Placa de homenagem com nomes Isadora Da Silva e Cardoso Stulpen Veiga sendo fixada em Lumiar.

Prefeito veta homenagem a criança que faleceu em Lumiar e revolta moradores

Após Câmara Municipal aprovar e a População de Lumiar apoiar, Prefeito Johnny Maycon apresenta justificativa “controversa”. Entenda, na matéria

O prefeito Johnny Maycon vetou integralmente a lei que daria o nome de Isadora da Silva Cardoso Stülpen Veiga à Unidade de Urgência e Emergência 24 Horas de Lumiar. A decisão foi formalizada nesta segunda-feira, 15 de junho, por meio do veto total à Lei Municipal nº 5.146/2026. O projeto havia sido aprovado em dois turnos pela Câmara Municipal, com 15 votos favoráveis, e nasceu de uma mobilização iniciada após a morte da menina. No documento enviado ao presidente da Câmara, o prefeito afirma que a homenagem, apesar da “nobre intenção”, seria contrária ao interesse público por não representar um consenso entre os moradores de Lumiar. O Executivo cita um ofício encaminhado pela Associação de Moradores e Amigos de Lumiar, a AMA Lumiar. Segundo a justificativa do veto, a entidade informou que a escolha do nome de Isadora provocou “acentuadas divergências, insatisfação e divisão entre os moradores do distrito”. O documento também revela um elemento até então pouco conhecido publicamente: parte da comunidade teria manifestado o desejo de dar à unidade o nome de Dirceu Spitz, apresentado pelo governo como um morador com trajetória de serviços prestados e dedicação ao desenvolvimento de Lumiar.

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Prefeito alega ausência de consenso comunitário

Na mensagem oficial, Johnny Maycon sustenta que a unidade atende não apenas Lumiar, mas também São Pedro da Serra e localidades próximas. Por isso, a escolha de seu nome deveria buscar “a máxima concordância possível”. Segundo o prefeito, a denominação de um equipamento público com essa importância deve funcionar como elemento de união e identidade comunitária, e não como motivo de divisão. O veto afirma que a aprovação do nome de Isadora teria desconsiderado a participação popular prevista na Lei Orgânica Municipal. O governo menciona dispositivos que determinam a participação da coletividade na formulação das políticas públicas e na definição das prioridades dos distritos. A justificativa, portanto, não aponta um impedimento relacionado ao nome da menina ou à possibilidade jurídica de homenageá-la. O argumento central é que a escolha não teria alcançado consenso suficiente dentro da comunidade.

Documento apresenta Dirceu Spitz como nome alternativo

O veto também informa que moradores teriam manifestado apoio à homenagem a Dirceu Spitz. De acordo com o texto assinado por Johnny Maycon, ele possui “reconhecida trajetória de serviços prestados e dedicação ao desenvolvimento de Lumiar” e seu nome teria “expressivo apoio popular”. Para o Executivo, a existência dessa alternativa demonstraria que o nome aprovado pela Câmara não representava todo o sentimento comunitário. O documento não apresenta, entretanto, uma votação, pesquisa, lista de assinaturas ou consulta pública que permita comparar objetivamente o apoio ao nome de Isadora com o apoio a Dirceu Spitz. A fundamentação menciona apenas o Ofício nº 054/2026/PR, atribuído à AMA Lumiar. A íntegra desse ofício não acompanha o documento analisado pelo EcoSerrano, o que impede saber quantos moradores foram consultados, como a entidade tomou a decisão e quais argumentos foram apresentados.

Governo propõe consulta pública ou plebiscito

Ao justificar o veto, Johnny Maycon defende que o nome da unidade seja definido após um debate mais amplo. O documento propõe a abertura de diálogo democrático e a realização de uma consulta pública ou até mesmo de um plebiscito entre os moradores. O objetivo declarado seria construir uma solução consensual que contemple os diferentes entendimentos e preserve a união da comunidade. Na prática, o prefeito vetou completamente a homenagem aprovada pela Câmara, mas deixou aberta a possibilidade de uma nova escolha após outro processo de participação popular. Não foi informado quando essa consulta seria realizada, quem poderia participar, quais nomes seriam apresentados nem qual órgão ficaria responsável pela organização.

