano mostrou recentemente quemais de 130 radares começaram a funcionar ou estavam previstos para entrar em operação em estradas do Estado do Rio. O corredor recebe diariamente carros, motocicletas, ônibus e veículos de carga. Também atravessa áreas urbanas, acessos municipais, trechos ainda em pista simples e pontos onde variações bruscas de velocidade aumentam o risco de colisões.Além disso, a concessão fluminense entrou em uma nova fase em 2026, com previsão de aproximadamente R$ 6 bilhões em investimentos e intervenções ao longo dos 322 quilômetros. Esse processo abre espaço para modernização de estruturas operacionais, sistemas de acompanhamento e recursos de segurança viária.Isso não significa que os radares de velocidade média estejam incluídos nas obras ou que serão instalados no Rio. Nenhum anúncio nesse sentido foi feito até agora.O teste realizado no Espírito Santo, no entanto, coloca a tecnologia a poucos quilômetros do território fluminense e mostra como os radares já existentes podem ganhar uma função adicional no futuro.Para o motorista, a mudança de lógica seria direta: não bastaria respeitar o limite apenas diante do equipamento. A velocidade precisaria ser mantida durante todo o trecho acompanhado.Uma eventual adoção no Rio ainda dependeria de regulamentação nacional, validação técnica, definição dos locais e atuação conjunta da concessionária, da Agência Nacional de Transportes Terrestres e dos órgãos de fiscalização.Enquanto isso, a experiência capixaba permanece como teste educativo e como uma demonstração do caminho que a fiscalização eletrônica poderá seguir nas rodovias brasileiras.