Rio com água barrenta e vegetação exuberante, em cenário de potencial crise hídrica.

São Paulo recorre ao Rio Paraíba do Sul por falta d’água e pode prejudicar RJ

Medida visa equilibrar abastecimento de água, mas situação pode gerar reflexos no Estado do Rio

O Sistema Cantareira inicia 2026 dependente da transposição de água do Paraíba do Sul para manter o abastecimento da Grande São Paulo. Dados técnicos indicam déficit entre captação local e volume necessário de saída.

Transferência entre bacias sustenta fornecimento: O abastecimento de água da Grande São Paulo pelo Sistema Cantareira atravessa o início de 2026 sustentado pela transferência de água entre bacias hidrográficas. Dados técnicos indicam que a captação natural local tem sido insuficiente para atender a demanda de saída do sistema. Se dependesse apenas das chuvas nas bacias de origem, o Cantareira receberia cerca de 17 mil litros por segundo, enquanto a necessidade de liberação para abastecimento público gira em torno de 23 mil litros por segundo. A diferença vem sendo compensada por transposição de água da Bacia do Rio Paraíba do Sul, manancial estratégico também para o Estado do Rio de Janeiro.

Déficit hídrico e números da operação atual: Boletins técnicos da Agência Nacional de Águas (ANA), com dados de janeiro, indicam baixa entrada natural de água em reservatórios ligados ao sistema doador. No reservatório Jaguari, na bacia do Paraíba do Sul, a vazão natural registrada foi de aproximadamente 16 m³/s, cerca de 35% da média histórica. Desse total, cerca de 8,43 m³/s foram desviados para reforçar o Sistema Cantareira. Na prática, conforme os dados divulgados, mais da metade da água que entra nesse ponto da cabeceira tem sido transferida para o abastecimento paulista. Especialistas classificam o cenário como de pressão operacional, mas sem indicação de colapso iminente. A situação é tratada como desafio de gestão diante de um regime de chuvas considerado atípico.

Padrão de chuva fora das áreas de cabeceira: Pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) apontam que o verão apresenta bloqueios atmosféricos que dificultam a chegada de chuvas volumosas nas áreas de cabeceira dos reservatórios. Segundo o climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, as precipitações têm ocorrido de forma mais concentrada em áreas urbanas, e não onde estão os principais pontos de armazenamento. “O pico da estação chuvosa deveria ser dezembro, janeiro e fevereiro, mas o que cai no Cantareira mesmo, no reservatório, é pouco”, explicou o pesquisador, conforme entrevista publicada.

Alerta nos reservatórios do Paraíba do Sul: O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (CBH-PS) informou que acompanha com rigor a queda dos níveis dos reservatórios da bacia doadora. Esses reservatórios são considerados essenciais para garantir a regularidade do rio ao longo do ano. De acordo com o presidente do comitê, Renato Traballi Veneziani, os níveis atuais estão entre os mais baixos desde o fim da década de 1990. Ele afirma que, caso seja decretada crise hídrica em São Paulo, existem faixas de corte que podem exigir revisão de regras operativas junto à ANA para priorizar o abastecimento humano. Conforme declaração pública, esse cenário poderia implicar restrições a outros usos econômicos da água, caso a estiagem persista.

Posição do CEIVAP sobre a transposição: O Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (CEIVAP) informou em nota que a transposição não deve ser interpretada como solução única para o abastecimento paulista. Segundo o comitê, a obra foi homologada após a crise hídrica de 2014–2015 e deve ser vista como parte de uma estratégia integrada de gestão. A nota afirma que a segurança hídrica de longo prazo depende da diversificação de fontes e de investimentos estruturais.

Situação do abastecimento no Estado do Rio de Janeiro: Apesar dos níveis reduzidos em reservatórios do Paraíba do Sul, avaliações técnicas indicam que, por ora, não há sinal de desabastecimento no Estado do Rio de Janeiro. A Região Metropolitana fluminense depende do rio por meio dos sistemas Guandu e Ribeirão das Lajes. Dados técnicos apontam vazão natural em Santa Cecília na faixa de 151 m³/s, ponto de captação ligado ao sistema Guandu. Representantes do setor de engenharia sanitária avaliam que o volume atual oferece margem de segurança em relação à demanda de tratamento. Especialistas destacam, contudo, que qualquer ampliação de retirada dependeria de estudos e deliberação regulatória para manutenção do equilíbrio hidrológico.

Papel da ANA na mediação entre estados: A Agência Nacional de Águas informou que realiza monitoramento permanente da operação para conciliar usos múltiplos e segurança hídrica dos estados envolvidos. Segundo nota técnica, medidas temporárias e preventivas podem ser discutidas quando há indicação de período úmido desfavorável. A agência afirma que as decisões são baseadas em monitoramento hidrológico, projeções e avaliação de risco, considerando o papel estratégico do Paraíba do Sul no abastecimento fluminense.

Estratégias operacionais adotadas pela Sabesp: A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) sustenta que, após investimentos em integração de sistemas, a infraestrutura atual oferece mais flexibilidade operacional do que em crises anteriores. Segundo a diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade, Samanta Souza, a interligação entre represas e a inclusão de novos sistemas permitem transferências internas de água para preservar o Cantareira. Entre as medidas adotadas está a redução de pressão na rede durante a madrugada para conter perdas e consumo. Conforme a companhia, a economia gerada nesse período pode representar volume equivalente a um mês de abastecimento da capital paulista.

Participe: cenário hídrico no Sudeste

  • O Cantareira está operando apenas com chuva local? Não. Parte relevante do volume vem de transposição do Paraíba do Sul.

  • Há indicação de colapso no abastecimento? Não há colapso indicado no momento, mas há alerta de gestão e cautela.

  • O Rio de Janeiro corre risco imediato de desabastecimento? Avaliações técnicas atuais indicam que não, segundo dados de vazão e órgãos do setor.

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