Cláudio Damião chama decisão de “covardia”

Antes da divulgação integral do documento, o vereador Cláudio Damião publicou um vídeo acusando o prefeito de negar à família e à comunidade a homenagem a Isadora. “COVARDIA. O prefeito Johnny Maycon vetou batizar a unidade de saúde em Lumiar com o nome da Isadora”, escreveu o parlamentar. Damião afirmou que a proposta nasceu de um desejo da comunidade manifestado em dezembro de 2025 e lembrou que o projeto passou por um longo período de tramitação antes de ser aprovado pela maioria dos vereadores. “E agora, numa ação sem precedentes, ele nega à família, à comunidade e à memória da Isadora esta homenagem”, declarou. A versão do vereador entra em confronto direto com a justificativa apresentada pelo governo. Enquanto Damião afirma que o nome surgiu da própria comunidade, Johnny Maycon sustenta que a escolha gerou divisão e não representava consenso entre os moradores.

Homenagem nasceu após mobilização por atendimento 24 horas

Isadora morreu em dezembro de 2025, e o caso teve forte repercussão entre moradores de Lumiar e São Pedro da Serra. A morte da menina passou a ser associada à luta da comunidade pela implantação de uma estrutura permanente de urgência e emergência nos distritos. Moradores já reivindicavam havia anos um serviço de saúde funcionando durante 24 horas. Depois da morte, a mobilização ganhou força e a proposta de colocar o nome de Isadora na unidade foi apresentada como forma de preservar sua memória. Durante a tramitação, integrantes da comunidade chegaram a realizar um ato simbólico em frente ao posto, onde colocaram uma placa com o nome da menina. O pai de Isadora participou da homenagem. Por isso, o veto vai além de uma discussão administrativa sobre a identificação de um prédio. A decisão atinge um símbolo construído por parte dos moradores a partir de uma perda e de uma cobrança por melhorias no atendimento de saúde.

Projeto foi aprovado por ampla maioria, mas não por unanimidade

A Câmara aprovou a homenagem com 15 votos favoráveis, dois contrários, duas abstenções e duas ausências. Os vereadores Carlinhos do Kiko e José Carlos Schuabb votaram contra. Dirceu Tardem e Janio de Carvalho se abstiveram. Durante a discussão, José Carlos Schuabb alegou que deveria ter sido realizada uma audiência pública antes da escolha do nome. Esse argumento aparece agora, de maneira mais ampla, na justificativa do prefeito, que defende consulta direta aos moradores antes da definição da denominação oficial. Apesar da resistência, a proposta recebeu votos de parlamentares de diferentes grupos políticos, incluindo integrantes da base do governo. O resultado mostrou que o nome de Isadora obteve apoio expressivo no Legislativo, ainda que o Executivo sustente que esse apoio não refletia consenso no distrito.

Câmara poderá derrubar o veto

A decisão do prefeito ainda não encerra o caso. O veto total será encaminhado à Câmara Municipal, onde os vereadores precisarão decidir se mantêm ou rejeitam a posição do Executivo. Caso o plenário alcance a maioria necessária para derrubar o veto, a lei poderá ser promulgada mesmo sem a concordância de Johnny Maycon. Se o veto for mantido, a unidade não receberá o nome de Isadora por meio do projeto aprovado em maio. A nova votação também colocará sob teste os 15 votos favoráveis registrados anteriormente. Os parlamentares terão de decidir se sustentam a homenagem ou se acompanham a justificativa do prefeito sobre a ausência de consenso. Ainda não foi divulgada a data em que o veto será levado ao plenário. O documento oficial deixa agora três perguntas objetivas: qual foi o processo usado pela AMA Lumiar para concluir que não havia consenso; qual é a dimensão real do apoio aos nomes de Isadora e Dirceu Spitz; e quando a Prefeitura pretende realizar a consulta pública ou o plebiscito defendido na própria mensagem.

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