Entre o sagrado e o cômico, município do interior do Rio revela o lado mais inusitado do interior fluminense. Conhece?
Itaperuna, no noroeste fluminense, mistura fé, poesia e ironia em sua história. De um desertor imperial à réplica do Cristo Redentor, é uma cidade improvável e fascinante.
De um desertor real a uma réplica do Cristo Redentor, a cidade mistura fé, cultura e ironia em doses que só o interior sabe contar.
Uma origem que beira o improvável
Dizem que todo lugar tem um começo, mas o de Itaperuna parece ter sido escrito à mão por um roteirista inspirado. Segundo relatos históricos, o primeiro morador oficial foi José Lannes Dantas Brandão, um desertor das tropas de D. João VI, que trocou o mosquete pela enxada e se instalou em uma localidade chamada Porto Alegre, no início do século XIX.A pequena vila cresceu em torno de uma capela dedicada a São José do Avaí, e, décadas depois, virou município. A emancipação política chegou em 1889, ano simbólico — o mesmo da Proclamação da República.
Uma pedra, um nome e um símbolo
O nome Itaperuna vem do tupi: “caminho da pedra preta”. Foi o engenheiro Francisco Portela, presidente da antiga Estrada de Ferro Campos–Carangola, quem olhou para a imensa rocha que domina a paisagem local e sugeriu a mudança de nome.Essa pedra existe até hoje. É a Pedra Elefantina, descrita pelo geógrafo Alberto Ribeiro Lamego como uma “lombada negra e polida” que lembra o dorso de um elefante. Mais que um acidente geográfico, virou símbolo oficial no brasão da cidade, inspiração para poetas e motivo de orgulho para os moradores.
Um Cristo que vigia o interior
Como se não bastasse o nome inspirado e a história improvável, Itaperuna também tem o seu próprio Cristo Redentor. A estátua foi inaugurada em 10 de maio de 1966, mede 20 metros de altura e fica no Morro do Castelo, o ponto mais alto da cidade.Projetado por Cláudio Cerqueira Bastos e esculpido por Antônio Francisco Moreira, o monumento representa fé e pertencimento — uma versão interiorana do famoso símbolo carioca, cercada por morros e ruas calmas.
A cidade que teve uma Câmara republicana antes da República
Um dos episódios mais curiosos da história local é político: Itaperuna elegeu uma Câmara de Vereadores republicana antes mesmo de o Brasil se tornar uma República. As eleições ocorreram em 10 de maio de 1889, e os vereadores tomaram posse em 4 de julho daquele ano — quatro meses antes de 15 de novembro, data da proclamação nacional.Entre a anedota e o feito, o fato é que Itaperuna entrou para os livros como uma cidade que se adiantou ao seu tempo.
Cultura, poesia e milho
A cidade também é berço de tradições singulares, como os Jogos Florais de Itaperuna, festival literário que celebra a trova — uma forma curta e rimada de poesia. Promovido pela União Brasileira de Trovadores (UBT), o evento reúne participantes de todo o país, com saraus, desfiles e até eleição de musa poética.E como todo bom município do interior, Itaperuna também tem seu festival gastronômico. O FestAré do Milho, realizado no distrito de Aré, é uma festa que reúne música, dança e um cardápio irresistível: pamonha, canjica, bolo e tudo o que possa nascer de um grão dourado.
As águas que curam
Outro tesouro local é o Parque das Águas Soledade, cuja fonte foi descoberta em 1935. As águas magnesianas do parque são conhecidas por efeitos terapêuticos, indicadas para problemas hepáticos, renais e digestivos. A descoberta acidental virou atrativo turístico e símbolo de saúde e tradição.
Um retrato do interior com alma e ironia
Hoje, Itaperuna é um mosaico de fé, poesia e memória. Entre a Pedra Elefantina, o Cristo gigante e a lembrança do desertor fundador, a cidade parece rir da própria história — e é justamente isso que a torna única.É o tipo de lugar em que o passado não se apaga, apenas muda de forma — às vezes em pedra, às vezes em verso, às vezes em milho cozido.ACOMPANHE O ECOSERRANO