Mapa do Estado do Rio de Janeiro sob efeitos do El Niño, com calor intenso, chuvas irregulares e risco de temporais.

El Niño está confirmado, será muito forte e vai atingir em cheio o Rio de Janeiro

Fenômeno tem 63% de chance de alcançar intensidade muito forte e pode impor ao estado uma sequência perigosa de instabilidades

Agora não há mais dúvida: o El Niño está formado, vai ganhar força nos próximos meses e pode atingir o Estado do Rio de Janeiro em cheio. A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, confirmou oficialmente a presença do fenômeno nesta quinta-feira, 11 de junho. O aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial já está estabelecido e deve se intensificar durante o segundo semestre de 2026. A grande dúvida deixou de ser se o El Niño aconteceria. O que cientistas e centros meteorológicos tentam descobrir agora é o tamanho da força que ele poderá alcançar. Segundo a NOAA, existe uma probabilidade de 63% de o fenômeno se tornar muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Caso a projeção se confirme, este El Niño poderá entrar no grupo dos maiores eventos registrados desde 1950. Para o Rio de Janeiro, a ameaça não aponta para apenas um tipo de desastre. O estado poderá enfrentar uma sucessão de extremos: calor intenso e prolongado, períodos de estiagem, baixa umidade, incêndios, tempestades repentinas e, posteriormente, chuvas volumosas e persistentes.

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Rio pode enfrentar uma perigosa mudança em duas etapas

As simulações realizadas até agora indicam que os primeiros impactos mais severos no estado poderão aparecer a partir de agosto. A expectativa é de que o período mais seco se prolongue até o início de dezembro, acompanhado por ondas de calor e aumento do risco de incêndios. Até mesmo a Região Serrana, conhecida pelas temperaturas mais baixas, poderá enfrentar calor muito acima do normal. Com o solo mais seco, a vegetação também se torna combustível para queimadas. O cenário exige atenção principalmente em áreas de mata, margens de rodovias e regiões rurais. Mas estiagem não significa ausência completa de chuva. O calor acumulado pode favorecer a formação de tempestades rápidas, violentas e muito localizadas. São episódios capazes de provocar rajadas de vento, granizo, grande quantidade de raios e chuva intensa em poucos minutos. Em regiões montanhosas, esse tipo de temporal representa perigo ainda maior. A água desce rapidamente pelas encostas, eleva o nível dos rios e pode provocar enxurradas, alagamentos e deslizamentos.

O maior risco pode aparecer no fim do ano

A partir da segunda metade de dezembro, as projeções apontam para uma nova mudança no comportamento do clima. O risco passa a ser a formação de corredores de umidade e episódios prolongados de chuva sobre o Estado do Rio. Um dos sistemas que mais preocupa é a Zona de Convergência do Atlântico Sul, conhecida como ZCAS. A ZCAS funciona como um extenso corredor de nuvens carregadas, ligando a Amazônia ao Oceano Atlântico. Quando permanece estacionada sobre uma região, pode provocar chuva durante vários dias consecutivos. Esse tipo de situação é especialmente perigoso para a Região Serrana, onde o relevo aumenta a possibilidade de deslizamentos, enxurradas e transbordamentos. Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis estão entre os municípios que precisam acompanhar o fenômeno com atenção redobrada. São cidades marcadas por encostas ocupadas, rios cortando áreas urbanas e milhares de imóveis construídos em pontos vulneráveis.

Memória de 2011 ainda assombra a Serra

A confirmação do El Niño ocorre 15 anos depois da tragédia climática de janeiro de 2011, que matou mais de 900 pessoas na Região Serrana. O desastre atingiu principalmente Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis e permanece como a maior tragédia natural em número de mortes já registrada no Brasil. A simples presença do El Niño não significa que um episódio semelhante voltará a acontecer. Nenhum fenômeno isolado permite prever uma tragédia específica com tantos meses de antecedência. O alerta está na combinação dos fatores. Um El Niño possivelmente muito forte, temperaturas globais já elevadas, ocupação de áreas de risco, rios assoreados e deficiências históricas de drenagem formam um cenário que não pode ser ignorado pelo poder público.

El Niño não significa que choverá todos os dias

No Sudeste, os efeitos do fenômeno são mais irregulares do que no Sul do Brasil, onde a relação com o aumento das chuvas é mais direta. No Rio de Janeiro, isso significa que o estado poderá atravessar longos períodos secos e quentes, interrompidos por temporais intensos. Também podem ocorrer mudanças na chegada e na força das frentes frias. A chuva pode faltar durante semanas e, depois, cair de maneira concentrada em poucas horas ou permanecer sobre a mesma região durante vários dias. É justamente essa irregularidade que torna o cenário perigoso. Além do risco de enchentes e deslizamentos, o fenômeno pode afetar reservatórios, abastecimento de água, agricultura, geração de energia e preço dos alimentos.

Ainda não é oficialmente um “super El Niño”

Apesar das projeções preocupantes, ainda não é possível afirmar que o evento será um “super El Niño”. A expressão não representa uma categoria científica oficial. Ela costuma ser utilizada para descrever episódios excepcionalmente intensos, como os registrados em 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016. A força final dependerá de quanto o Oceano Pacífico continuará aquecendo e de como a atmosfera responderá durante os próximos meses. Mas o ponto principal já está definido: o El Niño não é mais uma possibilidade distante. Ele está presente, deverá se fortalecer e terá seu período mais crítico justamente entre o fim de 2026 e o início de 2027. Para o Estado do Rio, a preparação precisa começar antes que os alertas de chuva apareçam nos celulares. O fenômeno poderá primeiro impor calor e seca. Depois, trazer tempestades e chuvas persistentes. Em uma região historicamente castigada por desastres, ignorar essa sequência seria correr um risco grande demais.

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