Lumiar: Apresentação de Maracatu teve presença da PM e pedido de interrupção

Ritmo já foi alvo de protestos com tentativa de proibição no distrito. Em 2024, o grupo fez parte da programação oficial do Carnaval de Nova Friburgo e foi muito aplaudido. Veja o vídeo completo na reportagem

Na última quarta-feira, 14, na parte final da tarde, o grupo de Maracatu Baque Rebate se apresentou no distrito de Lumiar. A apresentação fez parte da programação oficial do Carnaval de Nova Friburgo. No entanto, alguns moradores se sentiram incomodados e acionaram a polícia para tentarem interromper a apresentação (veja o vídeo no final do texto). A chegada dos policiais, bem como o momento em que os integrantes do grupo interromperam a apresentação foi filmada. De maneira tranquila, os policiais pediram para que a apresentação cessasse, ao que um dos integrantes do grupo, informou que a apresentação continuaria. De acordo com ele, a apresentação pertencia ao cronograma oficial da folia friburguense, além disso, a arte, patrimônio imaterial do Brasil, não poderia ser censurada. “Fomos contemplados pelo edital de Blocos de Ruas, o Governo do estado nos apoia, estamos fazendo nossos ensaios escondidos porque não podemos utilizar praças e quadras para nossas atividades de aulas culturais, que é de grande importância para a região”, disse um integrante.

Outra tentativa de silenciar o movimento

Ao que parece, segundo consta no vídeo, moradores do distrito insatisfeitos com o grupo tentaram acabar com a apresentação. Não foi a primeira vez. Em 2023, de acordo com os integrantes do grupo, outras tentativas foram realizadas com o objetivo de impedir e proibir ensaios e apresentações de Maracatu no distrito. No início do ano passado, na sede da Euterpe Lumiarense, houve a interrupção de um ensaio que envolveu, inclusive, a polícia militar.  Uma moradora teria entrado no local de ensaio, pedido para que o artista parasse de tocar e ameaçou chamar a polícia. Pouco tempo depois, a moradora retornou ao local com uma viatura e os policiais pediram para que o responsável se dirigisse para a sede policial. Ao EcoSerrano, o Mestre disse que se recusou a ir com os policiais. O artista explicou-se dizendo que apesar dele ser o professor, todos ali eram responsáveis pelo encontro. Nas reclamações da moradora, o Maracatu foi chamado de “barulho”, termo utilizado em algumas ocasiões. No entanto, a moradora resolveu retirar a queixa. Pouco tempo depois, desta vez em uma residência de um dos alunos, a proprietária do imóvel entrou no local durante o ensaio, reclamou do ritmo, disse que o professor sairia do distrito “fugido” e que ele estava arrumando um problema com toda a comunidade, por conta do Maracatu. O fato também teria sido discutido e explanado durante uma reunião da AMA Lumiar, por uma das alunas, que era membro da associação.

Quem é o Mestre?

Desde dezembro de 2021 o músico, artista e professor de Maracatu, que pediu para não ser identificado pro razões de segurança, se apresenta e dá aulas em Lumiar. O ritmo cativou muitos entusiastas do distrito que formaram um grupo para aprender mais sobre o Maracatu. O músico é artesão de instrumentos percussivos, neto de Policarpo Ferreira, antigo cantador de Coco, com quem aprendeu o Samba de Coco de Roda. Cresceu na vivência e na prática da cultura tradicional pernambucana e hoje dedica-se a difundir, defender e perpetuar seus saberes. O músico já tocou com grandes mestres e artistas da cultura popular brasileira, como Mestre Ferrugem, Mestre Galo Preto, Selma do Coco, Lia de Itamaracá, Dona Cila, entre outros, tendo participado de trabalhos musicais de diversos artistas de Pernambuco. Hoje, é mestre do grupo percussivo de maracatu e coco de roda nos distritos do Sana e Lumiar (RJ), o Baque Rebate das Montanhas, criado pelo artista junto à comunidade local. Através deste grupo, tem realizado um intenso trabalho de mobilização cultural na serra fluminense, produzindo oficinas, eventos e trocas com importantes mestres, guardiões da tradição cultural de suas raízes. Apesar da história de peso, o ritmo enfrenta problemas no distrito. Tudo começou quando alguns moradores reclamaram do som, chamando de “barulho” um dos ritmos mais antigos e considerado patrimônio histórico do Brasil e dizendo que “aquilo não era a cultura do local”.

AMA Lumiar

Na gestão anterior da Associação de Moradores de Lumiar, o ritmo foi acolhido pela AMA e as conversas para os ensaios, apresentação e locais foram acordados junto a Secretaria de Cultura. O EcoSerrano entrou em contato com o atual presidente da nova administração da AMA Lumiar, no entanto, até o fechamento desta reportagem, o portal não obteve retorno. A reprodução deste conteúdo em parte ou em sua totalidade, sem prévia autorização do EcoSerrano, pode acarretar em violação dos direitos autorais e resultar em uma ação judicial.

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